Saint Alamo – Balas não sentem culpa – Parte 1

Por Audaci Junior
Data: 21 dezembro, 2018

Saint Alamo – Balas não sentem culpa – Parte 1Editora: Independente – Série em duas partes

Autores: Jonathan Nunes (roteiro) e Rafael Conte (arte).

Preço: R$ 25,00

Número de páginas: 88

Data de lançamento: Agosto de 2017

Sinopse

Raymond Castle é o violento e misterioso xerife da pequena cidade de Saint Alamo, situada no velho Oeste norte-americano. Mas ele nem sempre foi um homem da lei e esconde em segredo absoluto seu passado criminoso, no qual era um assassino e ladrão conhecido apenas pela alcunha de “Claw”.

Porém, quando o xerife finalmente acredita ter deixado o passado para trás, um forasteiro chega à cidade obrigando-o a se preparar para uma guerra contra um velho conhecido, que ameaça não apenas acabar com sua integridade física, como revelar os seus segredos e destruir tudo o que ele construiu.

Positivo/Negativo

Quando dois caipiras discutem na frente do xerife, o que a autoridade faz? Simplesmente dá um tiro para o alto para cessar o bate-boca. Se for observada a cota no cinema, essa forma de chamar a atenção é uma das mais vistas nos clichês do gênero.

Para quem não liga para essas repetições, Saint Alamo é um gibi que pode ser lido sem muita expectativa, cheio de diálogos que remetem mais aos westerns de Quentin Tarantino, mas sem a trivialidade criativa e casual deste.

O enredo gira em torno de duas frentes temporais, 1878 e 1886, mostrando a vida de um xerife caolho e o que ele fazia em um passado não tão distante.

A arte com antropomorfismo tem bons momentos, inclusive quando busca ângulos mais inspirados, como a splash page no começo da HQ. Em outras cenas de ação, as sequências soam truncadas, sem tanto dinamismo.

Apesar das homenagens nos títulos dos capítulos a filmes e games acerca do tema, como o clássico “balé de violência” em câmera lenta promovida por Sam Peckinpah (1925-1984), Meu ódio será tua herança (1969), o que mais se percebe é a profusão de sangue de produções recentes como Django Livre (2012), novamente de Tarantino.

Ainda na abertura dos capítulos, o roteirista colocou epígrafes que “dialogam” com os títulos (3:10 to Yuma, The wild bunch e Sunset riders), mas em nenhum momento – com exceção da primeira frase – traz uma conexão com (o mais importante) a história em si.

Há um bom contexto do sadismo do antagonista Silas Dutch, envolvendo a Guerra de Secessão (1861-1865), mas os autores exageram no caricatural, com o focinho de psicótico e babando na frente da vítima.

Já que é colocada a canastrice física junto ao tom de ironia da fala do Dutch, prevendo o que vai acontecer com um prisioneiro, por que reforçar mais ainda tal característica sanguinária com a reprovação de outro personagem?

Outro problema na trama é o humor – seja ácido ou pastelão. Em determinados momentos, por exemplo, ele não funciona por ser pueril demais para quebrar totalmente a tensão (“Sempre quis uma camisa vermelho sangue”, diz o protagonista quando acaba de levar um tiro); ou ainda não tem graça nenhuma, como a aparição e as piadas medíocres de capangas que fazem alusão à dupla Stan Laurel (1890-1965) e Oliver Hardy (1892-1957), do seriado televisivo O Gordo e O Magro.

O cômico é alcançado quando há mais sutileza, vide um galo ser o juiz numa briga, no melhor estilo de “rinha”. Também há graça em um ou outro easter egg, como a funcional aparição do Tio Patinhas ou o animal escolhido para representar o fora da lei George “Big Nose” Parrott (?-1881).

No geral, esse quesito de caracterização antropomórfica não chega a fugir do estereótipo de cada animal, mas isso também não atrapalha a narrativa.

Entre os três capítulos apresentados, uma das voltas ao passado, remontando um assalto a banco, torna-se uma sequência desnecessária, sem peso, que não acrescenta nada à trama. O único valor atribuído a ela é evidenciar algumas características que já foram deduzidas ou exploradas nas páginas anteriores (o irmão sacana, o sentimento por uma personagem, a índole do anti-herói).

Um episódio-chave do enredo é resumido em um quadro cheio de diálogos, o que pode indicar (mesmo sendo revelado por cima) que talvez possa aparecer em um flashback no segundo volume, ainda não lançado (está previsto para janeiro de 2019).

Além do Raymond “Claw” Castle, alguns personagens carregam mistérios nos seus coldres que podem ser explorados na derradeira edição. O modo de falar do vilão Silas Dutch fica mais “polido” anos depois.

A edição tem capa cartonada sem orelhas, papel off-set de boa gramatura e impressão, prefácio assinado por Émerson Vasconcelos (editor-chefe do site Redação Multiverso), pin-ups de artistas convidados, o processo de criação e uma seção revelando os easter eggs. Curiosamente o volume conta com três revisores (função bem rara de se ter no meio editorial independente). Mesmo assim, há alguns “escorregões”.

Terminando como começou – com frases de efeito bem batidas –, o gancho para a conclusão de Saint Alamo não chega a empolgar quem já viu esse “filme de bangue-bangue” diversas vezes. Mesmo assim, é válida a tentativa de trazer de volta esse espírito do gênero.

Para quem ficou curioso, o título possui um site, no qual se pode comprar a edição e ler gratuitamente o primeiro tomo on-line.

Classificação:

2,0

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