Seconds

Por Tiago Salviatti
Data: 22 dezembro, 2014

SecondsEditoraBallantine Books – Edição especial

Autores: Bryan Lee O’Malley (roteiro e arte), com colaboração de Jason Fischer (assistente de arte), Dustin Harbin (letras) e Nathan Fairbairn (cores).

Preço: US$ 25,00

Número de páginas: 336

Data de lançamento: Julho de 2014

Sinopse

Katie vive em uma pacata cidade, onde administra um restaurante enquanto trabalha na restauração de um prédio histórico que servirá para seu segundo restaurante.

Após receber a visita de uma entidade mística, Katie descobre que pode corrigir seus erros, revisando como bem entender o seu passado. Ela só deve entender os limites de sua dádiva, e até onde poderá brincar com o universo.

Positivo/Negativo

O titulo desta graphic novel de Bryan O’Malley tem vários significados. Seconds  é o nome do restaurante (e corresponde ao nosso popular “repetir o prato”), mas também tem o sentido da “segunda chance” que a protagonista tem ao revisar seu passado e corrigir o que não a agrada.

É também uma unidade de medição angular (graus, minutos e segundos) – motivo pelo qual serve como unidade de medição de tempo (sim, esse é o motivo dos relógios analógicos serem circulares) – e, ainda que mais tênue, tem a conotação da história dar voltas sobre si própria e até, na expressão to come full circle (de voltar ao local onde tudo começou).

E há ainda o ponto de vista da carreira do autor, uma vez que se trata do primeiro lançamento após o sucesso de Scott Pilgrim. Mas essa faz menos sentido, uma vez que O’Malley publicou Lost at Sea em 2003, e a história de Pilgrim se divide em seis graphic novels lançadas anualmente entre 2004 a 2010.

Com um estilo que parece combinar Chris Ware (nas construções, ambientes e cores) a um ar de mangá (nos personagens com seus olhos enormes e expressivos), é fácil se encantar e se perder com a arte. O mundano é lindo, o abstrato é lindo, o absurdo e perplexo são lindos em todos os detalhes e nuances da minuciosa construção de um mundo coeso, onde a trama cotidiana flui da mesma forma no sobrenatural encontro com espíritos e entidades fantasiosas.

Dito isso, é importante destacar que no outro lado, no roteiro, nem tudo são flores.

O texto é fluído, com uma condução tão orgânica que é invejável ver a naturalidade da transição entre o narrador e os personagens – inclusive com alguns eventuais bate-bocas entre eles. Mas no roteiro em si, deixa muito a desejar.

Começa pela protagonista Katie. Seu dilema interno é inexistente (ela é jovem, saudável e bem-sucedida e, de uma forma ou outra, encontrou sua cara-metade) e a tênue história que surge pela inclusão dos espíritos e cogumelos mágicos vai beirando o ridículo conforme Katie usa tamanho poder e capacidade de apagar erros cometidos para… evitar dormir tarde?

E é essa condição de ausência de conflito que se alastra por quase dois terços do livro. Toda vez que um drama real aparece, a protagonista simplesmente usa o poder dos cogumelos mágicos e, antes que se vire duas páginas, tudo está de volta ao normal.

Ainda que isso seja parte da personalidade da protagonista, falta o desenvolvimento, o caminho gradual para a conclusão. E falando de conclusão, é realmente frustrante chegar ao ato final com algo tão bobo e previsível. Falta impacto, fechamento.

Tudo é forçado para que, como dito no começo do texto, o círculo se complete, sem se importar que o caminho percorrido até ali não teria conduzido a esse desfecho.

Ainda que o roteiro seja fraco, é superior a muitos títulos mensais de Marvel e DC. Na verdade, em alguns momento a obra remete aos bons momentos do universo Vertigo, com quadrinhos que ousavam desafiar fronteiras pelo direito de desbravar os limites narrativos; os limites que esse novo universo de quadrinhos adultos poderia alçar… Mesmo que, às vezes, falhe miseravelmente.

Classificação

classificacao35

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