VELHOS HOTÉIS PASSAM CINEMA MUDO

Por Eduardo Nasi
Data: 1 dezembro, 2012

VELHOS HOTÉIS PASSAM CINEMA MUDO

Editora: Cachalote – Edição especial

Autor: Eloar Guazzelli (texto e arte).

Preço: R$ 22,00

Número de páginas: 24

Data de lançamento: Novembro de 2012

 

Sinopse

Imagens de cinemas, hotéis e trens se justapõem de forma a criar uma viagem por locais abandonados, pela memória e pelas percepções.

Positivo/Negativo

Velhos hotéis passam cinema mudo se impõe como um marco e um clássico: é um dos melhores quadrinhos brasileiros já feitos. Não é papo pra lista de fim de ano. É coisa pra vida.

Guazzelli chega a um resultado impressionante. A princípio, o leitor é jogado diante de uma série de imagens justapostas. Primeiro de cinemas antigos. Os nomes são conhecidos, especialmente porque muita cidade teve algum chamado Castelo, Marrocos, Ritz ou Roxy.

Os cinemas ali podem existir em qualquer lugar, podem ser imaginários, mas ecoam na memória. Fazem sentido. De certa forma, todo mundo já abandonou aqueles velhos cinemas.

Aí vêm os hotéis. A mesma coisa: podem ser de qualquer lugar, mas são profundamente verdadeiros. Mesmo que ficcionais, eles existem. Talvez não no nosso mundo, talvez tenham feito parte de um filme ou de um livro. Mas existem, definitivamente existem.

A jornada segue por metrôs (Paris, Nova York, um lugar qualquer) e chega a linhas de trem, a fábricas, a galpões abandonados.

Há certa mágica nesses desenhos que são do Guazzelli, claro, mas parecem ter sido tirados da memória do leitor. Como se não pertencessem a ele, e sim a um imaginário coletivo, um mundo junguiano em que os mitos são coisas que já não existem ou que ficaram pra trás.

Na história, não há personagens. Não há diálogos nem nenhum tipo de texto. Quem está ali, sozinho, fazendo aquele passeio sob seu próprio ponto de vista, é o leitor. E é ele que vai ser arrancado de suas memórias na grande reviravolta da trama – a que coloca tudo no seu lugar, a que fecha a experiência e arranca o fôlego.

Não faz mais sentido falar de HQ experimental. Tudo já foi experimentado. Guazzelli não é o primeiro a usar o recurso de criar uma história sem personagem ou com quadros que aparentemente não criam uma sucessão narrativa.

O que importa, aqui, é o resultado, que é soberbo. Tem um frescor impressionante. Num mundo de ideias repetidas, é profundamente original. O que parecia mera desordem ganha um sentido, e é devastador. A nostalgia toma conta da história, numa tentativa de guardar o que já não existe, de guardar um tempo em um álbum de figurinhas. Como se fosse viável. Ou possível.

Em edição independente, feita pela editora Cachalote para
o projeto 1000 (sem a finada parceira Barba Negra),
tem circulação restrita, apenas 500 exemplares, alguns à venda com o autor.

Sinceramente, é caso pra se mexer e ir atrás.

 

Classificação:

4,0

• Outros artigos escritos por

.

.

.