Sandman – Terra dos Sonhos

Por Ricardo Malta Barbeira
Data: 7 julho, 2006

Sandman - Terra dos SonhosEditora: Conrad Editora – Série trimestral

Autores: Neil Gaiman (roteiro), Kelley Jones, Malcolm Jones III, Robbie Busch, Charles Vess e Coleen Doran (arte) e Dave McKean (capas).

Preço: R$ 60,00

Número de páginas: 168

Data de lançamento: Dezembro de 2005

Sinopse

Em Calíope, um escritor transtornado procura uma musa que possa lhe proporcionar a inspiração que tanto anseia.

A realidade felina e seu próprio imaginário se confundem em Um Sonho de Mil Gatos.

Uma promessa é paga em Sonho de uma Noite de Verão, enquanto várias lendas são eternizadas.

Fachada mostra todo o desespero que fica à espreita, apenas esperando o apropriado momento para revelar-se.

Positivo/Negativo

Nas quatro histórias curtas desta edição, Gaiman foge um pouco do que apresentara anteriormente, ao mesmo tempo em que busca introduzir o leitor mais profundamente no universo tão particular de seus personagens.

Todas as tramas são ótimas, e é nos detalhes que se percebe a beleza quase mágica de cada uma delas.

Calíope parece uma desculpa para o roteirista utilizar seu conhecimento da mitologia greco-romana, mas vai muito além.

Gaiman mostra que a ganância faz com que o homem esqueça seu temor pelo divino, ajudando a jogar por terra as suas próprias crenças.

Participando como artista convidado, Kelley Jones realiza um excelente trabalho, principalmente ao retratar um Morpheus imponente e assustador.

A seguir vem uma das mais inusitadas histórias de Sandman: Um Sonho de Mil Gatos. O horror expressado pelos olhos dos animais na página 45 resume bem o quão belo e terrível é este conto.

Contando com desenhos ainda mais elaborados por parte de Jones, a trama consegue dar ao horror focinhos nunca antes vistos.

Com o passar do tempo, ficaria mais claro o forte sentimento que o roteirista nutre pelos felinos, ao utilizá-los com certa freqüência em suas obras.

Chega então Sonho de Uma Noite de Verão, que se vale da homônima peça de William Shakespeare para construir uma fábula tão fantástica quanto ambiciosa.

Cada quadrinho consegue transbordar a mais pura magia, não fazendo feio frente à genial obra do dramaturgo inglês. Não é a toa que a história ganhou o prestigiado prêmio de literatura World Fantasy Award, quando foi publicada pela primeira vez.

Recomenda-se veementemente que o leitor – que ainda não o fez – leia a peça de teatro original logo após ler esta “homenagem” perpetrada por Neil Gaiman.

Para fechar o encadernado, Fachada é a trama em que a Morte dá as caras, e que o clima de angústia dá o tom.

O desespero de Urânia “Rainie” Blackwell (Garota Elemental) torna-se de tal maneira tangível, que acaba por trazer o inferno particular da personagem para mais perto da nossa realidade. A cada página o leitor sofre junto com ela.

Vale citar as boas referências ao suicídio, que são apresentadas de um ponto de vista demasiadamente humano pelo autor.

Quanto à edição, a capa dura, a qualidade do papel e o acabamento mantêm o excelente nível dos encadernados anteriores.

Nos extras é muito interessante a apresentação de Gaiman, com destaques para a referência ao quase colapso do autor ao concluir Casa de Bonecas, e ao momentâneo fracasso de tentar escrever Sonho de Uma Noite de Verão.

Também há uma apresentação assinada pelo escritor Steve Erickson e as já tradicionais Notas na Areia.

Mas o diferencial é o roteiro original para Calíope. Estão lá notas de Neil Gaiman e de Kelley Jones, além de vários detalhes interessantes.

Para terminar a resenha, vale reproduzir um trecho da página 127, no qual o escritor descreve para o artista a própria Calíope:

“… sua cabeleira loira e desgrenhada desce até a cintura. A chave aqui é a vulnerabilidade – não deve parecer excitante, não é uma visão no estilo ‘oba, mulher pelada’; contemplá-la é quase doloroso. Destrua o coração deles, Kelley…”.

Bem dito e habilmente realizado.

Classificação

5,0

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