A Terra dos Filhos

Por Audaci Junior
Data: 9 julho, 2018

A Terra dos FilhosEditora: Veneta – Edição especial

Autor: Gipi (roteiro e arte) – Originalmente em La terra dei figli (tradução de Michele Vartuli).

Preço: R$ 99,90

Número de páginas: 288

Data de lançamento: Maio de 2018

Sinopse

Em um cenário pós-apocalíptico rural e miserável, um pai tenta educar seus dois filhos à sua maneira. É uma pedagogia dura, sem qualquer traço de ternura, reduzida ao essencial: aprender a sobreviver.

Um mundo hostil e perigoso, que exige meninos insensíveis, brutais e ferozes, sempre sob o comando daquele pai autoritário e agressivo.

Enquanto lutam para se manter vivos, os garotos cultivam uma mesma obsessão: descobrir o que o pai registra em seu diário. Eles não sabem ler, nem escrever, mas acreditam que aquele caderno pode trazer algumas respostas sobre a árida realidade em que vivem.

Quando uma tragédia os lança ao mundo, os dois saem em busca de alguém que possa desvendar os segredos do diário.

Positivo/Negativo

“Sobre as causas e motivos que levaram ao fim, capítulos inteiros poderiam ter sido escritos nos livros de História. Mas, depois do fim, não foi escrito mais nenhum livro.” Essa introdução diz muito sobre o cenário visto em A Terra dos Filhos, o primeiro trabalho do italiano Gipi a ganhar uma edição no Brasil.

Um futuro cercado de água por todos os lados, no qual os charcos mais profundos se encontram nos segredos das memórias de um pai que passa todos os ensinamentos de como sobreviver perante um mundo desorientado e cruel, depois do fim da civilização que a conhecemos.

Nesse contexto, há os mais velhos, que se lembram do mundo como era antes, e os mais novos, que nasceram imersos nesse presente hostil e bárbaro com ecos medievais.

Não há convívio ou espírito comunitário no recorte em que o leitor é jogado pelo autor.

Gipi apresenta os dois irmãos – o primogênito, mais subordinado; e o mais novo, inquieto e arisco – ambos movidos pelo instinto, mas não o animalesco ou meramente selvagem, pois existe uma educação oral (e física) restritiva, exercida pela figura paterna.

Praticamente isolado em uma palafita, o pai acha que o conhecimento de um mundo completamente diferente daquele trará para seus filhos não só dor, mas também muitas outras consequências, como o descontentamento do que se retrocedeu e se perdeu, seja pelo ponto de vista tecnológico, social, cultural, político ou afetivo.

Para ele, o mais perigoso nesse mundo destroçado é o “ensinamento” empírico do afeto. Assim como no romance do norte-americano Cormac McCarthy, A Estrada (que gerou uma adaptação cinematográfica em 2009), a brutalização é um meio vital de autopreservação e sobrevivência.

Na mesma situação dos garotos, para o leitor só existem as especulações: sem um narrador onisciente, ele se encontra desorienta, inclusive com as explicações paternas, que podem ser meramente para garantir a segurança do seu diminuto núcleo familiar. Pior ainda para os meninos, analfabetos, sem consciência do passado e de sentimentos como a afetividade.

Por isso, os diálogos curtos e a expressividade visual dos desenhos protagonizam o álbum, descortinando o pouco que é transparecido neles. Quando o menino mais jovem fala de uma “deformidade” física – o que faz seu pai odiá-lo, segundo o próprio –, está dando pistas do paradeiro da sua mãe.

Com a presença do diário em que o pai escreve e guarda a sete chaves, muito se diz nas entrelinhas dessa história aparentemente simples de curiosidade juvenil. Por meio desse interesse pelo desconhecido e pelo inacessível, Gipi sinaliza como o homem busca suas origens, raízes e conhecimentos – mesmo não tendo tal consciência.

Neste meio, constam novos conceitos geracionais de liberdade e a falta dela. Os mais velhos têm a consciência nostálgica por algo que não existe, já os mais jovens são livres pela ignorância de não deter nenhum critério para outra existência contrária àquela.

Libertando os filhos dessas amarras com o passado, o pai molda-os para se tornarem fortes e invencíveis perante a situação atual. Sem espaços para chorar, sorrir ou amar. Nem mesmo falar essas palavras, para não se apegar a elas.

Esse aprendizado gera consequências amorais, como a coragem perante situações de morte. Tudo passa pelo filtro dos nossos valores ocidentais vigentes, de certa forma “julgando” as ações dos personagens que refletem outras regras e panoramas.

Porém, há situações nas quais Gipi transfere para o leitor a subjetividade dos protagonistas, vide o prolongamento de várias páginas mostrando insistentemente passagens do diário, quando o menino mais novo vai tentar decifrá-lo, mesmo com suas limitações. Uma sequência genial e frustrante para o obsessivo personagem – como também para a curiosidade de quem está acompanhando a obra.

Vale ressaltar o papel das figuras femininas no enredo, observado na senhora curandeira apelidada de Bruxa pelos garotos, e também por uma menina escrava de uma distante fazenda. Elas sinalizam não só a sabedoria, como também uma saída para esse ensinamento radical e falho do patriarcado.

O aprendizado para combater a dureza da vida chega a ser posto à prova quando os meninos recebem toda a atenção e carinho de deformados gêmeos.

Dentre outras situações, o autor apresenta suas mais ferrenhas críticas quando surge uma “comunidade” chamada de fiéis. Não só explicita sua opinião perante as religiões, como também sobre as redes sociais nascidas na internet. O sagrado e o profano com novas regras e novos jargões que sobreviveram fora de um monitor, tablet ou celular (termos como “likes”, “gigas” e palavras com a grafia errada remetem a esse universo).

Esses “órfãos tecnológicos”, doutrinados pelo sexo e pela violência, seguem uma (distorcida) “verdade” e se refugiam dentre os esqueletos de concreto e aço que já foram uma civilização.

O menino mais novo quer saber e constatar a sua “verdade” que está presa naquelas páginas do diário. Por isso, encara essas situações sem medo, já que quer buscar o conhecimento de um segredo que o seu pai guarda como um documento, um certificado.

Sem querer mergulhar mais profundamente por aqui, A Terra dos Filhos pode ser analisada por meio de leituras endereçadas aos antropólogos, como é o caso do freudiano Totem e Tabu (1913), no qual o criador da psicanálise busca a gênese dos símbolos sagrados dos totens e as proibições de origem incerta dos tabus.

Outro personagem importante na obra é o carrasco. As motivações e temperamentos são mostrados pelo quadrinhista de maneira sutil. Observe as ações dele antes de ler o diário do pai dos garotos. São passagens mudas que falam muito, a exemplo de um mergulho que resulta em um desabafo solitário e nunca anunciado ou divulgado.

Sustentando toda a HQ está a belíssima arte em preto e branco de Gipi, na qual cada linha fina tracejada tem seu fundamento. O italiano dá forma e profundidade, faz efeitos climáticos como chuva e nevoeiro, além de manter a delicadeza e o peso quando são exigidos.

A edição da Veneta traz capa cartonada com orelhas, formato 28 x 21 cm, papel off-set de boa gramatura e impressão. Dentre os destaques, a diagramação e o letreiramento da veterana Lilian Mitsunaga e a bela capa produzida para a versão nacional. Já o “puxão de orelha” fica para a ausência de alguns sinais de pontuação, que é até justificável quando um raciocínio não é arrematado em apenas um balão.

A obra foi a ganhadora do Grande Prêmio da Association des Critiques et Journalistes de Bande Dessinée (ACBD), foi eleita como Melhor Álbum do Festival de Saint-Malo, além de concorrer no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, ambos eventos na França.

A Terra dos Filhos é uma grande fábula sobre o exercício do amor, mesmo que seja por outros caminhos, mesmo que deixe para trás memórias como registros fotográficos à deriva da preservação, mesmo que um simples gesto pareça não valer nada para a resiliência de garotos fortes e invencíveis com um futuro pela frente.

Classificação:

5,0

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