Scorchy Smith and the art of Noel Sickles

Por Sérgio Codespoti
Data: 17 março, 2014

Scorchy Smith and the art of Noel SicklesEditora:  IDW Publishing – Edição especial

Autores: Noel Sickles (texto e arte) e Dean Mullaney (editor).

Preço: US$ 49,99

Número de Páginas: 392

Data do Lançamento: Julho de 2008

Sinopse

Scorchy Smith é um piloto de avião independente. Suas aventuras o levam a várias partes do mundo, enfrentando criminosos e espiões.

Positivo/Negativo

Scorchy Smith and the art of Noel Sickles é um volume de peso. Literalmente. O livro tem formato quadrado (28,5 x 28,5 cm), com capa dura e pesa aproximadamente três quilos. A qualidade da impressão e da encadernação é excepcional, com parte das páginas em papel fosco de alta gramatura e o restante num papel cor de creme diferente, para sugerir a cor e a textura dos antigos jornais. Poucas vezes um artista de quadrinhos recebeu um tratamento tão maravilhoso para sua obra.

O livro está divido em duas partes. A metade inicial inclui prefácio do editor Dean Mullaney, uma longa introdução de Jim Steranko e uma monografia de mais de 100 páginas, ricamente ilustrada, assinada por Bruce Camwell, sobre o trabalho de Noel Sickles como ilustrador e desenhista de quadrinhos.

A segunda parte inclui todas as tiras de Scorchy Smith ilustradas por Sickles, de dezembro de 1933 a novembro de 1936. Essa é a primeira vez que o material foi compilado numa única edição.

Noel Sickles (1910-1982) é um nome quase desconhecido dos leitores, o que é uma enorme injustiça. Ele era um mestre tanto dos quadrinhos, quanto da ilustração. Sua carreira nas HQs é curta – mas muito importante –, apenas três anos fulgurantes.

Depois de abandonar as HQs, por volta de 1936, passou 40 anos atuando como ilustrador, trabalhando para algumas das mais famosas revistas e editoras da época (é dele, por exemplo, a primeira edição de O velho e o mar, de Ernest Hemingway). Sickles recebeu o National Cartoonist Society’s Advertising and Ilustration Award duas vezes, em 1960 e 1961.

No campo da ilustração comercial, ele pode ser incluído na mesma categoria de nomes como Al Dorne, Robert Fawcett, Austin Briggs e Al Parker.

Scorchy Smith surgiu em 1930, inspirada pelas aventuras de Charles Lindbergh (é a terceira tira com esse tema, após Tailspin Tommy, de 1928, e Skyroads, de 1929). Foi criada por John Terry, um desenhista medíocre, e distribuída para os jornais pela AP Newsfeatures.

Terry se afastou depois de ser diagnosticado com tuberculose e foi substituído por Sickles. As tiras de aventura ainda estavam na sua infância nesse período.

Foi com o enredo e os desenhos de Sickles que Scorchy Smith se transformou no material mais popular da AP Newsfeatures. O autor era um mestre do preto e branco. Ele inventou várias inovações narrativas e estilísticas usadas nos quadrinhos. Ele usava uma retícula (Zipatone) de dois tons para criar graduações em cinza.

Nas suas inovações estilísticas (o uso do preto chapado, a definição dos personagens de maneira naturalista usando luz e sombra, a utilização da silhueta, a simplificação da linha, etc.), Sickles se inspirou nos impressionistas franceses, como Claude Monet, nos artistas alemães da época (que faziam cartuns para a revista Simplicissimus), nos chargistas T.S. Sullivan e J.R. Williams e no pintor e ilustrador Howard Pyle.

Já no aspecto narrativo (o emprego de enquadramentos diferenciados, o uso de close-ups, a alternância entre tomadas para criar um efeito emocional etc.) foi fortemente inspirado nos filmes da época.

Sickles dividia um estúdio com seu amigo Milton Caniff (outro mestre, criador de Terry e os Piratas e Steve Canyon).

Em 1935, Caniff adotou diversos recursos estilísticos mais impressionistas utilizados por Sickles, na produção de Terry e os Piratas.

Os dois artistas trocavam suas experiências. Caniff ajudava Sickles com o desenvolvimento do roteiro (Sickles preferia trabalhar com o enredo de suas histórias dia a dia, enquanto Caniff fazia um roteiro mais completo para suas tiras) e, em contrapartida, se inspirava nas descobertas visuais e narrativas do colega.

Quando Sickles assumiu as tiras de Scorchy Smith, em 4 de dezembro de 1933, ele começou imitando o estilo de John Terry. Era um material realmente medíocre. O uso dos balões era amador; as figuras humanas eram toscas e inexpressivas; quase não havia uso do preto chapado; o volume das figuras era criado por meio de hachuras, mas de maneira aleatória, sem levar em consideração uma fonte de luz para compor a cena.

Para um artista do talento de Sickles, imitar essa mediocridade era difícil. Aos poucos, ele se desvencilhou das amarras e mostrou sua técnica e estilo próprio.

A primeira tira do livro é de John Terry, de 20 de novembro de 1933, e o material foi incluso para dar uma ideia ao leitor das imposições sobre a arte de Sickles. A edição também traz algumas tiras de Bert Christman, um de seus assistentes, que substituiu Sickles – que, após descobrir que a distribuidora estava recebendo cerca de 2.500 dólares pelo seu trabalho e lhe pagando apenas 125 dólares, desistiu de fazer tiras e passou a trabalhar com ilustração.

A história de Scorchy Smith é irrelevante. Ele é um piloto aventureiro, possui amigos e namoradas e se envolve em aventuras diversas com duelos aéreos, cavalgadas em desfiladeiros e desertos perigosos e outras situações típicas desse gênero. Séries como Terry e os Piratas, Steve Canyon e Johnny Hazzard (de Frank Robbins) criaram personagens mais carismáticos e duradouros.

O grande mérito de Scorchy Smith, contudo, é a sua evolução artística. Acompanhar o desenvolvimento da série, tira após tira, e perceber a melhoria óbvia dos desenhos e da narrativa é uma aula de quadrinhos.

O livro é impecável e faz parte do selo The Library Of American Comics, da IDW.

Classificação

5,0

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