Zé Carioca – 70 Anos – Volume 1

Por Renato Félix
Data: 18 janeiro, 2013

Zé Carioca - 70 Anos - Volume 01Editora: Editora Abril – Edição especial

Autores: Hubie Karp, Carl Buettner, Chaise Craig, Walt Kelly, Waldyr Igayara de Souza e Giampaolo Barosso (roteiros) e Bob Grant, Paul Murry, Carl Buettner, Walt Kellym Luis Destuet, Jorge Kato, Al Hubbard, Izomar C. Guilherme, Giovan Batista Carpi e Waldyr Igayara de Souza (arte).

Preço: R$ 16,00

Número de páginas: 304

Data de lançamento: Outubro de 2012

Sinopse

Compilação de histórias do Zé Carioca, de seu surgimento, nos anos 1940, até os anos 1960.

Positivo/Negativo

Quase todo mundo sabe que o Zé Carioca foi criado pelos estúdios Disney para a animação Alô, amigos!, de 1942 – uma reunião de histórias sobre a América do Sul, com a qual a Disney colaborava com a “política de boa vizinhança” do governo norte-americano com seus vizinhos do sul, buscando apoio na Segunda Guerra Mundial.

O que pouca gente sabe é que, tendo o filme estreado nos Estados Unidos só em 6 de fevereiro de 1943 (sua primeira exibição foi no Rio de Janeiro, em 24 de agosto de 1942), a primeira aparição do papagaio por lá foi mesmo nas histórias em quadrinhos – mais precisamente em tiras dominicais nos jornais, em 11 de outubro de 1942.

Esta é a primeira grande sacada deste especial com o qual a Abril comemora os 70 anos do Zé: o resgate dessas tiras clássicas, publicadas pela primeira vez integralmente (segundo ostenta a edição, no mundo). São 104 páginas semanais, que ocupam 146 páginas desta revista.

Porém, os editores resolveram reorganizar as tiras em seis arcos de histórias, readaptando a disposição original dos quadros para as páginas do formatinho. O que levou a uma largura irregular de cada linha de quadrinhos e a “promoção” de um quadro para um tamanho bem maior, como a introdução de cada um dos seis arcos (o formato de abertura tradicional de uma HQ em um gibi).

Um motivo pode ser que, na disposição original, o tamanho dos quadros ficaria muito pequeno. E outro pode ser deixar a leitura em um modelo mais familiar para o leitor moderno das HQs Disney no Brasil. O ponto contra é que os momentos de clímax de cada tira se perdem.

É evidente que cada tira foi pensada e criada para ser lida separadamente, mesmo fazendo parte de uma história maior. Editá-las em um formato gibi, no qual o final de cada tira e o início da seguinte não estão determinados claramente cria saltos incomuns na narrativa.

Mas continua sendo um resgate importante, mesmo com este senão. As histórias, por sua vez, mostram o malandro morando em um lixão e num frenesi em que usa sua lábia para levar vantagem em uma situação e se livrar de enrascadas, uma levando à outra quase sem descanso.

A edição prossegue com HQs publicadas em gibis norte-americanos dos anos 1940, com destaque para uma livre adaptação do longa animado Você já foi à Bahia?, escrita e desenhada por Walt Kelly. O título nacional da animação puxa a brasa para a nossa sardinha, já que o original é The Three Caballeros.

Resultado: há pouquíssimo de Bahia na HQ. Ganham adaptação os episódios com o pinguim Paulinho, que não se dava bem com o frio e queria morar nos trópicos, com Gauchito, que doma um burrico voador, e com as piñatas de Natal no México.

O trecho em que Aurora Miranda canta Os quindins de Iaiá, numa combinação de atores com as animações de Zé Carioca e Donald, ficou de fora – e, na HQ, a Bahia é citada só de passagem.

Foi a partir dos anos 1950 que as HQs do Zé Carioca começaram a ser produzidas no Brasil. Primeiro, pelo argentino Luís Destuet, que ilustrou muitas das primeiras capas de O Pato Donald. Nos anos 1960, artistas brasileiros finalmente começaram a escrever e desenhar o personagem com regularidade.

No entanto, uma coisa que acontecia muito era a maquiagem de histórias norte-americanas de outros personagens Disney: tramas com Mickey e Donald eram em parte redesenhadas no Brasil para que virassem do Zé, um expediente hoje impensável. Mas é um ponto para a edição retratar esse período histórico, como em A confusão com o canário Caubí, de 1962, na qual Zé e Rosinha são desenhados sobre, originalmente, Mickey e Minnie.

Mas foi nos anos 1960 que Zé Carioca começou a ganhar contornos cada vez mais brasileiros, de fato. E aí vale destacar Um festival embananado, de 1968, que aborda os festivais da canção que consagraram cantores e compositores e mexiam com os brios dos espectadores – com o adicional do momento político em que aconteciam, os primeiros anos da ditadura militar.

O segundo número reserva a fase mais conhecida pelos leitores atuais: dos anos 1970 aos anos 2000, incluindo duas HQs inéditas do papagaio, mais de dez anos após o fim das atividades dos estúdios Disney da Abril. Neste primeiro, o contato com essas leituras iniciais do Zé Carioca são, por si só, leitura obrigatória – para a qual contribuem muito os textos explicativos de cada fase por Marcelo Alencar, Fernando Ventura e Celbi Vagner Pegoraro.

Classificação

4,0

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