SURFISTA PRATEADO – EDIÇÃO HISTÓRICA

Por Fernando Viti
Data: 1 dezembro, 2003


Título: SURFISTA PRATEADO – EDIÇÃO HISTÓRICA (Mythos Editora)

Autores: Stan Lee (roteiro) e John Buscema (desenhos).

Preço: R$ 19,90

Número de páginas: 240

Data de lançamento: Novembro de 2003

Sinopse: Reedição das seis aventuras iniciais da revista do Surfista Prateado, personagem que surgiu, no universo Marvel, em um clássico dos anos 60, como importante coadjuvante do confronto entre o Quarteto Fantástico e Galactus.

Positivo/Negativo: É incrível que certas produções da indústria cultural possuam todas aquelas características para darem errado, mas, devido ao talento dos autores envolvidos, tornam-se pequenos marcos da cultura pop.

O maior exemplo desses felizes acidentes é a telessérie Jornada nas Estrelas. Um olhar distanciado e crítico para este clássico da ficção científica nos revela uma “salada” que tinha tudo para ser indigesta: um elenco que dá show de canastrice, cenários risíveis, trilha sonora brega, efeitos especiais pobres e uma direção muitas vezes inexistente. Mas tudo deu certo e marcou época!

Um caso semelhante é esta criação de Stan Lee e John Buscema, o Surfista Prateado. A simples descrição do personagem e seus conflitos levariam o leitor a julgá-lo como maçante e pretensioso.

É evidente que o Surfista é a criação mais pretensiosa de Stan Lee, e não há dúvida também que o talento do roteirista e de Buscema está perfeitamente à altura do objetivo, ou seja, criar uma HQ de aventuras românticas, repletas de idealismo.

As referências para esta criação são inúmeras e recorrentes, mas a capacidade artística para realizar a síntese, ou seja, o personagem e suas aventuras, é extremamente rara.

O gênio de Lee foi fundamental para contar novamente, por meio do Surfista Prateado, uma lenda da mitologia cristã. Semelhante a Lúcifer, o anjo que ousou enfrentar Deus, ele é o servo de um semideus, Galactus, o devorador de planetas, que se rebela contra o seu senhor para defender a Terra.

O Surfista vence, mas paga um alto preço por sua ousadia: sua queda é a prisão na Terra, o planeta dos passionais humanos. Ao contrário do anjo caído, ele não se oculta nas profundezas da terra, e segue em sua apaixonada busca por liberdade e justiça.

Imagine o personagem Werther, de Goethe, dotado de superpoderes para ter uma idéia do quanto o Surfista é anacrônico, perdido no universo contemporâneo de quadrinhos repleto de cinismo e ironia.

O herói da prancha de prata é marcado por um idealismo que se torna cômico numa comparação direta com tipos como John Constantine e Hitman. Diferente deles, o Surfista sofre pela perda de um mundo distante no tempo e no espaço, e por acreditar no ideal da convivência possível e pacifica entre todas a formas de vida do cosmos.

Como Jean J. Rosseau, o personagem é autoproclamado exilado da espécie humana, que não vive seus últimos dias passeando por bosques e jardins da Suíça, a exemplo do filósofo francês, mas segue singrando, à velocidade da luz, os extremos do universo, apenas para renovar sua melancolia com o que encontra pela frente.

O fato de ter sido publicada em preto-e-branco (toda a linha Essential, da Marvel, de onde a Mythos extraiu o material, é neste padrão). A ausência de cor destaca o trabalho paradigmático, por sua elegância e economia, dos traços de Buscema.

Fica a sugestão para que a editora relance aquela aventura do Surfista, um dos grandes hits da década de 1980, que contou com o roteiro de Lee e os desenhos de “um tal” Moebius.

Classificação:

4,0

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