Transmetropolitan – Volume 5 – O flagelo de Spider

Por Audaci Junior
Data: 17 novembro, 2017

Transmetropolitan – Volume 5 – O flagelo de SpiderEditora: Panini Comics – Série em seis volumes

Autores: Warren Ellis (roteiro), Darick Robertson (desenho), Rodney Ramos (arte-final), Nathan Eyring (cor).– Originalmente em Transmetropolitan # 37 a # 48 e nos encadernados Spider’s Thrash e Dirge (tradução de Edu Tanaka e Fernando Denardin).

Preço: R$ 86,00

Número de páginas: 288

Data de lançamento: Outubro de 2014

Sinopse

O assunto já é batido pro velho Spider Jerusalém de guerra, mas o que mudou é a intensidade da reação. Acostumado a ser uma pedra no sapato dos poderosos e hipócritas, o jornalista agora é o inimigo jurado do presidente dos Estados Unidos – um homem mais raivoso que uma cascavel furiosa, e duas vezes mais cruel.

Agora, relegado ao submundo com suas leais (e nojentinhas) assistentes, privado de todo conforto e caçado como um animal, Spider se prepara para a maior vingança de todas. Se sobreviver mais um dia, é claro.

Positivo/Negativo

Depois de estabelecer as bases do universo de um futuro não tão distante (e nem tão diferente do nosso) nos primeiros encadernados – De volta às ruas (2010) e Tesão pela vida (2011) –, Warren Ellis definiu o mote da série em O ano do bastardo (2012), seguido de Cidade solitária (2013).

A essa altura, já se sabe que o jornalista Spider Jerusalém quer fazer como o Washington Post na Era Nixon fez, e simplesmente derrubar o presidente dos Estados Unidos, Gary Callahan, vulgo “O Sorridente”. Porém, do seu jeito nada ortodoxo, vale salientar.

Como bom discípulo de Hunter Thompson (1937-2005) e formado sobre as leis do Jornalismo Gonzo, o grande “bastardo” não se dá por vencido, mesmo quando o Presidente dos EUA tirou dele seu “palanque”, forçando os acionistas do A Palavra a demiti-lo do jornal, como foi visto no volume anterior.

Ainda com prestígio pela popularidade, Spider vai procurar outros meios para ser ouvido. A solução é o site jornalístico de guerrilha chamado O Buraco. Essa fonte de notícias alternativa busca meios ilegais de se manter no ar, informando sem amarras de empresas ou contratos e clandestinamente.

No equivalente ao encadernado norte-americano Spider’s Thrash (a Panini publicou dois encadernados por edição a partir do volume 3), o jornalista fora-da-lei sofre atentados com agentes camuflados, conhece crianças que se prostituem (inclusive ele chega a esquecer que os coitados são crianças) e conversa com todo tipo de gente doida para fazer a sua investigação e avançar na derrocada presidencial.

O palanque é montado por Ellis, e Spider é o seu potente microfone para os mais variados assuntos tangenciados. Nada criticado, problematizado ou exposto por aqui é mera coincidência, visto que o roteirista é um sujeito totalmente antenado e plugado com o que está acontecendo ao seu redor e no mundo.

Neste primeiro ato, há uma revelação que vai gradativamente afetar as ações do protagonista. Com momentos de fortes discursos a plenos pulmões, há também duas passagens silenciosas que simbolizam e se expressam tão bem quanto as articuladas palavras de Jerusalém nos recordatórios. Envolvem cinzas de cigarro e patas decepadas de aracnídeos.

O segundo ato – Lamentação (Dirge, no original) – obedece uma cadeia de eventos, de devastadores efeitos climáticos a atentados aleatórios, que vai surtir impacto também no futuro. Interessante perceber como Ellis vai soltando detalhes para fortalecer personagens como Yelena Rossini, uma das assistentes “nojentinhas” de Spider.

Jerusalém peita novamente o Presidente Callahan, desta vez em público, o que obriga o político a fazer outra manobra trágica, assim como no arco O ano do bastardo.

Essas situações manipuladoras impostas por um dos homens mais poderosos do mundo nos remete a um termo que foi criado nos anos 1990, mas que está muito em voga nesses tempos de internet e embates ideológicos, o “pós-verdade”.

O termo descreve uma situação na qual fatos objetivos têm menos influência ou importância que os apelos emocionais, as crenças pessoais na hora de criar a opinião pública.

Com a velocidade de transformação das mídias e da geração (ou não) de conteúdo, o “pós-verdade” pode se tornar com o tempo uma palavra definidora da nossa época. Lembrando que Transmetropolitan se situa num futuro em que o retrovisor foca a nossa realidade.

A arte vigorosa do cocriador Darick Robertson, aliada à tinta de Rodney Ramos, cabe muito bem para a trama, apesar de parecer “apressada” ou irregular em alguns momentos. O desenhista explora ângulos e perspectivas menos convencionais, enche A Cidade de desordem e detalhes tecnológicos e carrega as páginas em contrastes (especialmente no capítulo O que sei).

A bem cuidada edição da Panini tem capa dura, papel couché de boa gramatura e impressão, capas originais nas aberturas de capítulos (assinadas por nomes como Tim Bradstreet, Matt Wagner, John Cassaday e J.G. Jones), além de biografias dos criadores da série e uma introdução do cineasta e fã Darren Aronofsky, diretor de filmes como Pi (1998), Réquiem para um sonho (2000) e Cisne Negro (2010), dentre outros.

Nesse texto, houve uma desatenção relacionada à tradução e à adaptação: o cineasta cita O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, mas a obra foi traduzida de forma literal (O retorno do Cavaleiro das Trevas).

Transmetropolitan – O flagelo de Spider prepara o terreno para o grand finale da saga do bastardo que vive com a nova escória e não tem medo de trazer a verdade à tona. Mesmo que, por vezes, aja de forma violenta e radical na obsessão de buscá-la, abrindo feridas para ter o prazer de colocar o dedo nelas, torcer e apagar uma bituca de cigarro.

E como sempre termina o famoso jornalista no final de sua coluna: “Agora, caiam fora!”

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