Starman – Volume 1

Por Eduardo Nasi
Data: 19 dezembro, 2008

Starman - Volume 1Editora: Panini Comics – Edição especial

Autores: James Robinson (texto), Tony Harris (desenhos), Teddy H. Kristiansen (layout e arte de Starman # 6), Christian Hojgaard, Bjarne Hansen, Kim Hagen (desenhos em Starman # 6), Wade Von Grawbadger (arte-final), Gregory Wright (cores).

Preço: R$ 62,00

Número de páginas: 256

Data de lançamento: Dezembro de 2008

Sinopse: David Knight é Starman, o herói de Opal City, filho do lendário Starman que atuou na velha Sociedade da Justiça.

Mas, nas primeiras páginas da história, David é morto por um tiro disparado por um vilão.

Cabe a seu irmão, Jack, substituí-lo para dar continuidade ao legado cósmico da família. Mas ele, até agora, é apenas um fanático negociador de itens colecionáveis cuja maior preocupação é tocar a lojinha de quinquilharias.

Como será que ele vai se adaptar à vida de super-herói?

Positivo/Negativo: “Super-heróis. Supervilões. É tudo brincadeira de criança que não acaba. Uma chance de marmanjos vestirem a cueca sobre o colante”, diz Jack Knight, o Starman. A frase está na página 111 do álbum.

Ele está certo. A rigor, todo super-herói é ridículo. Na vida real, é. Onde já se viu uma pessoa sã, ainda mais com eventuais superpoderes, sair por aí vestido com um colante multicolorido? Ou adotar o nome de um bicho, como morcego ou aranha, ou de um fenômeno da natureza, como tempestade? E ainda mais sair por aí colecionando uma galeria de inimigos com nomes igualmente esdrúxulos? Sem falar do bizarro hábito de usar cuecas – ou, vá lá, sunga – por cima da calça!

Pois é.

A essência dos super-heróis é, a olhos terrenos e sensatos, ridícula.

Claro que, dentro das HQs, esse ridículo é amenizado: há um contexto, um punhado de explicações (incluindo a velha desculpa do “foi minha mãe quem fez o uniforme”) e uma configuração social que torna a fantasia aceitável dentro de seu universo ficcional.

Contudo, basta deixar a ficção que os super-heróis se tornam vulneráveis à noção de ridículo do nosso cotidiano. De novo: nosso mundo não combina com colantes coloridos.

Essa diferença de parâmetros foi um dos critérios que ajudou a sedimentar a idéia de que super-heróis são quadrinhos de segunda linha, com conteúdo inocente, dirigido para crianças e, diriam alguns, adultos com distúrbios sexuais.

A discussão aí vai longe. E é bem verdade que ela seria mais intensa três décadas atrás, quando mal começavam a surgir super-heróis para leitores mais crescidos.

De qualquer forma, o debate não interessa para a avaliação desta compilação de histórias deStarman, um dos títulos mais importantes dos quadrinhos de mascarados da década passada.

O que importa é que há um quê de ridículo nos super-heróis, sim. E importa justamente porque essa é a opinião do protagonista da série. O desdém ao super-heroísmo é um dos pontos centrais deste começo de Starman.

A grande sacada de James Robinson é dar a Jack Knight um senso do ridículo igual ao do nosso mundo. Para ele, não importa quantas vezes seu pai, seu irmão ou Superman tenham salvado o mundo – as cuecas por cima da calça continuam imperdoáveis.

É por isso que, quando se vê diante da opção de assumir o posto do irmão, Jack titubeia. Não quer dizer que ele não se sinta corajoso ou capaz, porque sabe até um pouco de artes marciais. O que ele não quer é passar pela indignidade de vestir a roupa colorida.

Com Jack, James Robinson constrói uma parábola sobre o fã de quadrinhos de super-heróis, esse cara que sabe que há algo de ridículo nas suas revistinhas – e que muitas vezes precisa encarar preconceito alheio, mesmo que velado, para ler suas histórias favoritas.

Resultado: cada vez que nega que é um herói, Jack parece lembrar o leitor de que essa coisa de quadrinhos de super-heróis é ridícula mesmo, pra valer.

Se hoje, no auge das adaptações cinematográficas, essa noção se sustenta, imagine-se na primeira metade da década de 1990, quando a série começou.

Os quadrinhos mais populares daqueles anos eram os da Image Comics, que tinha como artistas um bizarro exército de plagiadores de Rob Liefeld, ou os eventos mercadológicos como o da morte de Superman e o aleijamento de Batman.

Diante desse cenário catastrófico, a jornada de Jack Knight se torna uma redenção do herói, mas também do leitor. Afinal, ele, como o leitor, se sentia deslocado naquele mundo bizarro.

Mas, na medida em que as páginas são viradas, Jack descobre que ser herói tem valor, tem graça e, em seu mundo, faz todo o sentido.

E o leitor vai, por tabela, relembrando que super-heróis rendem grandes histórias, incapazes de constranger quem quer que seja. Starman, no caso, é uma delas – e por isso se tornou uma referência no gênero.

Afinal, não é só a sacada da construção do protagonista que faz de Starman uma grande HQ. Os elementos são vários e estão incrustados em cada quadrinho do álbum.

Um deles é o próprio cenário da história, uma jóia chamada Opal City. Nos quadrinhos de super-heróis, poucas cidades são tão marcantes quanto ela – e quase todas as demais levaram anos para ser construídas.

Mas, graças ao artista Tony Harris, Opal nasce pronta – é um impressionante monumento azulado em art déco com detalhes de art nouveau. Os personagens também têm a cara da cidade – e, em histórias futuras, Starman sempre parece deslocado em outras localidades.

Outro ponto importante é o fanatismo de James Robinson por colecionáveis, que acaba influenciando a série. De Monstros, de Tod Browning, aos filmes de Tim Burton, as referências ao passado são constantes e ajudam a construir a história – daí a importância do glossário de referências ao final do volume.

Em meio a tudo isso, Starman é uma legítima HQ de super-heróis, com vilões, superpoderes, seres fantásticos, muita ação, uma boa dose de pancadaria e, claro, uniformes bisonhos. Por isso, é capaz de agradar também os leitores de aventuras mais convencionais como, vá lá, X-Men e, quem sabe, até os fãs de Rob Liefeld.

Resta, agora, torcer para que a publicação siga em frente, até o número # 80, que deu cabo da fase de James Robinson. Nos Estados Unidos, esse é o plano da DC Comics, que está relançando o título no formato de alto luxo Omnibus – edição na qual o encadernado brasileiro se baseia.

Mas aqui as coisas não são tão simples.

Starman já foi lançado no Brasil por três editoras, até o número # 16 da série original. Este álbum compila as nove primeiras histórias (e não oito, como indica a contracapa, por conta do número # 0). Até esta tentativa, a série não vingou.

A publicação da Panini, com capa dura e papel couché, é uma nova aposta – desta vez, luxuosa. Além das nove primeiras histórias, a edição inclui textos complementares, capas originais e esboços – tudo tirado da edição Omnibus norte-americana.

A diferença é que a versão nacional é mais enxuta: tem metade do número de páginas e, por tabela, menos histórias.

Aliás, foi provavelmente na adaptação que surgiram os únicos problemas da versão brasileira: uma pequena confusão com os créditos das HQs. Na página de créditos do volume, são citados artistas como Amanda Conner e Stuart Immonen, mas a história dos dois só deve sair no segundo volume. Já a arte de Starman # 6 é de Teddy H. Kristiansen (que faz uma página dupla devastadora), Christian Hojgaard, Bjarne Hansen e Kim Hagen, mas foram creditadas a Tony Harris e Wade Von Grawbadger.

A despeito desse erro, a edição da Panini ficou muito bacana. Tomara que vingue – e que deixe de ser apenas um volume para se tornar uma coleção.

Afinal de contas, para uma editora marcada – e estigmatizada – por super-heróis, Starman é mais do que uma HQ de primeira grandeza. É também uma forma de mostrar ao público que os mascarados valem a pena.

Classificação

4,5

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