UM CONTRATO COM DEUS E OUTRA HISTÓRIAS DE CORTIÇO

Por Luciano Guerson André
Data: 1 dezembro, 2004


Título: UM CONTRATO COM DEUS E OUTRA HISTÓRIAS DE CORTIÇO (Editora Brasiliense) – Álbum

Autores: Will Eisner (roteiro e desenhos).

Preço: R$ 18,50 (preço atual)

Número de páginas: 192

Data de lançamento: 1988

Sinopse: Nos anos 30, um cortiço no bairro nova-iorquino do Bronx é palco dos dramas de seus moradores. O livro é composto por quatro contos:

Um Contrato com Deus narra a história de um bom homem que se sente traído por Deus ao perder sua filha única. Nos anos que se seguirão, ele tentará um ajuste de contas com o Criador.

O Cantor de Rua mostra as desventuras de um náufrago urbano: um alcoólatra que canta nos becos em troca de esmolas e que, ao se deparar com uma carente ex-cantora lírica, pensa ter tirado a sorte grande.

O Zelador conta como um destes profissionais, aparentemente tão insensíveis como um rochedo, acaba sendo dobrado pelo mais improvável dos seres.

Cookalein é um painel dos encontros e desencontros de várias pessoas que se cruzam nos hotéis baratos onde a classe operária passava suas férias.

Positivo/Negativo: A maioria das pessoas chega aos 60 anos pensando em aposentaria. Raros são aqueles que, nessa época de suas vidas, ainda ambicionam grandes realizações. Felizmente para os fãs dos quadrinhos, o consagrado autor Will Eisner nunca se enquadrou na categoria dos conformados.

Nascido William Erwin Eisner, no distante ano de 1917, o desenhista se consagrou nos anos 40 com sua criação mais famosa: The Spirit. Durante mais de uma década, usaria as páginas que produzia para o destemido combatente do crime como laboratório para audaciosas experimentações gráficas, revolucionando a linguagem dos quadrinhos e explorando possibilidades narrativas nunca antes tentadas. Ritmo, enquadramentos, onomatopéias, iluminação: o autor inovou em tudo e imprimiu sua marca na então jovem arte das HQs.

Em 1952, decidiu se afastar dos quadrinhos de entretenimento e dedicar-se a um campo que explorara nos seus anos no exército: a criação de HQs didáticas. Nos 25 anos seguintes, Eisner produziu material educativo para instituições educacionais, órgãos públicos, indústrias e as forças armadas.

Em 1972, se tornou professor de história em quadrinhos da prestigiada School of Visual Arts de Nova York. Consagrado, o mestre poderia muito bem deitar-se sobre os merecidos louros da fama e não se preocupar mais com a produção regular de novas obras.

Entretanto, em 1976, aos 59 anos, Eisner novamente reinventou a si próprio e aos quadrinhos. A inspiração e a visão do autor sobre as possibilidades das HQs o levaram a empreender a obra que sinalizaria o início de sua fase mais autoral.

Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço, lançado em 1978, seria tanto marco inicial quanto síntese do porvir. Afinal, em suas páginas se encontram os temas mais caros ao autor em sua maturidade, que seriam explorados em inúmeras obras que seguiriam ao longo dos anos.

Livre das amarras dos gênero policial e heróico que restringiam seus enredos para The Spirit, Eisner passou a criar literatura de primeira qualidade, na tradição de um Vitor Hugo ou Dostoievski, autores que também se caracterizaram pela crônica de seus tempos. No processo, fez eclodir o conceito de quadrinhos como mídia adulta. Apareceu pela primeira vez o termo graphic novel ou romance gráfico, cunhado por ele para classificar seu trabalho.

Os quatro contos que compõe o livro não tem um protagonista fixo. O único elo de ligação é um velho prédio decadente. As histórias giram em torno de seus habitantes e das pequenas tragédias de seus cotidianos. Seus personagens nada trazem do glamour e do maniqueísmo dos super-heróis dos comics, muito ao contrário, são por vezes mesquinhos, patéticos e perdidos como qualquer ser humano verdadeiro.

Lá se encontram o homem e a mulher comuns, trabalhadores e donas de casa da classe baixa judia nova-iorquina, morando em sórdidos cortiços e sonhando com uma vida melhor. Eisner lança seu olhar sobre os perdedores, os solitários e os desesperados. Porém, o faz sempre cultivando a esperança e a compaixão. Como um bom escritor humanista, sua obra nunca fez o elogio do desespero.

O ambiente retratado é bem conhecido pelo autor, que cresceu em lugares assim nos horríveis anos da grande recessão dos anos 30. No conto Cookalein, que fecha o livro, o personagem Willie é claramente um alter ego de Eisner. Esta veia autobiográfica seria mais tarde desenvolvida no álbum No Coração da Tempestade, publicado aqui pela Abril, em duas partes.

Vários trabalhos se seguiriam, sempre aclamados pela crítica e pelo público: Um Sinal do Espaço, O Edifício, Nova York – A Grande Cidade e outros. Em 1985, lançou Quadrinhos e Arte Seqüencial, obra teórica que procura transmitir sua visão sobre a mídia.

Por qualquer parâmetro que se julgue, Contrato é das raras obras que merece a classificação incontestável de obra-prima dos quadrinhos. Talvez a única outra que se equipare a ela em influência e valor literário seja Maus, de Art Spiegelman. É um divisor de águas e leitura absolutamente indispensável a qualquer um que se interesse por HQs ou simplesmente por boa literatura.

Quanto ao velho mestre Eisner, segue firme do alto de seus 87 anos, produzindo obra após obra com sua habitual qualidade. Um exemplo admirável tanto de autor quanto de ser humano.

Classificação:

4,0

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