Sharaz-De – Contos de As mil e uma noites

Por Audaci Junior
Data: 24 junho, 2016

Sharaz-De – Contos de As mil e uma noitesEditora: Figura – Edição especial

Autor: Sergio Toppi (roteiro e arte) – Originalmente em Sharaz-De (tradução de Maria Clara Carneiro).

Preço: R$ 79,90

Número de páginas: 160

Data de lançamento: Abril de 2016

Sinopse

Contos baseados em As mil e uma noites, explorando a bárbara sociedade na qual o sobrenatural é a única solução para a injustiça. Sharaz-De (ou Sherazade, como é mais conhecida no Brasil) é refém de um rei cruel e déspota. Toda noite, ela é obrigada a contar fabulosas histórias para o seu mestre, a fim de continuar viva.

Positivo/Negativo

Apesar de ser um dos mais famosos clássicos da literatura mundial, não se sabe ao certo quem são os autores de As mil e uma noites. Acredita-se que a obra surgiu na Índia, durante o Século 3, repassada numa tradição oral por diversos narradores anônimos.

Posteriormente, “apócrifos” fizeram parte de seu conteúdo, surgindo nomes que fazem parte do universo fantástico e aventureiro, como Simbad, Ali Babá e Aladim, popularizados no Ocidente no começo do Século 18, quando o francês Antoine Galland traduziu um manuscrito sírio, acrescentando esses novos personagens e histórias, além de censurar ou atenuar o conteúdo erótico original.

Alguns dos caminhos do “labirinto verbal” de Sharaz-De, filha do grão-vizir de um reino na Pérsia, ganham uma versão bastante particular de um dos grandes nomes da Nona Arte, o italiano Sergio Toppi (1932-2012).

Apresentando os motivos da cólera de um rei amargurado pela traição do adultério, que baixa um decreto: toda noite, ele escolherá uma mulher para lhe fazer companhia e a matará nos primeiros raios da manhã. Toppi debruça-se por sete fábulas que garantem o interesse da alteza e a vida da protagonista.

Os belíssimos e verticalizados desenhos de Toppi têm um refinamento e uma graciosidade que se encontra em pouquíssimos dos seus contemporâneos, a exemplo do argentino Alberto Breccia (1919-1993) e do conterrâneo Dino Battaglia (1923-1983). Não é à toa que nomes consagrados como Frank Miller e Dave McKean tenham bebido da fonte de nanquim desses mestres.

A força de suas composições, os detalhes que adornam como ilustrações que remetem às cartas de tarô do destino de Sharaz-De e a sofisticação gráfica que valoriza a narrativa dos contos são os destaques desta adaptação, originalmente lançada em 1979.

E não só de luz e sombra é tangenciado o álbum. No quarto capítulo, a astúcia de um solitário homem à procura de riquezas, que é confrontada por um impiedoso gênio, ganha uma gama de cores. Note também como Toppi deixa menos livres as composições de páginas para valorizar as matizes presentes nas artes.

Outro criativo exemplo de composição se encontra nas páginas 148 e 149. Observe como o autor usa o espaço em branco (com pássaros em revoada num canto) para dar uma ilusão de céu, o que, na verdade, é o muro de um templo.

O caprichado debute da Figura é histórico por resgatar um autor tão importante para os quadrinhos e praticamente desconhecido no Brasil. Além de uma ou outra HQ presente em coletâneas das editoras Vecchi e Bloch, nos anos 1970, o singular traço do italiano ganhou evidência por aqui há quase 40 anos, com a (rara) publicação de O homem do Nilo, história que inaugurou a coleção Um Homem, Uma Aventura, da Ebal, em 1978.

Fora isso, sua arte poderá ser vista na edição # 11 da série J. Kendall – Aventuras de uma criminóloga (Mythos, 2005) e nas capas de 1602 – Novo mundo, um spin-off que partiu do universo criado por Neil Gaiman, lançado no 25° número da revista Marvel Apresenta (Panini, 2006).

O volume da Figura tem capa dura, papel couché de boa gramatura e impressão, uma apresentação assinada pelo quadrinhista e editor Rodrigo Rosa, posfácio e biografia do autor. A editora promete também lançar novos episódios que Toppi fez para a série no ano de 2005.

Diferentemente das edições europeias, o único “porém” no projeto gráfico é a escolha de uma capa pouco chamativa e que não representa a dimensão da obra. Ela deveria ser mais atrativa para o leitor de primeira viagem, que desconhece a grandiosidade do que está finalmente ganhando sua versão nacional.

Sharaz-De é para ser lido, relido, “degustado”, apreciado nos seus mínimos detalhes e reverenciado como a celebração da vida da personagem principal no começo de cada aurora. Afinal, dentre esses inúmeros desconhecidos contadores de história que edificaram e perpetuaram As mil e uma noites, um deles tem nome: o imortal Sergio Toppi.

Classificação

5,0

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• Outros artigos escritos por

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  • Willian Martins

    Depois de uma resenha boa dessa, como não ficar interessado?

  • marcio monteiro

    Esse material do Toppi é excelente! Diria, imperdível p quem gosta de grandes obras. O que parecem ser ilustrações roteirizadas, onde algumas páginas tem poucos desenhos,muitas vezes, rostos e corpo em plano médio(sensação q se tem caso apenas se folheiem as páginas) É uma aula de quadrinhos única, pois Toppi encaixa tudo de forma magnífica, roteiro e desenhos. Não se deve esperar por casinhas, prédios ou construções com janelas perfeitas.Aqui, ele põe ou expõe suas texturas, sejam finas ou grossas, manchas e o principal: o preto em doses equilibradas com o branco. Vide o exemplo da pag. 148 do resenhista dessa obra.

  • silas.

    Eu tenho um exemplar dessa coisa linda e genial em casa. Adquiri logo que li notícia sobre a publicação, decidi procurar por imagens da obra no Google e imediatamente virei fã de Sergio Toppi. Cada centavo valeu.

    Também faço porém a respeito da capa escolhida pela Figura. Vi muito melhores, nas minhas pesquisas, e mais a ver.

    Nota para Sharaz-De: cinco balões bem cheios!