VIOLENT CASES

Por Sidney Gusman
Data: 1 dezembro, 2008


Autores: Neil Gaiman (roteiro) e Dave McKean (arte).

Preço: 39,90

Número de páginas: 56

Data de lançamento: Janeiro de 2008

Sinopse: Um homem relembra um fato marcante de sua infância. Aos quatro anos, quando vivia na Inglaterra, seu pai deslocou seu braço e o levou a um osteopata para ser tratado. O velho homem que o atendeu alegava ter trabalhado para o gângster Al Capone, na década de 1920, em Los Angeles.

E mesmo depois de tanto tempo, entre festas de aniversários de crianças e drinques no bar de um hotel, passado e presente podem se confundir.

Positivo/Negativo: Está escrito na quarta capa deste álbum: “Dez anos atrás, Violent Cases era revolucionário. Hoje, é um clássico.”. O texto faz crer que a obra foi lançada em 1998, o que é um erro. O trabalho que marcou a estréia do britânico Neil Gaiman no mercado de quadrinhos foi publicado originalmente em 1987 (como está mencionado na introdução) e a citação acima está na versão inglesa comemorativa aos dez anos da HQ, da Titan Books, e também na terceira edição americana da Kitchen Sink.

Mas, independentemente do equívoco (bastava colocar a data da citação), o que “pega” mesmo é que Violent Cases não tem nada de revolucionário, tampouco de clássico. Mas, exageros à parte, é uma boa história.

Mostra um Neil Gaiman ainda longe do brilhantismo que alcançaria em Sandman, porém já competente em construir roteiros intrigantes. É verdade que os “saltos temporais” que a trama apresenta são abruptos em certos momentos (especialmente quando o narrador, retratado como o próprio escritor, faz intervenções), mas isso não tira o prazer da leitura.

Na forma como Gaiman amarra as histórias do garoto e do osteopata se enxerga um quase embrião do que se tornaria uma de suas marcas registradas anos depois. Aliás, como bem observou o jornalista Eduardo Nasi nas resenhas de Eternos, o problema com as obras do britânico é que todos os seus mal-acostumados fãs, quando lêem algo com a sua assinatura, esperam por um novo Sandman – este sim revolucionário e clássico.

Não é o caso. Violent Cases está aquém desse patamar (algo plenamente justificável, pois Gaiman estava em início de carreira), mas acima da maioria do que se vê em bancas atualmente.

E há a arte de McKean. Quem se embasbacou diante de seu lindo desenho em Orquídea Negra, quando ele e Gaiman estrearam na DC, poderia pensar que seu estilo fosse aquele. Negativo. O seu traço sem pintura é tão chamativo quanto.

O artista que faria todas as 75 capas de Sandman mostra, mesmo no começo de carreira, que era diferenciado. Páginas com enquadramentos ousados e diagramações que ditam o ritmo da trama são só alguns dos destaques deste trabalho. E também já se pode enxergar suas “brincadeiras” com colagens e fotos. Na seqüência final, com o osteopata e o mágico, vale atentar para a forma como ele dispõe os pôsteres dos filmes nas cenas.

Quanto à edição brasileira, graficamente é o melhor trabalho da HQM até agora. Capa dura, papel bacana e um belo acabamento. O texto está bem cuidado, mas tem pequenos problemas. O primeiro na página 11 da história: a palavra gângsteres aparece sem o acento circunflexo – talvez até tenha sido colocado (a palavra é grafada corretamente mais à frente), mas pode ter “sumido” pelo fato de a fonte escolhida ser muito fina. E o outro nas referências – o nome em português do filme Whisky Galore! é Alegrias a Granel, e não Ganel, como foi publicado.

Além disso, no final do álbum, algumas notas identificam as referências presentes na obra considerando a folha de rosto do álbum como a primeira página. Outras começam a contar a partir da página inicial de quadrinhos. E aí, claro, a numeração não bate. E isso pode ser conferido logo nas duas primeiras indicações.

E a confusão aumenta porque as páginas da edição não são numeradas – o que, se houvesse sido feito, certamente impediria até o erro editorial. Ou seja, se o leitor quiser conferir as referências, terá que contar uma por uma. Pode ser um detalhe que apenas leitores meticulosos observam? Talvez. Mas como a HQM vem evoluindo em suas produções não custa ficar mais atenta.

Contudo, esse deslize não invalida o belo trabalho realizado em Violent Cases, um dos bons lançamentos do ano até o momento. Mas sem exageros.

Classificação:

4,0

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