Zephyd – Um Homem em Busca da Luz

Por Alexandre Callari
Data: 18 fevereiro, 2011

Zephyd - Um Homem em Busca da LuzEditora: Ebal – Edição especial

Autores: Cidoncha (roteiro), Azpiri (desenho) e Esteban Maroto (capa).

Preço: não consta da capa

Número de páginas: 48

Data de lançamento: 1980

Sinopse

Zephyd é um homem que chega ao mundo adulto, nascido de uma pedra. A era e o local são indeterminados, porém a civilização ainda está em seu estado de barbárie e ele, como uma criança recém-nascida e inocente, procura compreender os caminhos dos homens.

Nesse caminho, envolvendo-se nas mais diversas aventuras, que culminam em uma luta contra o seu lado negro – tudo para chegar à cidade prometida de Agarthy, o reino da luz.

Positivo/Negativo

No início dos anos 80, a Ebal começou a publicar álbuns de luxo (para os padrões da época) apresentando ao público material europeu. Adiantando-se em praticamente uma década à febre que tomaria as bancas brasileiras tempos depois, a editora do papa dos quadrinhos no Brasil, Adolfo Aizen, acertou em cheio em títulos como WolffKorsar e este Zephyd, que realmente merece a atenção do leitor.

Não há uma única linha escrita nesta HQ que não seja uma metáfora com o comportamento social, e individual (em nível emocional e/ou psicológico), ou que não critique os sistemas políticos e religiosos vigentes. Tudo de forma tremendamente sutil, sem tornar o texto denso ou pedante.

Muito pelo contrário. A edição pode ser lida em pouco mais de minutos e o leitor corre o risco de achar que trata-se apenas de mais uma aventura do gênero espada e feitiçaria esquecível.

Mas, como toda leitura de qualidade, Zephyd – Um homem em busca da luz é constituído de camadas, e cabe ao leitor descascá-las e penetrar em seu núcleo.

O guerreiro Zephyd nasce da pedra. Na verdade, do coração do próprio planeta, e chega inocente ao mundo, sem conhecer os males que fazem parte da sociedade, como corrupção, ira, inveja e luxúria. No entanto, sua alma não é pura – ou ao menos é o que lhe diz o misterioso velho que o recepciona quando ele nasce.

O protagonista só poderá ser puro após lutar consigo mesmo e vencer. O velho vai para dentro da caverna, mas antes deixa suas roupas com o guerreiro – e presenteando o leitor com a certeza de que a vida (assim como o universo) é cíclica.

Qualquer alusão ao clássico “do pó ao pó” não é mera coincidência e a insanidade de toda nossa estrutura social fica clara logo nas primeiras páginas da história.

No melhor estilo Machado de Assis, Zephyd liberta um escravo, apenas para ser escravizado por ele em seguida. Conhece a força da idolatria, a intransigência e a estupidez dos homens do clero e seus seguidores. A sucessão de fatos o faz perceber a existência da violência no mundo – e, suspeitando que não há como (ou por que) evitá-la, se entrega a ela.

“Se este mundo é de violência, Zephyd será mais violento que ninguém”, diz. A emblemática frase mostra que ele compreendeu a natureza humana, sua força motriz, a capacidade predatória que nos é inerente – herança de nossos instintos animais – e que se intensifica sobremaneira pela nossa perniciosa mente.

Zephyd abraça a violência e, por isso, é saudado pelos senhores da Cidade Negra. Contudo, ele não se permite deixar de sonhar com uma realidade melhor. Afinal, não é disso também que são feitos os homens? Dos sonhos?

E é esta busca por redenção que orienta seu comportamento e guia seus passos. Mas nada é tão preto no branco: quando ele finalmente doma sua natureza e ganha o controle sobre o mundo (o interno e o externo), resta a dúvida: “De que me servirá o domínio sobre um mundo que abomino?”.

Todos querem o controle na sociedade: líderes, políticos, pais, gurus, mas a inconveniente verdade subsiste; só existe a ilusão de controle. E o único controle que devemos buscar é vencer a nós mesmos, ser o melhor que podemos ser, não pelos outros, mas nós por apenas.

O guerreiro percebe isso em sua busca e o leitor, emocionado, tem a chance de obter o mesmoinsight.

Zephyd é um quadrinho sensacional, que começa com uma capa pintada pelo espetacular Esteban Maroto – num de seus melhores momentos, concebendo uma mistura singular de selvageria com sensualidade – e culmina num texto ágil, que não deixa sobrar uma só palavra, e em belos desenhos, realçados por cores vibrantes e decupagens inusitadas.

O guerreiro Zephyd se encontra no final da aventura. E se o leitor for sensível o suficiente, pode traçar um paralelo com sua própria vida e se perguntar se ele, também, precisa se achar. Se ele, também, deve ruir as trevas dentro de si, ou se empunhará a espada e dominar o mundo.

A mensagem que fica é individual, o leitor a escolhe, sempre temendo render-se a outra verdade que Zephyd percebe em suas andanças: “E a vida não é a capacidade de tirá-la dos outros?”.

Classificação

5,0

Alexandre Callari é editor do Pipoca e Nanquim

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