UMA BIOGRAFIA MANGÁ: OSAMU TEZUKA – O NASCIMENTO DO OSAMUCHI (1928 – 1945)

Por Eduardo Nasi
Data: 1 dezembro, 2003

Título: UMA BIOGRAFIA MANGÁ: OSAMU TEZUKA – O NASCIMENTO DO OSAMUCHI (1928 – 1945) (Conrad Editora)

Autores: Toshio Ban e Tezuka Produções (roteiro e desenhos).

Preço: R$ 34,00

Número de Páginas: 208

Data de lançamento: Agosto de 2003

Sinopse: O livro é uma biografia, e conta o começo da vida de Osamu Tezuka, autor de mangás e animês que conjuga características raras de se ver em um artista: é pioneiro de diversas técnicas, revolucionou uma linguagem e, depois disso e de tantos anos, continua ostentando o título de ser o maior de sua arte.

Estão na bibliografia de Tezuka desde títulos populares como Astro Boy, Kimba, o Leão Branco e A Princesa e o Cavaleiro (publicado recentemente no Brasil pela JBC) até obras bastante densas e poéticas, como Phoenix: um conto do futuro.

A história começa em 1928, ano do nascimento do artista, em Osaka, e vai até 1945, no fim da II Guerra Mundial, quando ele descobre que, com a chegada da paz, poderá se tornar um autor de mangás.

Revela-se que, desde criança, Tezuka era um desenhista prodigioso e detalhista. Quando jovem, colecionava insetos e desenhava-os minuciosamente. Também produzia mangás para divertir seus colegas, mesmo durante a guerra, quando o entretenimento em geral (e os quadrinhos, em particular) era visto com maus olhos pelas autoridades japonesas.

Positivo/Negativo: É absolutamente surpreendente ver este título lançado em português. Em especial, porque a obra em mangá de Osamu Tezuka continua praticamente inédita no Brasil.

Apesar da aproximação e, pelo que consta, amizade entre o artista japonês e Mauricio de Sousa (o que rendeu uma certa repercussão ao autor brasileiro), a primeira edição nacional de seus trabalhos ganhou as bancas apenas em 2002, graças à JBC, com a deliciosa série em oito volumes A Princesa e o Cavaleiro.

À boca pequena, comenta-se que a edição não teria ido lá muito bem de vendas, o que só depõe contra parte do público de mangá, capaz de consumir, afoito, títulos duvidosos e deixar encalhar uma pequena obra-prima. Se você não leu, vale muito a pena ir atrás.

Nos Estados Unidos, Tezuka também vem ganhando edições e reedições nos últimos tempos. A Dark Horse vem publicando toda a série Astro Boy, e títulos mais elaborados, como Phoenix, estão chegando aos poucos às prateleiras das comics stores.

Mas, no caso deste lançamento, parece que a Conrad comprou um sistema de som superpotente sem ter o carro. Ou seja, por que publicar a biografia em mangá de um autor que tem apenas uma de suas obras lançadas no País; e cujos animês não ganham exibição desde, na mais generosa das hipóteses, o começo dos anos 80? Estranho, muito estranho…

Apesar de ser mera suposição, é de imaginar que o leitor que tem interesse neste título terá muito mais vontade de ler (e comprar) a obra de Tezuka.

O problema, na verdade, não é esse. Até porque o dinheiro – e a decisão do que publicar – é dos editores, não dos leitores. Mas, aqui fora, é de se estranhar ver um título de apelo tão pequeno sair logo depois do boato que o divertidíssimo Dr. Slump será “suspenso temporariamente” (ah, tá!).

O que cabe dizer é que esse mangá tem pouquíssima graça enquanto história em quadrinhos. São quase duzentas páginas com um constante tom de exaltação ao protagonista, o que é natural por ser um livro produzido por seu próprio estúdio, mas anula qualquer possibilidade de se ver Tezuka como um ser humano.

Ora, ele é tão perfeito que parece um pequeno Buda. Ao mesmo tempo, isso impede que a narrativa consiga manter algum conflito por mais de duas páginas. Se não é permitido se desenhar em sala de aula, o professor encarregado de Tezuka é justamente um sujeito que enxerga o potencial de seu aluno e libera que o pivete faça mangás. Se o guri corre o risco de perder as mãos por causa de uma micose grave, a cura aparece duas páginas depois. Se é obrigado a queimar todos os seus quadrinhos durante a guerra, o drama se encerra ali mesmo, não repercutindo em nada. Pode até ser verídico, mas que é sem graça, ah, isso é!

Ao mesmo tempo, é de se elogiar a Conrad justamente por investir em uma obra assim (e torcer, de coração, para que consiga vendê-la muito, e para que o título se torne um sucesso ímpar). Nas páginas desse mangá está a oportunidade ver reproduções de desenhos primevos de Tezuka – até mesmo os de sua coleção de insetos. E, apesar de enfadonha, a biografia é bastante detalhada e repleta de fatos curiosos.

A edição é caprichada. Além da capa (de Johnny Freak) em amarelo fluorescente, o livro vem acompanhado de um marcador de páginas. Há duas introduções. Uma do tradutor Alberto Tihiro Suzuki (que não traduziu o livro; a responsável pela tarefa foi Adriana Sada). Na outra, Sonia Bibe Luyten (professora doutora, provavelmente a maior especialista em mangás do Brasil, autora do livro Mangá: O Poder dos Quadrinhos Japoneses e autora da coluna Quadrinhos pelo Mundo, aqui do Universo HQ) conta como foi entrevistar Tezuka e relembra até o funeral do autor, em 1989, em que foi a única estrangeira a participar.

Para finalizar, há uma tabela com obras de Tezuka (que consta dos quadrinhos), mas nada que explique por que a lista elenca apenas títulos de 1955. Também não há menção (nem no livro, nem no site Herói.com.br, nem no release enviado pela editora) a este ser o primeiro de quatro volumes.

Depois de Lições de Akira Toriyama, a Conrad volta a publicar um livro com o sentido de leitura japonês – o que se vê nos seus mangás de banca, mas não em obras como Gen – Pés Descalços, Preto & Branco e Speed Racer. Mas os leitores estranharão a posição da página que sinaliza a leitura invertida. Ela não está no começo ocidental (o que é mais lógico, porque o aviso é para os leitores que não esperam pela inversão), e sim muito adiante, bem depois das introduções.

Por fim, há diversos errinhos de português (faltas de artigo, vírgulas e crases mal colocadas, sílabas faltando, como na palavra “inauração”, no rodapé da sexta página de quadrinhos etc), o que tira o lustro de qualquer livro. Infelizmente, como as páginas não estão numeradas, fica difícil localizá-los precisamente.

Na página 45 (se a contagem estiver certa), segundo quadro, há uma pequena desatenção editorial. O narrador diz: “Ele inventou uma frase que alguém logo disse emocionado:”. No entanto, o balão seguinte está vazio! Ou seja, não dá pra saber qual foi a frase!

Nos textos de introdução também há pequenos deslizes. No de Alberto Tihiro Suzuki, segunda página, aparece a frase: “É uma das poucas pessoas que realmente merecem ser chamadas de gênios”. A concordância usada pode até ser aceita, mas, nesse caso, é claro que a referência é a Osamu Tezuka. Portanto, parece mais correta o singular, assim: “É uma das poucas pessoas que realmente merece ser chamada de gênio”.

Na terceira página do artigo de Sonia Luyten, Mauricio de Sousa tem seu nome grafado, erradamente, com acento (Maurício); e na seguinte, na frase “a viagem pareceu-me um eternidade”, evidentemente, o artigo indefinido deveria estar no feminino.

Uma curiosidade: Sonia Luyten é uma árdua defensora de a palavra “animê” ser grafada com acento, devido à sua pronúncia em japonês ter esse som. No seu texto, isso foi respeitado, apesar de a Conrad preferir “anime” em todas as suas publicações, inclusive na orelha deste livro.

Classificação:

4,0

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