Verão Índio

Por Sidney Gusman
Data: 21 dezembro, 2005

Verão ÍndioEditora: Meribérica / Liber – Edição especial

Autores: Hugo Pratt (roteiro) e Milo Manara (arte).

Preço: Variável, dependendo do sebo (fora de catálogo)

Número de páginas: 160

Data de lançamento: Setembro de 1994

Sinopse

Em algum ano próximo da metade do século 17, numa praia pouco habitada em Salem, Massachusetts, a bela jovem Sheva, sobrinha do pastor local, é violentada por dois índios.

Após se “divertirem”, enquanto se banhavam nas águas os dois foram mortos a tiros de espingarda pelo jovem Elijah Lewis, que leva Sheva para a casa de sua mãe, para cuidar dela.

Mas quando os outros integrantes da tribo descobrem seus amigos mortos e sem os escalpos, imediatamente começam a caçar os culpados. E eles querem vingança.

E, em meio à batalha que se seguirá, muitos acontecimentos do sombrio passado da família Lewis serão revelados.

Positivo/Negativo

Junte um roteirista genial e um desenhista fantástico e o resultado não poderá ser menos do que uma obra-prima. Assim pode ser definido Verão Índio, que em 2005 foi eleita uma das 100 melhores histórias em quadrinhos do século 20, segundo uma votação feita pelo Festival de Amadora, em Portugal.

E não é exagero. Bem ao seu estilo, Hugo Pratt (o criador de Corto Maltese) construiu uma história envolvente, que inicialmente parece ser simplesmente uma trama aventuresca, mas logo revela um pano de fundo cujos fatos vão se entremeando à luta dos Lewis pela sobrevivência.

Quando descobre que Sheva está na casa da “pecadora” Abigail Lewis e seus filhos, Peregrino Black, pastor da vila fortificada de New Canaan, parte para resgatá-la. Então, os índios atacam em busca de vingança. E pouco importa quem está no local.

Em meio à batalha, Black é ferido com uma flecha no ombro esquerdo. Então, a linda Phillis, filha de Abigail, se joga a seus pés chamando-o de pai. É quando Hugo Pratt dá a pista de que havia algo mais por trás da trama principal.

Por sorte, os soldados de New Canaan intervêm, matam dezenas de peles-vermelhas e partem levando o ferido Peregrino Black e sua sobrinha – que mais tarde se mostraria extremamente solícita ao cuidar do “titio” durante um banho numa tina, protagonizando uma cena de forte erotismo.

Quando fica sozinha com seus quatro filhos e sabendo que os índios não tardariam a voltar para massacrá-los, Abigail Lewis conta sua história.

Ela revela que foi vendida como serva para o Reverendo Black (pai de Peregrino), que passou a assediá-la sexualmente e “forçá-la” a fazer coisas que não queria. E as aspas na frase anterior são justamente para dar um tom irônico ao verbo forçar, pois Milo Manara desenhou a personagem com expressões que demonstravam o prazer que sentia naquelas bolinações.

No entanto, Abigail se envolveu com um caçador francês que estava de passagem pelo local e engravidou de seu primogênito Abner. Quando soube, o velho Black a expulsou de casa. Ela passou a morar na cabana onde residia com seus filhos. Mas o reverendo não tardou a recomeçar suas visitas, que resultaram no nascimento de Elijah.

Em seguida, Abigail teve seu rosto marcado com uma letra “L”, de Lilith (a primeira mulher rebelde de Adão), apenas por ser amiga de Dorothy Talbie, que em pleno século 17 lutava pela igualdade da mulher em relação ao homem – e foi assassinada por isso. Não esqueça: a história se passa em Salem, a “terra das bruxas” nos Estados Unidos.

Antes de o reverendo Black morrer, seu filho Peregrino já mantinha relações sexuais com a “marcada” Abigail, e assim nasceu Phillis. Por fim, o pequeno e meio abobado Geremia era filho adotivo.

O mais inusitado dessa passagem é que, enquanto sua mãe revela a história, Phillis (que já sabia da verdade) fica apalpando o pênis de Abner e se esfregando nele, pois ele era o único das redondezas que com quem nunca havia se deitado. Ao falar da ingenuidade de seu estupefato irmão, a moça ainda enumera as relações incestuosas da Bíblia.

Como diz Abner, na página 107, “Que família”!

Agora, imagine isso no traço de Manara. O mestre dos quadrinhos eróticos deita e rola na retratação de expressões faciais (poucos conseguem retratar tamanho erotismo mostrando apenas o rosto de um personagem). E suas mulheres, bem, como todos sabem, são um capítulo à parte.

Destaque ainda para as cenas em flashback, todas pintadas em tons pastéis, para diferenciar do colorido usado no presente.

Mesmo nas cenas de batalhas, Manara dá um show de narrativa. As seqüências fluem num ritmo quase cinematográfico Trabalhar com seu mestre Hugo Pratt (eles também fizeram juntos El Gaúcho, da Meribérica / Líber, que a Conrad anunciou para 2006) certamente lhe deixou ainda mais inspirado.

O ataque final dos índios acontece já em New Canaan, para onde os Lewis rumaram após os peles-vermelha colocarem fogo em sua cabana de madeira. As cenas são impressionantes e o desfecho, inesperado. Nada de finais felizes ou “mastigados”. Nas últimas quatro páginas, Pratt e Manara, como em muitos filmes de cunho histórico, fazem um rápido resumo dos rumos que a vida de cada personagem tomou. O resto é por conta da imaginação do leitor.

O roteirista sugere ainda que a história narrada em Verão Índio realmente aconteceu e foi retratada em manuscritos pelo italiano Cosentino, secretário dos Black por anos. E que, anos depois, quando trabalhava na Salem Custom House, Nathaniel Hawthorne os encontrou envoltos num pano vermelho com uma letra “A” bordada. E teria vindo daí sua inspiração para escrever o clássico romance A Letra Escarlate.

Ao chegar à última página deste belíssimo álbum (também no aspecto gráfico), o sentimento é o mesmo de ser ter lido um ótimo livro. Hugo Pratt mescla com mestria em seu roteiro temas como violência, fanatismo religioso, amor, incesto, erotismo e intolerância. Se a princípio parece mais uma história de brancos versus índios, do meio para o final se converte numa crítica pesada a uma época conturbada dos Estados Unidos e aos modos de alguns religiosos – algo em voga até hoje, infelizmente. E o traço de Milo Manara apenas deixa esta obra ainda mais irreparável.

Verão Índio merece ser conhecido e é de se lamentar que nenhuma editora brasileira tenha lançado este material no Brasil até hoje.

Classificação

5,0

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