Skreemer – Edição Encadernada

Por Thiago Borges
Data: 1 fevereiro, 2013

Skreemer - Edição EncadernadaEditora: Abril Jovem – Edição especial

Autores: Peter Milligan (roteiro), Brett Ewins (arte), Steve Dillon (arte-final) e Tom Ziuko (cores) – Originalmente em Skreemer # 1 a # 6.

Preço: Cr$ 2.500,00 (preço da época)

Número de páginas: 196

Data de lançamento: Outubro de 1991

Sinopse

Veto Skreemer é um homem de uma era que está prestes a acabar, a era dos grandes chefões do crime organizado. Ele fará tudo ao seu alcance para evitar a queda de seu império.

Charles Finnegan é um pobre pai de família. Ele fará tudo ao seu alcance para que os filhos não se esqueçam da moral e da ética, mesmo estando em meio a um mundo corrupto.

Skreemer, um épico sobre a violência, narra a vida desses homens, que escolheram caminhos opostos para viver, mas que, fatalmente, se encontrarão.

Positivo/Negativo

Livre arbítrio, filme de gângsteres, James Joyce, crime organizado, decadência urbana das metrópoles. O roteirista inglês Peter Milligan pega esses elementos díspares – misturando o erudito, o intelectual e a cultura popular – para criar, com a ajuda da arte mais do que competente de Brett Ewins e Steve Dillon, uma obra diferente de quase tudo.

Skreemer desnuda a pobreza das ruas ao mesmo tempo em que fala sobre como as escolhas de uma pessoa interferem na sociedade ao seu redor. Narra a escalada da violência para relembrar como valores éticos e morais sobrevivem a tempos difíceis. Mostra o mundo sem pudores, com toda injustiça, crueldade e sofrimento estampado diariamente nas faces das pessoas.

Muito mais do que contar a ascensão e queda de um chefão do crime, a minissérie de seis partes – publicada originalmente pela DC Comics em 1989 e relançada nos Estados Unidos pelo selo Vertigo – aborda a dificuldade de viver e não se contaminar pela corrupção, pela miséria, pela falta de humanidade.

O desenvolvimento de Skreemer se assemelha ao de Era uma vez na América, épico sobre a máfia filmado pelo italiano Sergio Leone. Assim como nesse clássico do cinema, o leitor acompanha a jornada de um grupo de amigos que, desde a adolescência, trilha seu caminho pelo mundo do crime. Em paralelo, vê ainda o cotidiano da família Finnegan, imigrantes irlandeses que tentam a todo custo levar uma vida digna.

Milligan, apesar da mesma temática, não conta sua trama usando a maneira operística, lenta, de Leone; prefere embaralhar a cronologia dos fatos, retrocedendo e avançando no tempo, o que ajuda na construção multifacetada dos personagens.

Mas, afinal, onde entra James Joyce, autor do romance mais importante do Século 20, Ulysses? Duas referências a ele são óbvias: uma piada envolvendo seu nome, quando, em certo momento, um personagem relembra que seu avô dizia que a vida era algo complicado para se compreender e que era melhor “deixar esse negócio para Deus e James Joyce”; e a própria família Finnegan, alusão direta à última obra do escritor, Finnegans Wake, verdadeiro marco da literatura experimental e um dos livros mais impenetráveis jamais feitos.

Estaria Milligan replicando essa obra dentro da estética dos quadrinhos? Isso, nem o mais ousado roteirista tentaria. Finnegans Wake, antes de possuir um enredo com personagens, é um romance sobre a própria linguagem e os símbolos que geram a comunicação, já que foi escrita com técnicas singulares, como a fusão de palavras para a criação de novos significados e a mistura de termos em inglês, seu idioma original, com outras línguas.

A proximidade entre a HQ e Joyce está na busca por uma história de múltiplos sentidos. A partir de um núcleo de personagens, ambos buscam abordar temas maiores, universais. De simples drama sobre o crime, Skreemer abraça questões profundas, às quais sabiamente não oferece resposta.

A vida é guiada pelo acaso ou existe um destino traçado para todos e nada pode alterá-lo? É possível seguir padrões éticos em uma sociedade doente? Por que se importar em fazer escolhas moralmente corretas se outras pessoas podem destruí-las?

A própria narrativa da série engana sobre o que ela realmente é. O que começa como um relato de uma guerra entre gangues evolui para um sombrio conto sobre a vida e como cada um escolhe vivê-la.

Enquanto Veto Skreemer luta como um leão ferido para manter o poder adquirido no submundo das drogas e do contrabando, Charles Finnegan vê a violência sem limites atingir seu lar, Dutch Amsterdam sofre as consequências físicas da traição de um amigo e Victoria Chandler busca a redenção para seu coração machucado. Um rol de protagonistas dissecados de forma invejável.

E se Finnegans Wake é um assombro no quesito experimentação, Skreemer inova dentro da mídia da qual faz parte – a começar pelo fato do narrador em primeira pessoa ser mostrado apenas nas últimas páginas do capítulo final. A fragmentação da história é maior do que a encontrada, por exemplo, em Watchmen: as idas e vindas no tempo são mais constantes e alguns assuntos essenciais para o enredo não são ditos explicitamente, fazendo com que o leitor se esforce no sentido de acompanhar os acontecimentos. Até mesmo a presença, também não explícita, de um elemento sobrenatural na última edição não atrapalha, mas, sim, reforça a questão do livre arbítrio, tão vital para a proposta do roteirista.

Essa complexa estrutura criada por Milligan ganha força graças aos desenhos funcionais de Brett Ewins, com arte-final de Steve Dillon. Destacam-se o notável trabalho com expressões faciais e o uso, em diversos momentos, de sombras para esconder os olhos dos personagens – expediente largamente utilizado em O poderoso chefão que ajuda a aflorar o aspecto soturno da trama.

São os artistas, portanto, que garantem sequências inesquecíveis, como as brutais páginas finais dos capítulos três e quatro – momentos de horror em estado puro, que incluem um pai sendo obrigado a matar crianças para salvar os filhos.

Curioso perceber como algumas grandes obras, independentemente de serem HQs, livros ou filmes, caem em um esquecimento inexplicável, tornando-se praticamente invisíveis ao grande público. Skreemer se encaixa nesse exemplo, pois, além de ótima história e arte, enfoca temas que garantem profunda reflexão, elevando os quadrinhos a um patamar poucas vezes alcançado.

No Brasil, Skreemer foi lançado duas vezes pela Abril Jovem – em 1990, como minissérie em seis fascículos, e 1991, como encadernado – e uma pela Brainstore – em 2003, no formato álbum de luxo. Fuja, no entanto, desta última, já que apresenta o material em preto branco, mesmo o original sendo colorido – a situação inversa não é menos ruim, basta imaginar O Edifício, de Will Eisner, ou o trabalho de Joe Sacco em cores.

Ainda é possível encontrar todas as edições citadas em sebos, a preços convidativos. Uma busca rápida pela internet deve bastar. Mesmo assim, todo o esforço para a leitura de Skreemer se torna válido. Afinal, obras-primas não merecem mofar em estantes sujas.

Classificação

5,0

• Outros artigos escritos por

.

.

.