Tex Gigante – O Vale do Terror

Por G. G. Carsan
Data: 26 julho, 2004

Tex Gigante - O Vale do TerrorEditora: Editora Globo – Edição especial

Autores: Claudio Nizzi (roteiro) e Magnus (capa e desenhos).

Preço: R$ 7,00 (preço da época)

Número de páginas: 240 (formato 18 x 26,9 cm)

Data de lançamento: Outubro de 1996

Sinopse

Crimes hediondos estão dizimando os habitantes de um vale fértil na bacia do Rio Sacramento, onde reside John Sutter, outrora conhecido como o Imperador da Califórnia, homem empreendedor que logrou grande desenvolvimento sócio-econômico para a região, e que foi subitamente engolido pela Corrida do Ouro, que trouxe milhares de garimpeiros para a região e lhe deixaram na mais absoluta miserabilidade.

Tex e Carson são chamados para descobrir e punir os culpados, uma seita de fanáticos que manda um aviso sinistro para as vítimas e, em seguida, as liquidam de modo atroz, juntamente com suas famílias, fazendo o “rapa” na grana e jóias e sumindo sem deixar pistas.

A chegada tempestiva dos rangers do Texas causa uma perigosa confusão nos planos dos Vingadores, responsáveis por tantas mortes. E Tex vai descobrindo que todos os envolvidos estão intimamente ligados por laços de sangue e procuram vingança contra aqueles que julgam responsáveis por suas desgraças.

Positivo/Negativo

A união do enredo e dos desenhos conferem a excelência para esta edição. Nunca antes houve uma aventura texianatão bem desenhada.

Nizzi escolheu muito bem o assunto que serviu de introdução e pano de fundo para a aventura. De fato, a Califórnia foi literalmente invadida por garimpeiros quando encontraram ouro nos leitos dos seus rios. Estava em construção a Transcontinental e com a debandada dos ferroviários para os garimpos, o governo se viu obrigado a importar mão-de-obra chinesa para continuar avançando na direção da Sierra Nevada, indo ao encontro dos trilhos que partiram de Omaha, Nebraska.

Toda uma vida de realizações se perde como água escorrendo entre os dedos e atinge o ápice do azar e da tragédia quando um homem perde a esposa e os filhos. Ocorre mais ou menos como nos dias de hoje, tempo de globalização, quando grandes impérios somem para outros surgirem rapidamente em seus lugares, com novas tecnologias. Assim, o ciclo do ouro californiano sepultou todos os avanços adquiridos com a agricultura e o comércio de gado e seus derivados por John Sutter.

Melhor ainda quando vítimas e vilões têm suas vidas cruzadas sob laços de sangue. Tudo com o tempero de personagens fiéis a causas comuns e pessoais, balizadas por desejos de vingança e ganância, sentimentos de ódio e inveja, segredos e ressentimentos.

MagnusO desenhista Magnus, cujo nome verdadeiro era Roberto Raviola, morreu pouco antes de ver a sua obra-prima texiana ir às bancas. Ele demorou sete anos para terminar o trabalho, quase levando Sérgio Bonelli a desistir e muitos colaboradores da editora a imaginar que não terminaria o trabalho.

Mas Raviola havia decidido fazer um trabalho que valeria por dez, e arrancaria suspiros do mais sagaz dos críticos. Ao aceitar o desafio de desenhar Tex, encarou como o maior de sua vida. “Não posso deixar de me curvar ao trabalho de autores que me antecederam. DesenharTex é uma tarefa de tremer as mãos…”, dizia.

Conforme Graziano Frediani, renomado jornalista italiano, Magnus adquiriu o hábito de esboçar e desenhar pessoalmente dezenas de modelos e estudos em perspectiva para reproduzir qualquer elemento, animado ou inanimado da cena, de cavalos a diligências, de relógios a fuzis, de rios a montanhas.

Os fuzis parecem vir do catálogo de um colecionador. Os pingos de água do furacão e as folhas de arvores foram literalmente tracejadas uma a uma, com a minúcia de um botânico e o emprenho de um pintor.

Magnus afirmou: “Estudei obsessivamente cada objeto, ambiente, paisagem e até me mudei para a montanha, porque lá em cima, ao contrário da cidade, me parecia mais fácil, observando uma pedra, um rio, uma árvore, submergir na atmosfera antiga e natural de um conto ambientado no Oeste americano”.

Os desenhos são mesmo soberbos, maravilhosos, estonteantes. Observa-se a meticulosidade das roupas, dos lenços, dos coldres, tudo bem delineado. Os personagens (todos estudados separadamente) de Magnus têm vida, olhares significativos, variedade de humor, emoção distinta a cada quadro, a cada situação. Os ambientes são bem destacados, retratam profundidade de campo, os móveis sugerem aconchego, os utensílios parecem fotos de época, fiéis. Cada desenho é uma pintura, um colírio para todos os olhos.

Tex de Magnus é soberbo, passando de viril a sarcástico, com ares de invulnerabilidade. É como se fosse dada ao leitor a chance de conhecer mais características do grande herói. Quem imaginaria ser isto possível depois de mais de 30 anos com Águia da Noite?

E a chinesa Mai-Ling? Que maravilhosa personagem! Sob todos os aspectos malévolos e sádicos, capaz de inundar de paixões o mais duro dos machões, porém com um sentimento altruísta que se transforma em puro egocentrismo.

É interessante ressaltar ainda o covil dos Vingadores, com suas escadas e tábuas riscadas milimetricamente. O leitor tem a impressão de que pode estar ali perto observando a cena acontecer.

Por fim, Magnus abusou na luta derradeira, quando os Vingadores de Mai-Ling chegaram às nuvens negras, com o vento forte açoitando folhas, lixo e poeira; e a chuva torrencial, o efeito dos pingos na muralha, nos homens e na terra. Um show de realismo.

O sucesso foi tão grande, que Magnus mereceu um livro intitulado Al servizio dell’eroe, Il Tex di Magnus, publicado em 1996, trazendo com grande detalhamento, a saga dos sete anos que a edição especial levou para ser desenhada.

O Tex da capa foi retirado do segundo quadro, da página 73, substituindo o cavalo pela fortaleza, que está vista de uma posição contrária à mostrada na história. Já desenho doranger na página 88, segundo quadro, foi utilizado pela Mythos Editora como capa da sua segunda edição de Tex, no número 352 da série normal.

O Vale do Terror é item obrigatório para todos os colecionadores de Tex e foi republicado recentemente pela Mythos, com a qualidade que lhe é peculiar. Portanto, está fácil adquirir um exemplar.

Esta edição representou um marco histórico na vida editorial de Tex, e seus autores atingiram a glória em suas profissões. Magnus voltou às origens e Nizzi alçou novos vôos.

Classificação

5,0

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  • Bruno Alves

    Minha primeira TEX Gigante, comprei num sebo em Uberlândia por 6 reais… onde eu moro não tem sequer uma banca de revistas mais, fecharam todas.