Zenith – Volume 1

Por Audaci Junior
Data: 9 março, 2018

Zenith – Volume 1Editora: Mythos – Série em dois volumes

Autores: Grant Morrison (roteiro) e Steve Yeowell (arte) – Originalmente em 2000 AD Progs # 535 a #550, # 558, # 559, # 589 a # 606 e 2000 AD Winter Special 1988 (Tradução de Érico Assis).

Preço: R$ 74,90

Número de páginas: 208

Data de lançamento: Abril de 2017

Sinopse

Zenith, um popstar egoísta, é o único herói em atividade depois da morte dos combatentes da Segunda Guerra e da dissolução da superequipe Nuvem 9, dos anos 1960.

Infelizmente para o mundo, deuses sombrios de outra dimensão querem tomar o planeta e somente Zenith e um punhado de heróis aposentados da geração paz e amor têm condições de derrotá-los.

O geneticista responsável pela criação dos superbritânicos e um milionário megalomaníaco se aliam num plano nefasto. Zenith precisará impedir a destruição de Londres e, ao mesmo tempo, confrontar seu passado.

Positivo/Negativo

Grant Morrison sempre quis ser um popstar. No começo dos anos 1980, caía na estrada com sua guitarra a tiracolo para as turnês da banda The Mixers. Outro fato é que o roteirista escocês nunca escondeu nas entrevistas – mesmo envergonhado – que ele mesmo era seu assunto predileto.

Dessas duas junções, chega-se a Zenith, seu super-herói roqueiro que se preocupa mais com sua agenda de shows do que em salvar o mundo. Na Amazing Heroes # 176 (fevereiro de 1990), o autor admitiu roubar riquezas e viver na luxúria, caso tivesse realmente poderes.

Nesse quebra-cabeças biográfico, encaixam-se temas como espelhos, a própria presença em títulos como Homem-Animal e os alter egos de celulose, como o anarquista King Mob, de Os Invisíveis, anos mais tarde.

Lançada originalmente na revista 2000 AD, a “casa” do Juiz Dredd, neste primeiro volume são apresentadas as duas primeiras fases (de quatro) da série. O título chegou a ser conhecido como “O Miracleman de Morrison”, já que na época Alan Moore vinha revitalizando e desconstruindo o gênero. Inclusive, o próprio Morrison definiu esta HQ também como uma “resposta” a Watchmen.

Quando foi lançado na Inglaterra o prólogo de Zenith com capa do Steve Dillon (1962-2016), no qual dois superseres ostentam os símbolos do nazismo e da rainha britânica, em agosto de 1987, a penúltima edição de Watchmen estava saindo nos Estados Unidos.

Indiscutivelmente, a obra de Moore e Gibbons exerceu influência junto às lembranças e ideologias de Morrison. Porém, lendo Zenith, nota-se um clima bem mais “leve” e menos hermético. Uma espécie de meio-termo.

Com uma média de cinco páginas por capítulo – sistema comumente adotado nas HQs inglesas –, há conceitos e elementos reutilizados por Morrison, como também outros que seriam adotados e trabalhados posteriormente.

Um exemplo é a utilização da bomba nuclear. Na Berlim da Segunda Guerra Mundial, durante o confronto definitivo entre Maximan e Masterman, respectivamente os super-homens da Inglaterra e da Alemanha, um artefato nuclear norte-americano é lançado na cidade e não em Hiroshima, mudando os rumos da História.

Vale lembrar que Dr. Manhattan, de Watchmen, é criado a partir de um acidente de experimentos da energia nuclear (uma sinalização de Moore às origens de milhares de super-heróis em cima desse conceito). O ser azulado altera todo o contexto social, político e cultural da “realidade”.

Por outro lado, também deve-se ressaltar o quanto a ameaça nuclear estava presente na vida de Grant Morrison, já que Glasgow, cidade natal do roteirista, mantinha silos de mísseis termonucleares britânicos.

Veterano da Segunda Guerra, o pai de Morrison participava de passeatas contra armas nucleares nos anos 1960, chegando a ser preso por isso. Muito da herança do seu ativismo antibelicista pôde ser visto posteriormente em Hellblazer, Homem-Animal e em Zenith.

Outros ecos de Watchmen presentes na série são as características de alguns personagens, vide o grupo Nuvem 9. Seus membros estão aposentados no tempo presente da trama, assim como os Minutemen de Moore. Um deles, o Dragão Rubro, ostenta uma barriga protuberante, igualmente como o segundo Coruja, Dan Dreiberg.

Se O tigre, famoso poema do inglês William Blake (1757-1827), é usado em ambas as obras, a fixação de Morrison por espelhos é refletida em elementos de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (1832-1898). Em Zenith, uma personagem presa num espelho chega a desaparecer aos poucos, como o Gato de Cheshire, deixando apenas o seu sorriso no ar.

Ainda respeitando a máxima do químico francês Lavoisier (1743-1794), na qual “nada se cria, tudo se transforma”, o escritor reverencia H.P. Lovecraft (1890-1937) inserindo entidades hiperdimensionais invocadas em rituais ocultistas nazistas. O conceito de Multiângulos seria usado também quando Morrison assumiu a LJA.

Outros conceitos são originalmente inventados pelo próprio roteirista, como o ciclo biorrítmico – uma escala cronológica de poder do Zenith.

Explorando bem as reviravoltas e os confrontos na primeira fase, a segunda deixa de lado o tom irresponsável de “se beber, não voe” para se ancorar nas respostas sobre o desaparecimento dos pais do protagonista e em experimentos do governo para se tornarem armas sobre-humanas.

Além do cinismo do personagem principal, o roteiro alfineta um desafeto da maioria dos escritores da época (incluindo Moore), a então Primeira-Ministra Margaret Thatcher (1925-2013). Assim como Dr. Manhattan e o presidente Richard Nixon (1913-1994), o super-herói e ex-hippie Mandala responde ao governo britânico, mais especificamente ao partido conservador “com foco no futuro”.

Em determinado momento, a própria Thatcher insinua o excepcional político a manipular mentalmente Ted Heath (1916-2005), ex-Primeiro-Ministro a quem a “Dama de Ferro” sempre dirigiu duras críticas e nunca aceitou um cargo no seu gabinete.

A arte de Steve Yeowell, parceiro recorrente de Morrison em séries como Os Invisíveis e Sebastian O., é bem mais detalhada do que nas obras supracitadas. Interessante acompanhar a evolução do seu estilo entre as fases.

Na segunda metade deste volume, o leitor perceberá que o alto contraste do preto e branco permanece, mas de forma bem mais estilizada e com personalizados “cacoetes” gráficos nas expressões.

Essas duas fases chegaram a ser publicadas no Brasil pela extinta Pandora Books, entre 2000 e 2003. A edição da Mythos tem capa dura, formato 18,7 x 25,9 cm, papel couché de boa gramatura e impressão, além de extras como biografia dos autores, galeria de capas originais e estudos de personagens por Yeowell.

Abandonando discussões enfadonhas de cópias ou “respostas” a Miracleman ou Watchmen, o próprio Morrison não se leva a sério. No livro mais-do-que-uma-autopromoção Superdeuses (lançado aqui pela Pensamento em 2012), ele definiu Zenith como um “Alan Moore remixado por Stock Aitken Waterman (SAW)”, trio de música pop britânica que fez sucesso nos anos 1980. Em outras palavras, uma boa e despretensiosa diversão.

Classificação

4,0

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  • Gabriel

    Ótima resenha. Sem dúvida é uma ótima hq. Bons tempos que o Morrison era inspiradíssimo escrevendo também Homem Animal, Patrulha do Destino e Asilo Arkham.