Supergods – What masked vigilantes, miraculous mutants, and a sun god from Smallville can teach us about being human

Por Eduardo Nasi
Data: 29 julho, 2011

SupergodsEditora: Spiegel & Grau – Edição para Kindle

Autor: Grant Morrison

Preço: US$ 28,00

Número de páginas: 464

Data de lançamento: Julho de 2011

Sinopse

O roteirista Grant Morrison mistura sua vida, sua obra e a história dos super-heróis em um longo ensaio.

Positivo/Negativo

No dia 19 de julho de 2011, quando foi lançado, Supergods ganhou resenhas não só nos veículos especializados em quadrinhos, mas também em jornais como New York Times, Guardian e Financial Times. E como era semana de San Diego Comic-Con, não deu nem pra alegar carência de pautas sobre cultura pop: a análise sobre os super-heróis feita por um dos seus roteiristas mais influentes se impôs como um fato importante.

Se destaque na imprensa é um critério, então o livro de Morrison virou um dos assuntos do ano no que diz respeito a quadrinhos de super-heróis.

Não é por acaso. Nos próximos meses, as duas maiores editoras de HQs dos Estados Unidos farão uma migração em massa para o varejo digital, em que será possível comprar gibis em computadores, celulares, tablets e outros gadgets. Todos os títulos sairão simultaneamente em papel e em bits e poderão ser adquiridos em qualquer lugar do mundo – inclusive no Brasil.

Grant Morrison sempre foi um ditador de tendências nos quadrinhos de super-heróis. Para o mercado e para quem tem interesse nele, não ouvir o que o escocês tem a dizer num momento desses é, no mínimo, desprezar uma visão que tem sido relevante e certeira nas últimas décadas.

(E já que o mercado brasileiro é profundamente ligado ao norte-americano, vale mencionar que Supergods vai ganhar uma versão nacional no primeiro semestre de 2012, pela Cultrix-Pensamento, com tradução de Érico Assis.)

Um bom ponto de partida para entrar no mundo de Supergods é defini-lo.

Pois vá lá: Supergods é um longo ensaio profundamente autoral que passeia por diversos subgêneros. Começa como uma história dos super-heróis, em seguida se aproxima da autobiografia, da crítica, da autocrítica elogiosa e da pseudociência. Tudo isso em quase 500 páginas de texto.

Tantos subgêneros e tanta informação podem acabar desviando o leitor do que realmente importa: a obra é a visão de Grant Morrison sobre o mundo dos super-heróis.

É uma visão pessoal, claro. Com a qual, se é que ainda é preciso dizer isso, você não precisa concordar. É o ponto de vista do cara.

Mas ele não é um Zé Mané qualquer. Morrison é um autor de primeira grandeza quando se fala de super-heróis. É sucesso de vendas e de uma crítica que vai muito além daquela especializada em quadrinhos. Foi best-seller com X-Men, Batman e Liga da Justiça e também criou séries de super-heróis altamente sofisticados, como Invisíveis e The Filth. (No Brasil, seu Joe The Barbarian está programado para entrar no mix da revista Vertigo.)

Para entender o valor de Supergods é preciso comprar a ideia de que o livro é profundamente autoral, e que o pensamento de Morrison importa mesmo quando está distorcido ou, no mínimo, parece distante do senso comum.

Por exemplo: leitores mais afeitos aos heróis da Marvel talvez reclamem que a ela é dada uma importância menor do que deveria. É um ponto. Mas o que importa aqui não é a relação da “Casa das Ideias” com a História, e sim como Morrison vê o papel da editora, e como isso evidencia que é na DC que o autor vê mais valor.

A própria divisão cronológica consagrada pela crítica tem suas nomenclaturas alteradas. Na versão de Morrison, depois da Era de Ouro e da Era de Prata, é a vez da Era Sombria (Dark Age, no original), aquela que tenta (em vão) levar o mundo real para os quadrinhos.

Ao falar de autores, os que importam mais são aqueles que passam pelo filtro de qualidade de Morrison. Siegel e Shuster, criadores do Superman, são considerados mais talentosos que Bob Kane e Bill Finger, do Batman. Warren Ellis, de Authority, soa mais relevante que Neil Gaiman, de Sandman – o que deve causar estranhamento no grande fã-clube que Lorde Morpheus tem no Brasil.

Mas talvez o momento que faça mais gente torcer o nariz seja quando Morrison critica o trabalho de Alan Moore. O autor de Watchmen é um velho desafeto. Como não há como não citá-lo, chega a ser engraçado ver os malabarismos que o escocês faz elogiar e alfinetar ao mesmo tempo.

Por exemplo, em tradução livre:

“Alan Moore era autodidata, ambicioso e feroz e elegantemente inteligente, e o maior truque de seu imenso arsenal era fazer tudo aparecer totalmente novo, como se não tivesse havido histórias em quadrinhos antes de ele surgir”.

Mas essa é a visão de Morrison – e, de novo, é o que importa aqui. Não por mero culto ao autor. Mas porque é uma forma de ver como ele pensa, o que planeja e pra onde rumam os seus quadrinhos.

Morrison é um autor cheio de insights, e isso transparece claramente no livro – e é responsável por seus pontos altos. Muitas de suas leituras, mesmo quando parecem equivocadas ou apenas chutadas, são riquíssimas. Algumas abordagens são tão sedutoras que dá vontade de ler essas histórias imediatamente – mesmo quando elas não existem ou cresceram na imaginação do autor.

Como quando fala do Capitão Marvel:

“Falando na linguagem de magia cerimonial, (o grito de) Shazam invocava o anjo da guarda – um eu-mesmo-futuro elevado – para vir ajudar.”

Ou do Flash:

“O Flash (1940) foi o primeiro super-homem acidental, prefigurando os futuros heróis da Marvel: todos vítimas da ciência, motivados por puro altruísmo a usar seus poderes em serviço de suas comunidades.”

Ou das aventuras de Jimmy Olsen como travesti:

“As histórias de Olsen travestido tinham raízes profundas no mundo das revistas pornôs mimeografadas e nos quadrinhos de bondage de Eric Stanton, cujo estúdio também empregou um certo Joe Shuster, criados do Superman. A linguagem utilizada evoca histórias como Panty Raid (discutidas profundamente pelo Dr. Robert J. Stoller em seu livro Observing the Erotic Imagination, de 1985) e outros contos sobre transgêneros dos anos de 1950, em que jovens atléticos e musculosos ganhavam mais do que esperavam quando uma visita a uma fraternidade se transformava em uma iniciação forçada aos prazeres femininos da lingerie e da maquiagem. A diferença é que Olsen estava em pleno controle de suas transformações e mal podia esperar por um punhado de páginas até pô-las em prática.”

Ou mesmo de Superman (as letras em maiúsculas indicam conteúdo extraído de balões de fala):

“Em uma capa que particularmente é uma das minhas favoritas, Superman assistiu a (…) Lois e Lana desfilarem por ele, cada uma com um fortão histórico em seu braço. ‘LOIS! LANA!’, Superman exclamou humildemente. “O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO COM HÉRCULES E SANSÃO?’ ‘ESTAMOS A CAMINHO DO CARTÓRIO DE CASAMENTOS!’, Lois disse, com orgulho. “EU SEREI A SRA. HÉRCULES!’ ‘E EU SEREI A SRA. SANSÃO!’, falou Lana. Foi uma lição dura e inesquecível para os jovens leitores do sexo masculino: isso é o que acontece quando você não consegue tomar decisões ou oferecer qualquer compromisso duradouro.”

Os segmentos autobiográficos também têm seus bons momentos. Há reminiscências sobre a família, a infância e a adolescência, um pouco de bastidores do mundo das HQs, até mesmo confissões sobre o despertar sexual de Morrison à luz da Barbarella de Roger Vadim.

Em meio a tantos acertos, Morrison também dá suas escorregadas. Em alguns momentos, o texto parece redundante. Noutros, ele parece não saber se está escrevendo para um leitor que conhece profundamente os quadrinhos de super-heróis ou para um iniciante.

São erros menores, mas importantes – são neles, e apenas neles, que as 450 páginas parecem pesar.

Em todo o resto, a viagem de 75 anos pelos quadrinhos de super-heróis é deliciosa, sempre indo numa crescente que, aos poucos, vai deixando evidente que cada parte compõe uma trilha que leva a uma ideia maior.

E essa ideia é justamente uma proposta para o futuro dos super-heróis.

(Numa leitura absolutamente impressionista, este resenhista teve a impressão de que a proposta soa fortemente como um manual de instruções para seu vindouro Superman, a ser lançado em setembro. A ver.)

A ideia é baseada principalmente no livro Sekhmet Hypothesis, de Iain Spence, que relaciona a cultura e o comportamento das gerações com as ondas de eletromagnetismo das explosões solares. Pela hipótese de Spence, a radiação que vem do Sol altera a mente humana fazendo com que ela oscile, por exemplo, do hippie para o punk, do lisérgico para a escuridão.

Morrison já havia usado essa referência em sua passagem por X-Men. A pseudociência é um marco em seu trabalho – basta lembrar as teorias psicanalíticas de almanaque de Asilo Arkham ou o campo morfogenético que dava os poderes ao Homem-Animal.

Só que, ao mesmo tempo, Spence se revela uma influência pra lá de complicada de se levar a sério. Dizer que os estudos dele são um instrumento fundamental para avaliar tendências de comportamento, ignorando indicadores sociais e econômicos, guerras, crises financeiras etc. dificilmente encontrará eco na razão ocidental.

Por isso, é preciso insistir: compra Supergods quem já sabe que o livro é uma visão muito pessoal de Grant Morrison. E isso significa que, às vezes, o leitor é obrigado a engolir a seco opiniões e ideias com as quais não tem como concordar. Como fiador, o fato é que Morrison é um autor que acerta mesmo quando está errado. E isso não é pra qualquer um.

Classificação

4,0

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