Vidas Secas

Por Audaci Junior
Data: 2 outubro, 2015

Vidas SecasEditora: Galera/Record – Edição especial

Autores: Arnaldo Branco (roteiro) e Eloar Guazzelli (arte) – Baseado no romance homônimo de Graciliano Ramos.

Preço: R$ 49,00

Número de páginas: 104

Data de lançamento: Agosto de 2015

Sinopse

A história da jornada de uma família de retirantes sertanejos em busca de melhores condições de vida – o embrutecido vaqueiro Fabiano, sua mulher Sinhá Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia na peregrinação para sobreviver em meio à aridez inclemente do sertão nordestino.

Positivo/Negativo

Um dos mais importantes romances do Brasil, Vidas Secas foi lançado originalmente em 1938 pelo alagoano Graciliano Ramos (1892-1953), que ouvia muitas histórias sobre retirantes sertanejos durante a sua infância, servindo de alicerce para sua obra-prima.

A visão da dupla Arnaldo Branco e Guazzelli demonstra o mais profundo respeito pelo original, servindo como um “cartão de apresentação” para quem ainda não leu e uma nova experiência para os que já enveredaram pela prosa simples, porém complexa, de Graciliano.

Adaptação eficiente, o álbum não se coloca apenas para reproduzir o texto original, mas sim nortear uma nova perspectiva para o enredo, assim como o clássico homônimo do Cinema Novo, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, em 1963.

O traço estilizado e dinâmico de Guazzelli, junto com suas cores monocromáticas que dialogam com a história de Fabiano e família, oferecem o tom marcado pela ausência de feições dos personagens. Sem definição de rostos, os autores apontam que os personagens poderiam ser qualquer um. É a mesma ideia de não batismo dos filhos do casal protagonista.

Os planos abertos, geralmente horizontais como o formato widescreen cinematográfico, fazem com que os seres humanos se amalgamassem naquele cenário minimalista e desolador.

Arnaldo Branco obedece e separa a narrativa pelos capítulos pensados por Graciliano Ramos, enxugando as descrições e deixando mais dinâmica a leitura.

Pela delimitação do número de páginas, algumas passagens da obra não foram tão bem evidenciadas nos quadrinhos. Um exemplo é quando a cachorra baleia abocanha e traz um preá para compartilhar com os outros. Nesta sequência, uma faminta e agradecida Sinhá Vitória beija o focinho do animal, aproveitando também para lamber o sangue. Essa última parte, que ficou de fora, mostra o desprendimento com a cachorra, elevando-a ao patamar de “membro da família”.

Mas também o personagem é protagonista de uma das sequências mais belas da adaptação: o fim da sua vida é mostrado de maneira subjetiva, no ponto de vista do próprio animal, antes de adentrar ao paraíso cheio de preás.

O embate ideológico presente na autoridade do soldado amarelo, a exploração econômica do patrão em cima de cálculos e juros incompreensíveis para Fabiano, a admiração do menino mais novo pela intocável figura paterna, a descoberta vocabular a duras penas do menino mais velho, o eterno movimento cíclico como as quatro estações representadas apenas pela chuva e o sol inclementes. Muitos elementos familiares da literatura de Graciliano serão apresentados/revisitados por aqui.

Vidas Secas, a HQ, fala no mesmo tom do romance em que se baseia, graças aos seus autores, que não têm suas quilometragens zeradas na estrada das adaptações. Arnaldo Branco já adaptou peças de Nelson Rodrigues (1912-1980), como Beijo no Asfalto (Nova Fronteira) e Vestido de Noiva (Desiderata), ambas ilustradas por Gabriel Góes. Já Guazzelli tem uma lista bem maior nesse quesito. Recentemente, ele lançou Kaputt (WMF Martins Fontes), baseado no livro homônimo de Curzio Malaparte (1898-1957); e Grande Sertão: Veredas (Globo Livros), com arte de Rodrigo Rosa para a obra de Guimarães Rosa (1908-1967).

Competente trabalho também no projeto editorial da Galera/Record, o álbum tem formato 19 x 25 cm, capa cartonada com aplique de verniz e orelhas, papel offset com boa impressão e gramatura, além de um prefácio da Elizabeth Ramos, neta de Graciliano.

Classificação

4,0

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