SELEÇÃO TEX E OS AVENTUREIROS # 5

Por Rodrigo Emanoel Fernandes
Data: 1 dezembro, 2005


Título: SELEÇÃO TEX E OS AVENTUREIROS # 5 (Mythos
Editora
) – Revista bimestral
Autores: Alfredo Castelli, Cláudio Nizzi, Guido Nolita, Mauro Boseli, Moreno Burattini, Luigi Mignacco, Gianluigi Bonelli (roteiro), Nando e Denisio Esposito, Fabrizio Busticchi, Corrado Roi, Bruno Brindisi, Roberto Diso, Gallieno Ferri, Rodolfo Torti, Aurélio Galleppini (desenhos).

Preço: R$ 17,50

Número de páginas: 288

Data de lançamento: Outubro de 2005

Sinopse: A História de Java (texto de Alfredo Castelli e arte de Nando Esposito e Denisio Esposito, com participação especial de Fabrizio Busticchi) – O fiel assistente de Martin Mystère, o homem de Neanderthal conhecido como Java, abandona casa e amigos e parte em busca de um objetivo desconhecido, deixando o Detetive do Impossível perplexo.

Tentando descobrir o paradeiro de seu melhor amigo, Mystère desenterra todo o processo de iniciação de Java no mundo contemporâneo desde sua partida da Cidade das Sombras Diáfanas, na região da Mongólia, sem suspeitar que seu assistente talvez não tenha sido o primeiro homem primitivo a chegar ao ocidente.

Vamp (texto de Alfredo Castelli e arte de Corrado Roi) – Uma experiência gráfico/narrativa surreal com Dylan Dog, o Investigador do Pesadelo.

A Cidade Nua (texto de Cláudio Nizzi e arte de Bruno Brindisi) – Nick Raider fazendo o que sabe fazer melhor num caso de assassinato.

Jívaros (texto de Guido Nolita e arte de Roberto Diso) – Mister No atravessa a Amazônia de barco, tentando convencer um cliente a não perder a cabeça à toa… sem sucesso.

A Herança do Pirata (texto de Mauro Boseli e arte de Moreno Burattini e Gallieno Ferri) – O eterno caçador de tesouros e coadjuvante nas histórias de Zagor, Digging Bill, tem mais uma chance de realizar o sonho de sua vida, se conseguir pegar o papagaio do pirata.

O Herói que Não Está no Gibi – Parte 4 de 5 (texto de Luigi Mignacco e Alfredo Castelli e arte de Rodolfo Torti) – Na penúltima parte da série de “aventuras ferroviárias” com os heróis bonellianos, Martin Mystère viaja ao fundo do mar e encontra as lendárias sereias.

Assalto ao Trem (texto de Gianluigi Bonelli e arte de Aurélio Galleppini) – Tex e Carson enfrentam uma quadrilha de bandoleiros a bordo de um trem pagador.

Positivo/Negativo: Na quinta e, possivelmente, penúltima edição do almanaque em formato italiano da Mythos a estrela da vez é o bom e velho tio Martin, numa aventura completa de 213 páginas, extraída das edições italianas 111, 112 e 113.

Embora esteja bastante adiantada na cronologia, a publicação do episódio se justifica perfeitamente: trata-se de uma das melhores histórias da série, um verdadeiro presente para os fãs e capaz de conquistar o afeto de qualquer leitor ocasional que esteja, apenas agora, conhecendo o Detetive do Impossível.

A trama é irretocável. Ritmo certo, reviravoltas, desenlaces surpreendentes, ótimos diálogos e personagens cheios de charme, com destaque, óbvio, para o queridíssimo Java, numa de suas melhores “performances” como co-protagonista da série.

Faz parte da tradição da Sergio Bonelli Editore o obrigatório parceiro do personagem principal. Um clichê muitas vezes dispensável e irritante, que quase sempre funciona como alívio cômico de gosto duvidoso. Claro que há exceções, como os ótimos Grouxo e Poe, respectivamente coadjuvantes de Dylan Dog e Mágico Vento, frutos de séries que rompem maravilhosamente com os clichês e tabus de uma editora com histórico bastante conservador.

Entretanto, Java sempre foi muito mais do que a materialização de um clichê. Desde o início, o insólito personagem revelava uma profundidade e carisma que não permitiam reduzi-lo a um mero “parceiro” do herói. O simples fato de ser um homem de Neanderthal já provocava um estranhamento, mas o que era realmente fascinante era seu refinamento e inteligência, sua perfeita adaptação ao mundo civilizado do século XX, sem margem para situações constrangedoras do tipo Os deuses devem estar loucos.

De fato, um dos jogos mais interessantes de Castelli sempre foi o uso de clichês de maneira inusitada, muitas vezes subvertendo-os. Isso é particularmente visível nos vilões, aparentemente estereotipados, mas que revelam uma substância insuspeitada: Sergej Orloff, com sua capa, máscara e mão de gancho; Mr. Jinx e seu cavanhaque mefistofélico; e, claro, os Homens de Negro. Java seguiu muito bem essa linha, jamais se comportando como o lugar-comum faria o fã esperar, tanto como homem das cavernas quanto como parceiro do herói.

Não por acaso, já na sexta aventura da série, Java apareceu como co-protagonista, numa trama belíssima em que era acusado injustamente de assassinato e era obrigado a fugir das autoridades francesas nos subterrâneos de Paris (Crime na Pré-História – MM # 6 e # 7, Editora Globo). A partir daí, em várias ocasiões, foi o combustível dos roteiros, especialmente os que se referiam ao seu nebuloso passado (A Vingança de Rá – MM # 2 e # 3, Globo, e MM # 1, Record e A Cidade das Sombras Diáfanas – MM # 4, Record).

Agora, finalmente, todos os detalhes a respeito da adaptação de Java ao mundo moderno foram revelados de maneira inventiva e verossímil, bem como o verdadeiro motivo que o levou a desejar partir da Mongólia em primeiro lugar.

Inúmeros aspectos fascinantes a respeito de sua vida pessoal e de sua amizade com Martin são levantados, para alegria dos fãs. Detalhes deliciosos como o quarto cheio de brinquedos, sua coleção de Playboy, a carta de despedida que escreve a Martin (arrancando lágrimas relutantes do bom e velho tio durão), suas atividades profissionais que, surpreendentemente, lhe garantem uma boa grana em conta, desmentindo a idéia corrente de que seu “chefe”, apesar da amizade, o mantinha numa relação de dependência, quase como uma semi-escravidão.

Como se não bastasse tudo isso para tornar este episódio um dos mais importantes da série, Castelli aproveita a ocasião para introduzir sua versão em quadrinhos de Allan Quatermain – o protagonista de As Minas do Rei Salomão, de H. Riger Haggard – na mitologia do Detetive do Impossível, na forma de uma tira de quadrinhos produzida por um autor mexicano.

Na verdade, Allan Quatermain foi a primeira versão de Martin Mystère produzida por Castelli, como o texto da página 220 explica em detalhes. Na melhor tradição de Gene Roddenberry, que conseguiu anexar o episódio piloto original de Jornada nas Estrelas, rejeitado pelo estúdio, num especial em duas partes no final da primeira temporada (recentemente lançada em DVD), o autor consegue achar uma solução narrativa brilhante para resgatar do limbo sua série de quadrinhos da década de 1970 e ainda aproveitar com mestria a versão original de Java como parceiro de Quatermain. De quebra, ainda promove uma participação especial como o personagem Castillo – das páginas 176 a 179 – auxiliando Martin a desvendar o mistério.

O único ponto fraco dessa aventura maravilhosa são os desenhos dos irmãos Esposito. Embora ousados e inventivos em vários momentos, seu ar cartunesco nem sempre casa bem com os momentos mais dramáticos da narrativa. Nada que comprometa o resultado final, mas a passagem assinada por Fabrizio Busticchi (o desenhista original de Allan Quatermain), apesar de descrita como antiquada por um dos personagens, ofusca bastante o estilo levemente amador dos dois.

Quanto às demais histórias desse volume, um destaque merecido vai para Dylan Dog e as seis páginas magnificamente ilustradas por Corrado Roi. Um delírio surreal belíssimo, digno de figurar numa edição da revista Heavy Metal.

Infelizmente, o mesmo não pode ser dito das historietas de Nick Raider, Mister No, Tex e Mystère que, apesar de belos desenhos, são rotineiras demais para despertar mais do que uma leve atenção. Melhor sorte tem Digging Bill, devido ao roteiro espirituoso e cheio de soluções cômicas divertidas.

No geral, um almanaque de peso que, apesar do preço salgado, justifica-se como item indispensável para qualquer colecionador de Martin Mystère. Para uma HQ que, em suas publicações anteriores no Brasil, nunca conseguiu ultrapassar as 20 edições, mas que agora já está no número 40 sem dar mostras de parar, é uma conquista e tanto. Congratulações à Mythos por ter acreditado na força do personagem. Sorte do leitor exigente, cada vez mais sedento por quadrinhos inteligentes.

Nota: ao que tudo indica, o próximo volume de Seleção Tex e os Aventureiros publicará o aguardadíssimo segundo crossover de Dylan Dog e Martin Mystère. O primeiro saiu no Brasil em 1992, publicado pela Record. Os fãs, ansiosos, agradecem.

 

Classificação:

4,0

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