A Vida é um Delírio – Obra Completa

Por Gonçalo Junior
Data: 18 fevereiro, 2011

A Vida é um Delírio - Obra CompletaEditoraEdições Asa – Edição especial encadernada

Autor: Miguelanxo Prado (roteiro e desenhos).

Preço: € 19,99

Número de páginas: 192

Data de lançamento: Maio de 2003

Sinopse

A edição reúne todas as histórias publicadas em títulos avulsos de vários países europeus na década de 1980 e que antes haviam sido compiladas em três álbuns: Cotidiano Delirante – Tomo 0,Cotidiano Delirante e Cotidiano Delirante 2.

Traz ainda pequena biografia do artista, as ilustrações originais usadas nas capas e esboços/rascunhos.

Todos os personagens – alguns se repetem – são tipos comuns da classe média e da elite, geralmente famílias com filhos, que podem ser encontradas em qualquer grande cidade ocidental. São pessoas que vivem, aparentemente, nas mais absurdas situações do dia a dia, mas que, de tão próximas do leitor, parecem reais e perfeitamente verossímeis. Até mesmo se trouxerem dinossauros vivos.

Positivo/Negativo

O primeiro contato que o leitor brasileiro teve com a obra do espanhol Miguelanxo Prado, que completará 53 anos em dezembro de 2011, foi com Mundo Cão, edição de 64 páginas que saiu como volume 26 da coleção Graphic Novel, publicada a partir do final da década de 1980 pelaAbril. Isso aconteceu precisamente em março de 1991.

Foi o suficiente para que muitos se tornassem seus fãs e buscassem outros títulos – na época, felizmente, a editora portuguesa Meribérica, com distribuição no Brasil, fez circular nos anos seguintes uma pequena tiragem dos principais álbuns do artista.

Neste volume editado com zelo pela também portuguesa Edições Asa estão todas as histórias da série e das quais, portanto, Mundo Cão foi retirada.

Vinte anos depois, Miguelanxo Prado continua irretocável. Aliás, melhor e mais atual do que nunca, nessa original série de tramas curtas e bem escritas que explora com impressionante sarcasmo e ironia, como até então nunca se tinha visto nos quadrinhos, o quanto a hipocrisia se enraizou nas neuróticas relações sociais e familiares da virada para o século 21. A ponto de ter se tornado quase uma norma de conduta ou de sobrevivência, de acordo com cada ponto de vista.

A visão sensível de mundo de Prado – num aparente humanismo às avessas – é devastadora ao explorar situações bem comuns do cotidiano, como a do rapaz de reclama do cocô de cachorro e se dá muito mal por isso.

Totalmente desprovidos de valores humanistas ou humanitários, seus personagens são cínicos, incoerentes, imorais, amorais e desmoralizados, sem caráter, sem ética e, principalmente, sem qualquer juízo de valor de suas conscientes condutas, de serem perversos ou, talvez seja o melhor termo, tremendamente escrotos.

Prado desnuda a todos – personagens e nós, leitores – sem moralismos. Expõe o conflito de princípios seculares que norteiam qualquer convivência social menos viável possível, mas que têm sido pisados e chutados nesses tempos de revolução digital. Ele soca o quanto há de insano e delirante na insuportável ditadura do politicamente correto, na qual não há espaço para questionamentos, debates, discussões ou enfrentamentos. Quando ser civilizado é calar-se diante do errado, num silêncio tumular que exala cheiro de pura covardia.

Uma obra-prima se estabelece como tal quando consegue se manter forte, impactante, independentemente do tempo em que foi concebida e lançada. Em dias de incongruências e hipocrisias, quando se condena políticos corruptos, mas se adota a apropriação intelectual e de direitos dos outros – ou violação desses – como algo extremamente natural, faz-se necessário ler com urgência o cotidiano nem um pouco delirante de Miguelanxo Prado.

Talvez seja a última esperança de despertar pelo menos um hipócrita. Ou um idiota.

Classificação

5,0

Gonçalo Junior é jornalista e autor dos livros Maria Erótica – O clamor do sexo e A guerra dos gibis e editor do caderno de cultura do Diário de S.Paulo

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