Yeshuah Absoluto

Por Audaci Junior
Data: 19 agosto, 2016

Yeshuah AbsolutoEditora: Devir – Edição especial

Autores: Laudo Ferreira (roteiro e desenhos) e Omar Viñole (arte-final).

Preço: R$ 140,00

Número de páginas: 544

Data de lançamento: Março de 2016

Sinopse

A história de Jesus Cristo, o filho de Deus, do seu nascimento em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, até a sua morte crucificado por ameaçar a ordem social por meio de mensagens de amor ao próximo.

Na primeira parte, o leitor acompanha Jesus e seu irmão como seguidores do profeta João Batista. No meio do Jordão, entre tantos fiéis, eles conhecem Maria Madalena, uma mulher independente e desejosa de conhecer novas verdades espirituais, virtudes que acreditava ter encontrado no Batista, até conhecer o misterioso Jesus.

Já na segunda parte, são mostradas a formação dos seguidores de Cristo, a entrada de Madalena no grupo e como reagem os altos sacerdotes diante do aparecimento de um novo e carismático pregador, logo após a morte de João Batista.

A terceira e última parte aborda os desdobramentos políticos e religiosos que os ensinamentos e curas do novo profeta provocam entre judeus e romanos. Muitas vezes incompreendido pela própria família, pelos sacerdotes, por parte do povo e até mesmo por seus discípulos, Jesus procura viver de acordo com suas crenças até o fim.

Positivo/Negativo

Tanto quanto os livros que compõem a Bíblia, mais especificamente o Novo Testamento, Jesus Cristo é um personagem passível de várias interpretações na literatura, teatro, artes visuais, cinema e quadrinhos produzidos no mundo ocidental.

Dentre os exemplos, a visão “maldita” do grego Níkos Kazantzákis (1883-1957) no livro A Última tentação de Cristo (1951) é completamente afastada dos evangelhos: o protagonista seguia os passos do pai na carpintaria para fabricar cruzes para os romanos, além de colocá-lo como uma figura sexualizada. Apesar de explorar o seu lado humano, tanto a obra quanto o filme homônimo, de Martin Scorsese (feito em 1988), foram “condenados” pela Igreja Católica.

Ainda na Sétima Arte, tanto o lado mais canônico representado em longas-metragens como Rei dos reis (1961), de Nicholas Ray (1911-1979), quanto a visão marxista de um Jesus revolucionário à frente da sua época de O Evangelho segundo São Mateus (1964), por Pier Paolo Pasolini (1922-1975), bordam diferentes perspectivas da mesma história.

Baseado nos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João e em estudos de textos apócrifos e históricos, Yeshuah (“salvação”, em hebraico) não foge à regra e coloca a visão pessoal do quadrinhista Laudo Ferreira nas quase 500 páginas do álbum.

No posfácio assinado pelo autor, ele frisa que a história de Jesus não foi alterada ou questionada, tampouco desmistificada ou satirizada. Partiu simplesmente de um ato de crença pessoal.

Com os nomes, locais e termos traduzidos para o hebraico (Miriam se refere a Maria, Jesus é Yeshu, Adonai quer dizer Deus e assim por diante), a passagem do filho de Deus pela Terra é contada por uma discípula que foi deixada de lado e engolida pela História com “H” maiúsculo, Maria Madalena (Miriam Magdalit), cujo papel aqui não é meramente o da “prostituta arrependida”.

Após presenciar o que aconteceu com Jesus no momento do batismo, Maria é a primeira a perceber a importância espiritual daquele homem vindo de Nazaré. Uma mulher independente e segura de si, mas que é alvo de preconceitos do seu tempo, apoiado totalmente no patriarcado.

Ela se mostra um elo importante para ser mostrado o lado humano de Cristo na sua totalidade. É com Madalena que Jesus divide suas inquietações e dúvidas.

Mesmo enfatizando a perspectiva mais humana e histórica de Jesus, Laudo Ferreira não abandona as interpretações míticas/místicas e muito menos a espiritualidade contida nos seus ensinamentos, seus milagres e a propagação de suas mensagens de amor e fé.

O autor mostra outros lados do prisma antropológico sem receios ou pudores e faz detalhadamente a reconstituição do nascimento de Jesus sem floreios, mostrando a criança ainda ligada a mãe pelo cordão umbilical e posteriormente se alimentando do seu seio.

Essa passagem, inclusive, lembra outra obra literária “maldita”, O Evangelho segundo Jesus Cristo, do português José Saramago (1922-2010), um romance completamente livre e uma interpretação extremamente peculiar e radical das escrituras, com conceitos bem distantes do que o quadrinhista apresenta em Yeshuah.

Justificada na existência dos irmãos consanguíneos de Jesus, a obra ignora também o dogma católico de que Maria de Nazaré teria sido virgem até a sua morte.

Outra figura “bidimensionalizada” pela História é Judas Iscariotes (Yehudah), o seguidor que se revelou o grande traidor de Cristo. A HQ serve de “advogado do diabo” não para absolvê-lo, mas para colocá-lo como um joguete de uma conspiração maior. As nuances políticas na narrativa são bastante interpretadas no álbum.

Cheia de detalhes, a arte estilizada e com um pé no cartunesco de Laudo é bem marcada pelo nanquim de Omar Viñole. As caracterizações dos personagens fogem da concepção popular e romanceada. Jesus e sua mãe, por exemplo, bebem das feições dos atores de O Evangelho segundo São Mateus, do Pasolini.

Antes da edição definitiva, a Devir havia publicado a obra como uma série em três volumes: Yeshuah – Assim em cima assim em baixo (2009), Yeshuah – O círculo interno o círculo externo (2010) e Yeshuah – Onde tudo está (2014).

O pomposo calhamaço possui capa dura com detalhes em verniz, marcador de página de tecido, papel off-set com boa gramatura e impressão caprichada, além de vários extras, como esboços, estudos, fotos, referências visuais e bibliográficas, glossário dos termos em hebraico, biografias dos autores e um extenso prefácio da pesquisadora e filósofa Júlia Bárány Yaari.

Apesar de corrigirem os vários erros de revisão dos volumes anteriores, há ainda um ou outro descuido. Editorialmente, o que chama a atenção é a falta de “respiro” das margens do livro (que do formato 16,5 x 24 cm passou para 19 x 26 cm). O problema chega a incomodar a leitura algumas vezes, inclusive mesclando a numeração das páginas com a arte da obra. Além disso, há textos que escaparam dos balões.

Independentemente de polêmicas e da “verdade absoluta” em cima de um personagem tão controverso e fascinante, Laudo Ferreira e Omar Viñole apresentam em Yeshuah Absoluto um filho de Deus como uma pessoa carregada de virtudes e defeitos que poderia ser qualquer um ser humano, mas nos deixou uma mensagem semeada até hoje, mais de dois mil anos depois: o amor.

Classificação

4,5

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• Outros artigos escritos por

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  • Pedro

    papel offset !? e ficou bom ? Achei estranho pelo valor do álbum vir com papel offset.

    • Presidente Exumador

      Acho mais massa o offset, o couchê com aquele brilho acho q mais atrapalha q ajuda