Traço de Giz

Por Sidney Gusman
Data: 26 julho, 2004

Traço de GizEditora: Meribérica/Liber – Edição especial

Autores: Miguelanxo Prado (texto e arte).

Preço: R$ 33,39

Número de páginas: 64

Data de lançamento: Janeiro de 1993 e Janeiro de 2001 (segunda impressão)

Sinopse

Depois de dois dias de tempestade, Raul consegue conduzir seu barco a uma ilhota perdida no meio do oceano, onde só há um velho farol que não funciona, um longo pontão, uma estalagem sem clientes e um muro branco no qual os visitantes deixam mensagens e recados estranhos.

Lá, só havia mais um barco, o da calada e misteriosa Ana, que logo o fascina. Mas a mulher lhe conta que está na ilha à espera de um homem.

Enquanto tenta conquistá-la, gaivotas começam a aparecer mortas pela ilha com uma espécie de seta atravessada no pescoço, o que leva Raul a desconfiar do estranho Dimas, filho de Sara, a dona da estalagem.

E o mistério aumenta quando um terceiro barco chega à ilha e Sara afirma que sempre que mais de duas embarcações ali aportam acontece confusão.

Positivo/Negativo

É uma pena que poucos brasileiros conheçam a obra do espanhol Miguelanxo Prado. Dono de um traço leve e de uma narrativa precisa, ele produziu alguns dos melhores álbuns de quadrinhos europeus da década de 1990. E Traço de Giz, sem dúvida, está entre eles.

Na história, Prado conduz o leitor por um roteiro lento, como se embalado pela calmaria do mar após a chegada de Raul à ilhota perdida no meio do mar. Há diálogos que, numa primeira leitura, parecerão completamente sem propósito, mas que, no final, servirão como chave para os mistérios da trama.

Se no início a história parece um relato das diversas tentativas frustradas de Raul em se aproximar de Ana, quando o terceiro barco chega à ilha, toma um rumo totalmente inesperado.

Depois de os dois tripulantes desse barco, Tato e Berto, serem enxotados por Ana (adivinhe o que queriam!) e de darem uns sopapos em Raul, eles atacam Sara na praia, servindo-se de seu corpo como bem entendem.

No dia seguinte, Raul encontra sangue nas pedras e pensa ser de mais uma das gaivotas. À noite, depois de levar um novo fora de Ana, resolve afogar as mágoas “enchendo a cara” e, bêbado, acaba levando Sara para seu barco. E ela lhe conta que seu filho matou os dois homens.

Como tragédia pouca é bobagem, nesse ínterim, Ana chega à conclusão de que estava sendo tola em fugir do assédio de Raul. Assim, decide pegar um bom vinho e ir ao barco dele, onde pega os dois, literalmente, no ato!

Ana foge em disparada e Raul, enraivecido e incapaz de encarar a mulher por quem realmente estava apaixonado, enxota Sara do barco e vai embora da ilha.

No entanto, Raul se arrepende e decide retornar, pelas suas contas, dois dias após ter partido. Mas já havia se passado uma semana. Ana havia ido embora e Sara e Dimas pareciam não o conhecer. Pior: os dois homens supostamente mortos passeavam pelo lugar na companhia de belas garotas!

Achando que fez papel de idiota, ele resolve seguir viagem novamente, mas antes deixa um recado no muro do pontão. E é aí que se encontra a chave para o mistério de Traço de Giz.

Na verdade (e sem entregar o desfecho), a obra lida de um jeito bastante peculiar com o tema viagem no tempo. Por isso, leitores menos atentos passarão despercebidos por detalhes que Prado coloca no roteiro e na belíssima arte.

Quando foi entrevistado pelo Universo HQ, em 2001, Miguelanxo Prado deu a seguinte declaração, quando indagado sobre a obra: “Tem gente que me diz que gostou muito deTraço de Giz, mas que não entendeu bem, achou um pouco esquisito. Uma vez, eu estava dando autógrafos em um festival, e uma mulher que estava há duas horas na fila chegou até mim e começou a falar que leu umas dez vezes, e que achava ter finalmente entendido. Aí, tirou um caderno do bolso, no qual fez várias anotações! Fez tabelas cronológicas de como as coisas poderiam ter acontecido! Tinha rabiscos etc. Explicou a história toda, e aí falei que ela entendeu bem (risos)!”

Fazendo uma comparação com a sétima arte, quem lê Traço de Giz se sente como o espectador que estava no cinema assistindo a O Sexto Sentido, estrelado por Bruce Willis e o então garoto Haley Joel Osment, no momento em que é feita a “revelação”. A primeira reação é tentar rememorar os fatos passados.

E, nesse ponto, os leitores de quadrinhos levam vantagem. Afinal, como se estivessem operando um DVD ou um videocassete, basta voltar páginas e páginas para (tentar) compreender a genial sacada de Miguelanxo Prado. Quem não fizer isso, corre o risco de “ficar boiando” em volta da ilha que, vista do alto, se parece com um Traço de Giz. Eis um roteiro que merecia ser filmado.

Classificação

5,0

• Outros artigos escritos por

.

  • Maldito/bendito podcast de vcs, agora vou ter que caçar essa indicação em sebo ou importando, só acho esgotado nos grandes sites…