Terminal City

Por Thiago Borges
Data: 22 fevereiro, 2013

Terminal City # 1Editora: Abril Jovem

Autores: Dean Motter (roteiro), Michael Lark (arte) e Rick Taylor (cores) – Originalmente em Terminal City # 1 a # 9, entre 1996 e 1997.

Preço: R$ 4,20 (cada edição)

Número de páginas: 48 (nos três primeiros números) e 80 (no último)

Data de lançamento: Julho a agosto de 1998

Sinopse

Com seus enormes edifícios, pistas suspensas e robôs exóticos, Terminal City abriga inúmeras histórias cheias de intriga e mistério.

Em uma delas, um homem sem memória, com uma maleta presa ao braço, é perseguido por mafiosos. A caçada em busca do conteúdo misterioso dessa valise vai unir os mais diversos habitantes da cidade.

Positivo/Negativo

Terminal City possui um punhado de boas ideias. O roteirista Dean Motter pega a estrutura clássica dos contos policiais/noir – história envolvida em mistério, o anti-herói, a mulher fatal, o gângster – e acrescenta um tom aventuresco, semelhante ao dos filmes de matinê dos anos 1940, nos quais o personagem Indiana Jones se inspira, e toques de ficção científica – a ambientação de uma cidade futurista.

Acontece que essa salada funciona muito bem em alguns momentos e se mostra frouxa em outros. O resultado é uma minissérie que não sabe se segue uma abordagem séria ou se aposta no humor escrachado para fazer sátira dos gêneros homenageados.

Em tese, o protagonista é Cosmo Quinn, um escalador de prédios adorado pelo público e pela mídia em um passado já distante e que agora se tornou um simples lavador de janelas. Ênfase no “em tese”, pois existe no mínimo uma dúzia de personagens relevantes para a trama, todos carismáticos e com traços de personalidade próprios. É uma pena perceber que o profundo desenvolvimento desse plantel de figuras interessantes acaba por atrapalhar a condução da história: por mais cativantes que sejam, alguns não acrescentam tanto ao enredo.

Dessa forma, as respostas para os fatos que iniciam Terminal City – quem é o homem sem memória, o que existe na maleta presa ao seu braço, por que a máfia está atrás dele – ficam em segundo plano.

E aí, após os dois excelentes (e sóbrios) capítulos de abertura, o leitor percebe que foi enganado por Dean Motter: os mistérios, cada vez mais longe de serem solucionados, não são importantes. Relevantes, mesmo, são as relações dos personagens entre si e com a cidade.

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Terminal City, com uma arquitetura Art Déco futurista-decadente, que mistura elementos do Expressionismo Alemão e do Bauhaus, molda o caráter de seus habitantes. O que deveria ser a glória da civilização moderna, a vitória da tecnologia, não passa de um conjunto de arranha-céus caindo aos pedaços, com ruas imundas que servem de lar para o crime e corrupção. E o modo como Michael Lark desenha os mínimos detalhes dessa metrópole enche os olhos.

O humor e o absurdo assumem o protagonismo da narrativa a partir do terceiro capítulo. Fica clara a intenção de Motter em subverter os elementos do noir e da ficção científica, ao mesmo tempo em que os reverencia – a tradicional mulher loira e perigosa é ruiva; o policial, um árabe com turbante; robôs se estressam com o trabalho; um torneio de boxe reúne ancestrais do homo sapiens, e assim por diante.

Isso sem falar nas citações a George Orwell, Aldous Huxley e seu livro Admirável Mundo Novo e ao filme Metrópolis, de Fritz Lang.

Contudo, fica claro também que Terminal City seria muito melhor se o tratamento dado em seu início seguisse por toda a obra. Existem, sim, piadas engraçadas e situações surpreendentes no roteiro, mas o sentido de urgência da história se perde, salvando-se apenas a sensação, por parte de alguns personagens e do leitor, de não saber exatamente o que está acontecendo.

São poucas as minisséries que alteram drasticamente os rumos de sua trama da forma encontrada em Terminal City. O resultado pode até ficar aquém da capacidade do roteiro, mas a coragem dos autores em contar uma história fora dos padrões da indústria dos quadrinhos deve ser louvada.

Classificação

3,5

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