Wilson

Por Carol Almeida
Data: 18 fevereiro, 2011

WilsonEditora: Drawn and Quaterly – Edição especial

Autor: Daniel Clowes (texto e arte).

Preço: US$ 21.95

Número de páginas: 80

Data de lançamento: Abril de 2010

Sinopse

Wilson se apresenta como um cara que curte gente, um sujeito solidário, um ser integrado na grande “família humana”. E ainda bem que ele começa esta história com uma mentira deslavada, porque, de outro jeito, o leitor não se entregaria tão fácil à rabugice e babaquice desse novo e genial personagem de Daniel Clowes, um homem que ama seu cão e detesta quase todo o resto do mundo.

Mas… será que o protagonista é Wilson ou o próprio Clowes? Eis o mistério…

Fato é que, criador ou criatura, este é um álbum de quadrinhos sobre o envelhecimento – sem o pressuposto da maturidade que deveria vir de bônus – de um homem que, de fato, é pouco solidário com o mundo e bastante solitário dentro dele.

Em seu momento de virada, Wilson recebe uma ligação que o pai está morrendo. Isso o fará reencontrar um certo sentido familiar que, acredita ele, ainda lhe resta na entrelinha de alguma de suas piadas infames.

Positivo/Negativo

Nas premissas do status social norte-americano, o mundo é dividido em dois blocos de gente: os vencedores e os perdedores. Aos primeiros, as batatas, o cinema, a TV, as capas de revista e, se possível, as de super-heróis também. Aos segundos, bem, todos conhecem a história.

De outro modo, não se estaria aqui, lendo textos sobre quadrinhos, arte e entretenimento tão antigos quanto a ideia de que os mesmos quadrinhos são coisa de, vejamos, perdedores.

Assim ou assado, mesmo sem estar nas capas de revistas ou editoriais de moda, essa vastíssima e majoritária camada da população que ficou de fora do holofote tem, sim, uma ficção para chamar de sua. Nesse prolífico campo dos personagens que nascem, sobrevivem e morrem sem seus 15 minutos de fama, o grande mestre se chama Daniel Clowes.

E agora, Clowes tem um novo perdedor metido à besta para acalentar e divertir o leitor: o desagradável e solitário Wilson, bem menos sociável que a famosa bola de vôlei.

O mais recente livro do homem que expôs os desvios morais de uma sociedade transgênica em Como uma luva de veludo moldada em ferro e mostrou o espelho de uma adolescência assustadoramente entediante e complexa com Ghost World (inexplicavelmente nunca publicado por uma editora nacional) vem agora acompanhado por esse sujeito pouco simpático, estatura mediana, vida mediana e ambições medianas.

O que se sobressai nele é esse irritante senso de (mau) humor que, quanto mais desagrada os demais personagens do livro, mais apaixona quem está externo a ele, o leitor. Wilson pode ser, quem sabe, um irmão bastardo do pedante Boris Yellnikoff, criado por Woody Allen no recente Tudo pode dar certo, ou mesmo um primo de segundo grau do próprio Woody Allen. Há chances.

Porque se esse sujeito é completamente desapaixonante, sua insuportável trivialidade é nada menos que genial e conquistadora. Wilson, que será publicado no Brasil (a Quadrinhos na Cia. o prometeu para este ano), tem um pouquinho aqui e ali de todos nós. E não é todo artista que sabe catar esses pedaços de cotidiano que a gente sempre deixa cair pela rua.

Clowes não apenas é o “Sábio da Caverna” na arte dessa terapia de fila de supermercado (algo que lembra um pouco a rabugice do saudoso Harvey Pekar), como faz isso com uma elegante e cruel ironia diante do comum. Em Wilson, ele repete algo que já havia feito em Ice Haven, outro compêndio social sobre o “American Way of Caipirice“, e transforma tudo em uma série de grandes tirinhas temáticas de página inteira, divididas por títulos que podem compreender um estado de espírito, um lugar ou apenas uma vontade de mandar todo mundo catar coquinho.

“Voz de Cachorro”, “Vampiro”, “Caminho na Natureza”, “Dinheiro”, “Shopping Center”, “Filha da P***”. Os tópicos são bastante diversos e, a princípio, independentes uns dos outros. Funcionam como episódios de um seriado que podem ser vistos separados, mas cujo sentido vai se costurando de forma linear.

O ir além de Clowes é fazer desse formato uma maneira de jogar uma camada de morango em uma torta de carne. Porque não apenas cria episódios temáticos na vida de seu personagem, como quebra qualquer possibilidade de se levar Wilson a sério (algo que o personagem não gostaria que acontecesse) quando desenha cada página com traços distintos, ora em seu mais conhecido estilo simétrico e vertical com régua na mão; ora cartunizado, infantilizando à canastrice e, portanto, salientando essa distância entre a ideia do personagem e de seu autor.

Sim, Clowes tem uma cadela bem parecida com a de Wilson. Mas, para desgosto de seu personagem, ele é um típico cara “vivendo o sonho” da família/propriedade privada. Em outras palavras, o autor é casado e tem filho. O personagem foi abandonado pela mulher e, talvez, tenha uma filha perdida no mundo.

A ausência de afeto parece dar a Wilson a legitimidade de julgar as pessoas. O homem que passa quase o livro inteiro fingindo inícios de conversas para dar sequência a um sem-fim de monólogos é, na verdade, aquele vizinho que você nunca se interessou em conhecer. Sujeito que, nas páginas de uma ficção, espelha em reflexo convexo do nosso próprio julgamento de tudo e de todos. E não deixa de ser constrangedoramente engraçado ver o Wilson que há dentro de cada um de nós.

Numa história que acompanha o envelhecimento desse sujeito e sua relação com a ideia de perda e da morte, é importante notar que Clowes usa de uma piada sobre as histórias em quadrinhos para ressaltar os preconceitos e as ironias que os Estados Unidos fazem de seus perdedores.

Quando o taxista pergunta a Wilson se ele assistiu a Batman – O cavaleiro das trevas, a resposta é: “Esse não é um filme de criança?” “De jeito nenhum. Tem toda essa coisa sobre terrorismo e Guantánamo e, tipo, toda a política…”

Wilson interrompe a crítica cinematográfica do motorista com uma gargalhada. Claro, satiriza nosso protagonista, aí está a América dos filmes que fazem as pessoas “estúpidas, desinteressantes ou indigentes” criarem um “falso sentido de importância”, de que “moram no melhor país, vão viver para sempre no céu e, no topo de tudo, acreditam que têm superpoderes!”.

E o leitor (assim como esta resenhista) faz dele a conclusão moral do personagem: “Ha, ha, ha”.

Classificação

5,0

Carol Almeida é jornalista do portal Terra

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