Sweet Tooth – Depois do Apocalipse – Volume 1 – Saindo da Mata

Por Thiago Borges
Data: 18 janeiro, 2013

Sweet Tooth - Depois do Apocalipse - Volume 01 - Saindo da MataEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Jeff Lemire (roteiro e arte) e José Villarrubia (cores) – Originalmente publicado em Sweet Tooth # 1 a # 5.

Preço: R$ 15,90

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Novembro de 2012

Sinopse

Há uma década, o Flagelo assolou a humanidade como um incêndio descontrolado em uma floresta seca e matou bilhões. As únicas crianças nascidas após o evento são híbridas, uma nova espécie que mescla características humanas e animais.

Gus é uma dessas crianças ameaçadas, um menino com uma alma dócil, uma queda por doces e traços de cervo.

Mas garotos como ele têm a cabeça a prêmio. Quando seu lar é atacado por caçadores inescrupulosos, um homem misterioso e violento aparece para lhe salvar. O nome dele é Jepperd e ele promete levar o jovem até a mítica Reserva, um paraíso para crianças híbridas.

Positivo/Negativo

Temas pós-apocalípticos inundaram as mais variadas formas de arte e entretenimento na última década. De Os mortos-vivos, quadrinho de Robert Kirkman, a A estrada, livro do renomado escritor norte-americano Cormac McCarthy, passando pelo filme O livro de Eli e outra HQ, Y – O último homem, de Brian K. Vaughan, diversas obras tentaram entender como a humanidade se portaria após enfrentar catástrofes em proporções mundiais.

Sweet Tooth – Depois do Apocalipse, como o próprio nome indica, envereda pelo mesmo caminho, mas acaba por ser uma voz dissonante na abordagem do fim do mundo. Na verdade, pelo que se pode ver nas cinco primeiras edições compiladas no encadernado lançado pela Panini, é até mesmo estranha.

Escrita e desenhada pelo canadense Jeff Lemire, a série possui um andamento truncado, no qual nada realmente importante acontece, e uma arte estilizada quase no limite do bom gosto. Isso deixa dois sentimentos distintos ao leitor: nada espetacular foi mostrado até aqui, ainda que a história tenha capacidade para crescer.

Logo de cara, o leitor conhece o garoto Gus, que vive com o pai doente em uma cabana no meio de uma floresta, no interior do estado do Nebraska. Com aparência e chifres de cervo, teve criação religiosa rígida e jamais saiu de onde mora, alertado sobre os perigos que ameaçam alguém como ele.

Aos poucos, quase a conta-gotas, são revelados detalhes do que aconteceu ao planeta nos últimos anos: uma epidemia denominada Flagelo matou bilhões de pessoas ao redor do globo. Após esse evento, crianças híbridas – metade humanas, metade animais – começaram a nascer. Gus, claro, é uma delas.

O primeiro capítulo de Sweet Tooth acaba por ser o melhor dos cinco. Nele, se vê a relação entre Gus e o velho pai moribundo e a opressão sofrida pelo garoto graças ao isolamento que lhe é imposto. A página dupla na qual o velho morre é tocante e simbólica – especialmente pela oposição entre o fim da vida e a chegada da primavera, tempo em que a vida se renova, com suas cores e flores.

Surge então Jepperd, homem de meia-idade que salva o menino-cervo de caçadores – aparentemente, essas crianças mutantes podem ser a cura para o Flagelo, o que as torna prêmios valiosos para quem as possuir.

Os dois partem, então, em uma jornada para a “reserva”, local onde, segundo Jepperd, garotos como Gus podem ficar em segurança.

A partir daí, diversas situações perigosas surgem quando menos se espera e acabam da mesma forma abrupta que começaram. Os diversos encontros tensos vivenciados pela dupla parecem não ter importância alguma para o futuro da trama, fazendo com que soem vazios e gratuitos.

Outro ponto fraco ocorre enquanto os protagonistas percorrem cidades destruídas: impossível não lembrar de Os mortos-vivos – tem até espaço para cadáveres espalhados pelas ruas. Nesses momentos, Sweet Tooth mais parece uma cópia sem vida da série dos zumbis.

A ambiguidade moral de Jepperd é desenvolvida de forma correta, com algumas pistas ao longo do enredo sobre seu caráter, culminando na ótima página final do capítulo quatro, na qual se acabam as dúvidas sobre as reais pretensões do personagem.

Os sonhos e alucinações de Gus com o pai também são muito bem construídos, embora a facilidade com que Jepperd enfrenta e vence lutas contra numerosos malfeitores desaponte.

Mais do que a oscilação da qualidade da trama, os desenhos de Lemire são o destaque, não importa se para o bem ou para o mal. Seus traços são estilizados ao extremo, quase disformes em alguns momentos (a lua cheia não é redonda em diversos quadros), lembrando – guardadas as devidas proporções – os experimentos de Frank Miller pós-Sin City. Definitivamente, não agradará a todos.

Com um intrigante gancho para a sequência da série, Sweet Tooth pode, e deve, melhorar. A premissa é interessante e ainda conta com Gus, um personagem com o qual o leitor cria afeição rapidamente. Resta esperar e ver para onde Lemire conduzirá a trama.

Em tempo: a Panini possivelmente não traduziu o título porque Sweet Tooth é uma gíria em inglês para alguém que come muitos doces (o Brasil, seria algo como “formigão”). Na história, tradutor e editor optaram por “bico doce” quando Jepperd se refere assim a Gus. Não soaria nada bem para uma série nova, em busca de conquistar o público. Por isso, a opção por manter em inglês parece acertada.

Classificação

3,0

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