Watchmen – Edição definitiva

Por Sidney Gusman
Data: 24 abril, 2009

Watchmen - Edição definitivaEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Alan Moore (roteiro), Dave Gibbons (arte) e John Higgins (cores).

Preço: R$ 120,00

Número de páginas: 456

Data de lançamento: Março de 2009

Sinopse: Em 1985, num mundo em que Estados Unidos e União Soviética vivem à beira de uma guerra nuclear, o assassinato do Comediante, um ex-combatente do crime, poderia soar quase como algo corriqueiro.

Mas não para o paranoico Rorschach. Depois que os vigilantes foram afastados devido à pressão dos policiais, ele foi o único que continuou suas atividades nas ruas. Mesmo contra a lei.

Agora, Rorschach quer saber quem matou o Comediante, que durante muitos anos realizou “serviços” a mando do governo. E por qual razão.

E quanto mais Rorschach se aprofunda na investigação, mais ex-combatentes do crime são envolvidos; e mais o que parecia uma tola teoria da conspiração ganha força.

Positivo/Negativo: Qualquer leitor de quadrinhos com um pouco mais de “bagagem” sabe que Watchmen é uma obra superlativa.

É uma das melhores HQs de todos os tempos e, ao lado de O Cavaleiro das Trevas, um dos marcos absolutos do mercado de super-heróis, pois provou que uma história com seres usando roupas colantes pode, sim, ser adulta.

Alan Moore dá uma aula de roteiro. Não só ao construir a trama, mas utilizando recursos como a metalinguagem. A forma como os textos de um subplot (como, por exemplo, o dos Contos do cargueiro) se encaixam na história principal é, no mínimo, genial.

E isso tudo utilizando e amarrando – e bem – conceitos como política mundial dos anos de 1980, teorias de fractais, relatividade, sistemas caóticos, física e viagens temporais. Moore faz parecer simples algo que em mãos menos habilidosas seria muito, muito complexo. Ele conhece os atalhos para construir uma grande história.

O roteirista ainda deixa o leitor com um gosto amargo na boca no final, pois é difícil não se ver obrigado a concordar com o plano de Ozymandias.

Watchmen fez com que personagens que só apareceram nesta aventura se tornassem ícones do gênero. E pensar que essa honra era para ter sido dos super-heróis da Charlton Comics. Que dureza! Ainda mais hoje, ao ver o destino atual do Capitão Átomo/Monarca, do Besouro Azul, do desaparecido Pacificador etc.

E o que dizer do tamanho da influência de Watchmen? Basta lembrar que, sem ela, certamente não teríamos visto obras como Authority, Planetary, Supremos, Guerra Civil e tantas outras. A revista Set enumerou recentemente dezenas de trabalhos que beberam desta fonte, inclusive no cinema. Ou alguém duvida de onde saiu a “inspiração”, por exemplo, para os super-heróis terem sido obrigados a se aposentar no desenho Os Incríveis?

E tudo isso sendo, ao mesmo tempo, uma fantástica homenagem e uma crítica feroz ao gênero super-heróis.

Na arte, Dave Gibbons conseguiu algo que para muitos seria impossível: construiu páginas que estão no mesmo nível de excelência das palavras de Moore. Não bastasse o traço bonito e a narrativa competentíssima, a simetria que existe entre várias dessas páginas (algo que o leitor precisa de uma atenção especial para observar) é uma coisa para se apreciar inúmeras vezes.

Note, por exemplo, a primeira e a última páginas da história. Uma é uma imagem espelhada da outra – até nos enquadramentos opostos. E com a nova colorização de John Higgins, o visual ficou ainda mais arrebatador.

Definitivamente, não é à toa que a obra coleciona prêmios mundo afora até hoje.

A revista Time elegeu Watchmen uma das 100 melhores obras em língua inglesa de todos os tempos.

Mais de vinte anos após seu lançamento, Watchmen permanece atualíssimo. Mesmo tendo Richard Nixon na presidência dos Estados Unidos e com o clima da Guerra Fria no ar o tempo inteiro. Nada atrapalha.

É indescritível a sensação de reler Watchmen várias vezes e sempre deparar com uma sensação nova. Mais: mesmo sabendo o final, a leitura continua sendo empolgante.

Por isso mesmo, é uma obra que deve ser republicada sempre que possível, para que novos leitores (não apenas de quadrinhos) tenham a oportunidade de conhecer essa preciosidade da arte sequencial.

Depois de ter sido publicada duas vezes pela Abril e uma pela Via Lettera, a Panini a relançou num único volume em capa dura e papel couché, equivalente ao norte-americanoAbsolute Watchmen, e em duas edições em papel Pisa Brite e preço mais em conta.

Graficamente, o acabamento do álbum é impecável, o melhor que Watchmen teve até hoje no Brasil. Com direito a mais de 20 páginas de extras como textos de Alan Moore (sobre a obra e a criação dos personagens) e Dave Gibbons, sketches, capas pelo mundo e até um trecho de um roteiro original.

Mas há um problema: a revisão – trabalho que melhorou sobremaneira nos últimos meses na Panini, mas, estranhamente, falha numa edição que vem com o rótulo “definitiva” na capa.

Erros, claro, acontecem e muitos devem ser relevados, mas não quando vários são apanháveis com uma rápida passada de corretor ortográfico. Confira abaixo alguns deles.

p. 85 – “não ganho ficar pra ter que ficar lidando com monstros” (a frase está sem sentido; talvez fosse “não ganho pra ter que ficar lidando com monstros”);

p. 92 – “davidstown” e “deus” foram grafadas com as iniciais em letras minúsculas, o que é corrigido adiante;

p. 95 – “davidstown” novamente é grafada com a inicial em letra minúscula;

p. 96 – “…vário cadáveres haviam se inflados”;

p. 104 – “Todos os caso”;

p. 105 – “…esse otimismo durou todas os anos de 40”;

p. 106 – “depois de muita deliberação, conclui” (o correto, no contexto, é concluí);

p. 113 – “nossa carinho”;

p. 138 – “…são derramadas na buscas da arma”;

p. 139 – “…parece eminentemente desejável” (o certo é “iminentemente”);

p. 172 – “…tanto que termina-la” (sem acento em terminá-la);

p. 173 – “…cuidou de excelente edições”;

p. 258 – “…o Natal chegou mais cego” (seria “cedo”);

p. 318 – “Quando pagaram pra você…” (o certo é “quanto”);

p. 354 – “Antigüidade” (“Antiguidade” é o correto, mesmo antes da reforma ortográfica que eliminou o trema);

p. 356 – Samaracanda (o correto é Samarcanda, uma cidade do Uzbequistão);

p. 366 – “…aforma imensa” (faltou espaço em “a forma”);

p. 375 – “…falando com um super-herói aposentando” (aposentado);

p. 412 – “…dizer coisa ruins”.

Além disso, há um uso equivocado e constante de “onde” em vez de “no qual” ou “em que”. E aconteceu ainda um erro de informação: na página 354, Ozymandias cita que Alexandre, o Grande, morreu aos 31 anos. Já na 356, diz que a morte foi aos 33 anos. A correta é a segunda.

Como a obra foi impressa ainda sem as mudanças da revisão ortográfica, a editora – que já rodou o álbum novamente em virtude das boas vendas – tem uma boa justificativa para realizar uma revisão mais apurada e arrumar esses equívocos. Watchmen merece.

Evidentemente, Watchmen é uma obra digna da nota máxima. No entanto, como esta resenha é sobre a edição em si, e não apenas a história, essa série de descuidos causou algo inimaginável para este resenhista: tirar meio ponto da avaliação.

Classificação

4,5

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