Você é um babaca, Bernardo

Por Audaci Junior
Data: 23 dezembro, 2016

Você é um babaca, Bernardo

Editora: Mino – Edição especial

Autor: Alexandre S. Lourenço (roteiro e arte).

Preço: R$ 58,00

Número de páginas: 132

Data de lançamento: Setembro de 2016

Sinopse

Bernardo se esforça em manter os impulsos aventureiros de sua cabeça em detrimento ao seu corpo acomodado. Vez por outra, ele não garante o sucesso, então a sua cabeça se desaloja do resto e ambos seguem caminhos opostos.

Sem motivações ou ambições pessoais, Bernardo está perdido em seu dia a dia… até conhecer uma garota.

Positivo/Negativo

Diferente da facilidade na qual o protagonista tem de “decapitar” a sua cabeça, que vai flutuando descompromissadamente por ai, é preciso aclimatar e pegar o ritmo que Alexandre S. Lourenço coloca na narrativa desta peculiar obra.

Quem já viu a série Robô Esmaga (pequenos “causos” publicados virtualmente e posteriormente lançados em coletânea pela JBC, sob o selo Ink), do autor, está habituado com a maneira como Lourenço trata de temas cotidianos, tudo amarrado com o seu traço minimalista, no sentido de um artesão que talha formas de um tamanho da cabeça de um alfinete ou de um palito de fósforo.

Logo nas primeiras páginas, há um paradoxo: a extremamente pedante rotina de Bernardo é mostrada de maneira bastante experimental, saindo totalmente do lugar comum, obedecendo dois tipos de leitura.

Sem delimitar e diagramar a ação por quadrinhos, existe a leitura “normal”, na qual pode-se atentar à repetição de atos rotineiros do protagonista, a exemplo de ele pegar o mesmo ônibus todo santo dia, algo evidenciado pela mudança de roupa.

Nessas mesmas sequências, há também uma série de seguimentos não lineares, que obedece a disposição do personagem em cada página. Pegando o mesmo exemplo do transporte coletivo, a camisa que o leitor o vê vestir no terceiro “quadrinho” é a mesma da página seguinte nesta mesma posição e assim por diante.

.

Em suma, cada dia pode ser acompanhado fazendo essa sui generis leitura, associando um só seguimento por vez, de página em página.

O álbum praticamente não tem falas ou grandes diálogos, mas o que faz a diferença e detém o olhar do leitor são as banais casualidades diárias em cada composição, como a ida ao trabalho de bicicleta, o encontro com um cachorro de rua e sua posterior adoção, as intempéries do tempo ou um novo quadro para pendurar na parede sem graça.

As situações – nem sempre obedecidas pela cachola – são enfadonhas. Existe aqui a busca do quadrinhista em transmitir isso, igual à sensação automática do corpo catar no escuro o interruptor para acender uma luz ou fazer inconscientemente o mesmo caminho para o trabalho, sem muito esforço mental, o que leva à “revolta” da cabeça. A monotonia da acomodação, tão cara às pessoas e ao nosso tempo.

Observe como o Alexandre S. Lourenço aproveita o “vazio” sem requadros para diagramar suas páginas, inclusive quando essa rotina se quebra, estabelecendo ritmos e impactando a leitura condicionada que o leitor estava começando a se acostumar quando entendeu os sentidos do storytelling.

Esses hiatos em branco também ajudam a contar a história, seja para enfatizar a distância da expectativa versus a realidade, seja para comprovar a expressão “perder a cabeça” em momentos-chaves, dentre outras metáforas simbólicas ao longo da HQ.

Quando a narrativa segue os passos da “convencional”, o álbum mostra até as grades fixas que parecem compor um único quadro grande da mudança de cenário, incluindo uma “aproximação” nos detalhes e nas expressões faciais dos personagens. Mais uma quebra de ritmo, neste caso, por meio do processo de angulação, geralmente imóvel e distante do leitor-testemunha das rotinas.

Mesmo sem muitos diálogos ou falas, Lourenço os sugestiona em balões “inaudíveis” e aproveita ferramentas como sinais de pontuação para representar recursos narrativos, vide quando é aberto um grande parêntese para apresentar um flashback no enredo.

Preso em ciclos, até quando se mostra mudanças, Bernardo vai colhendo alegrias e tristezas nas discussões racionais (pé no chão) e emotivas (flutuantes) de suas partes nas encruzilhadas da vida. Se essa dicotomia muitas vezes não chega a uma concordância, imagine o relacionamento com outras pessoas.

Com capricho, a edição da Mino tem capa dura, formato 20 x 20 cm e papel off-set de boa gramatura e impressão para as 130 páginas coloridas. Um excelente trabalho, que peca por um mínimo detalhe: a qualidade da imagem que foi utilizada ampliada na capa deixa evidente o serrilhado do traço, principalmente na cabeça colocada na quarta capa. Um detalhe que pode passar despercebido pela maioria, mas que também não influencia na nota do projeto.

Você é um babaca, Bernardo – uma história sobre a rotina deprimente e encontros e desencontros – desaloja o leitor do marasmo de muitas HQs autorais por aí e estabelece o nome de Alexandre S. Lourenço como uma das melhores cabeças flutuantes da sua geração no cenário atual dos quadrinhos nacionais.

Classificação

5,0

.

Compre Você é um babaca, Bernardo aqui!

• Outros artigos escritos por

.

  • Helio Sampaio

    Eu li e este é o tipo de quadrinho que me anima e dá para notar que estamos em uma época especial nos quadrinhos nacionais. Acho que só falta acertar em uma inovação verdadeira de super-heróis.