Tex – Edição de Ouro # 69

Por Valdemar Morais
Data: 18 julho, 2014

Tex – Edição de Ouro # 69Editora: Mythos Revista bimestral

Autores: Claudio Nizzi (roteiro), Victor De La Fuente (arte) e Claudio Villa (capa).

Preço: R$ 19,90

Número de Páginas: 224

Data de Lançamento: Novembro de 2013

Sinopse

Uma série de assassinatos, aparentemente sem qualquer ligação, chama a atenção da polícia de São Francisco.

Acreditando que para desvendar esse mistério será preciso agir um pouco além dos regulamentos, o chefe de polícia Tom Devlin convoca Tex e Carson. E os rangers encaram uma articulada organização criminosa, cuja missão é executar réus que a Justiça deixou livres.

Positivo/Negativo

Republicação de uma das primeiras aventuras de Tex editadas pela Mythos (dividida sob os títulos Cadeia de homicídios e A verdadeira justiça, em Tex # 371 e # 372, em setembro e outubro de 2000), Acima da Lei apresenta um argumento bem familiar a qualquer fã de cultura pop: o combate a um grupo de extermínio que age sob a justificativa de corrigir as falhas da justiça.

Em narrativas que apresentam esse tema, é comum os protagonistas primeiro encontrarem indícios das atividades da organização e, aos poucos, ir desbaratando-a, para então confrontar o líder, que frequentemente é alguém cujo envolvimento parecia impensável.

Nizzi quebra esse clichê e já começa mostrando as entranhas do bando dos justiceiros. Tudo é exposto ao leitor: como a quadrilha funciona, suas motivações, fonte de recursos, extensão de integrantes, método de ação, a sede secreta e até o cabeça do grupo, o refinado Alexander Smirnoff, que, pela fisionomia e modo de agir, mais parece um ancestral de Ernst Stavro Blofeld, o arqui-inimigo de James Bond em seus primeiros filmes.

Assim que Tex e Carson entram em cena, o escritor mostra o que diferencia os rangers de seus adversários. E isso acontece de forma até bem-humorada, por meio da reação dos dois quando o chefe de polícia Tom Devlin explica por que lhes pediu ajuda, insinuando que eles andam livres de amarras legais.

A investigação de Tex e Carson corre paralela às ações audaciosas da organização criminosa em despistá-los ou mesmo despachá-los para o além. Chegam a dar angústia os momentos em que, “por milímetros”, os heróis não põem as mãos nos membros mais importantes do bando.

Por outro lado, a astúcia dos criminosos é de se admirar e confirma a habilidade que os manteve fora do alcance da polícia por tanto tempo. E mérito para Nizzi, na construção dos personagens.

O jogo de gato e rato é o grande atrativo de Acima da Lei. Um dos melhores momentos é o encontro na mansão da viúva Harding, que, embora curto, é capaz de fazer o leitor prender a respiração. O desfecho da cena empolga e desemboca numa sequência de ação ainda mais frenética e com pinta de conclusão.

Mas Nizzi, de novo, é cruel com Tex e o “presenteia”com mais uma dose de suspense, ao estilo “bomba sob a mesa”, imortalizado por Alfred Hitchcock, transferindo todo o nervosismo para quem torce para que os mocinhos descubram o perigo iminente.

Mas os louros não são apenas do roteirista. De La Fuente tem um traço forte, limpo, ora anguloso, ora delicado, mas o que mais se destaca em seu trabalho é o notável talento para expressões de seus personagens.

Embora seu retrato do protagonista seja bastante homogêneo, com os coadjuvantes e vilões De La Fuente dá um show. Destaque para o trecho em que Tex “interroga” um arremedo de detetive particular metido com os facínoras, no qual o dom do artista consegue transmitir todo o tormento do sujeito.

Outra característica que salta os olhos é a noção de movimento do desenhista: as cenas de perseguição e tiroteio, o posicionamento dos personagens e as linhas de ação superam facilmente o esquema italiano de quatro ou cinco quadros por página, contribuindo para uma leitura fluida e uma sensação natural de movimentação cinematográfica.

Na conclusão de Acima da Lei, Nizzi e De La Fuente ainda inserem um elemento que apimenta (ou adocica, fica ao gosto do “freguês”) as aventuras de Tex: o exotismo, com uma conclusão típica das boas aventuras pulp.

Esta edição, ainda que seja um divertimento dos melhores, tinha potencial para ser mais ousada, sobretudo com uma discussão mais profunda acerca do funcionamento da justiça, sobre as diferenças entre justiça e justiçamento, a fé num modelo de resolução de conflitos, punição e educação social.

Os autores até ensaiam fazê-lo na conclusão, mas isso ocorre de maneira apressada, pouco interessada em passar uma compreensão mais contundente sobre a temática.

Uma reflexão mais detalhada sobre o assunto pode ser lida no texto que o tradutor Júlio Schneider assina ao fim da HQ, no qual também enumera informações acerca de Tom Devlin e de filmes e livros cujo conteúdo parecem ter inspirado Nizzi na criação da aventura.

Por fim, este Tex – Edição de Ouro apresenta algumas falhas editoriais. A primeira é de ortografia, com um grotesco “execussão” em vez de “execução” (p. 29). E a segunda é uma derrapada feia: exceto pela solitária página 126, o volume é inteiramente desprovido de numeração.

Classificação

3,5

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