Desvendando o Mangá NacionalbrUma análise sociológica de Holy Avenger

Por admin
Data: 14 agosto, 2006

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Ficha Técnica
Título: Desvendando o Mangá Nacional – Reprodução ou Hibridização?
Autor: Amaro Xavier Braga Junior
Orientação: Profa. Dra. Lilia Maria Junqueira
Local: Universidade Federal de Pernambuco – Centro de Filosofia e Ciências Humanas – Departamento de Ciências Sociais – Mestrado em Sociologia
Área de Concentração: Comunicação e Estética Audiovisual
Data: 02/2005

Por Sonia M. Bibe Luyten

Amaro Braga
As histórias em quadrinhos japonesas, os mangás, ultimamente têm sido
destaques em muitas teses nas universidades brasileiras. O Mestrado em
Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco acolheu Amaro
Braga num instigante estudo sobre uma revista que deixou sua marca no
mercado editorial brasileiro, sobrevivendo por 40 números mensais (e mais
dois posteriores, não analisados neste trabalho): Holy Avenger,
da dupla Marcelo Cassaro (texto) e Erica Awano (arte).

O estudo de Amaro Braga teve como foco compreender o papel desempenhado
pela revista, tendo como hipótese se ela representa simplesmente uma reprodução
da cultura japonesa ou, de forma mais complexa, apresenta-se como uma
hibridização entre a cultura brasileira, a japonesa e a americana. Afinal,
como ele mesmo menciona “a troca deste padrão de consumo afeta as representações
culturais e sociais estipuladas até então”.

Holy Avenger
O autor teve e a preocupação de analisar todas as 40 edições, identificando
não só os personagens que compuseram as histórias, mas também aspectos
específicos da linguagem dos quadrinhos, os tipos de requadros utilizados,
as vinhetas, onomatopéias e recursos metalingüísticos.

Amaro Braga, a partir de uma perspectiva sociológica, também tomou como
recurso a semiologia para fornecer subsídios necessários para a análise
da publicação “percebendo seus códigos e linguagens propostas, de maneira
a explicitar sua natureza e sua relação social”.

A presença maciça dos mangás no Ocidente, a partir da década de 1990,
tem gerado algumas indagações a respeito do seu sucesso. Embora o Brasil
já tivesse familiaridade com a cultura japonesa, foi só a partir do sucesso
internacional dos mangás e animês que, não apenas foi levado ao grande
público este universo por meio das traduções, mas também incentivou a
produção de quadrinhos com influência do traço nipônico.

Holy Avenger
O desencadeamento que se seguiu após a febre dos animês na TV brasileira,
como os Cavaleiros do Zodíaco, aproximou principalmente o público
infanto-juvenil, num fenômeno nunca visto em termos de audiência nacional.

A presença de publicações com o traço estilo mangá se fez notar primeiramente
em fanzines e, mais tarde, em publicações com inserção de “material estrangeiro”,
desenvolvendo-se quadrinhos numa variante desta influência.

Dentre as produções de “mangá nacional” houve três exemplos significativos:
Oiran,
Mangá
Tropical
e Holy
Avenger
cada uma com características diferentes.

Enquanto Oiran seguia uma linha fiel ao quadrinhos japonês, o Mangá
Tropical
foi uma produção que se apropriou da estética do desenho
para retratar o país onde foi publicado, no caso o Brasil, com cenários
da região e do cotidiano nacional.

Por que Holy Avenger?

Holy AvengerAmaro
situa Holy Avenger “como uma revista produzida por brasileiros,
desenhada no estilo mangá e com a temática relacionada ao RPG a ter uma
circulação nacional.” Sua escolha como objeto de pesquisa seguiu os motivos
apontados acima, mas para o autor o que interessou como análise foi a
forma como foi feita, isto é, a linguagem utilizada nesta tentativa.

O nome Holy Avenger, como todos os fãs da revista sabem, vem de
uma espada que os personagens da categoria Paladino usam no RPG
Dungeons&dragons; (D&D;).

A revista em si surge de uma proto-história produzida por Marcelo Cassaro,
Rogério Saladino e J.M. Trevisan, com o título homônimo ao da revista,
publicada em 1998, em três capítulos nas edições 44 a 46 da revista Dragão
Brasil
.

Magic: Holy Avenger
A aventura fez grande sucesso e o roteirista Cassaro convidou a “mangaká”
(desenhista de mangá) Erica Awano para desenhar a revista. Tematicamente,
Holy Avenger não escapou de uma aventura típica de RPG quadrinizada
e seguiu em seus 40 números, sem grandes mudanças editoriais, formatação,
diagramação e número de páginas. Alcançou, contudo, cifras surpreendentes
de tiragem: 30 mil exemplares e com vendagens superiores a 50%, conforme
relatam seus editores.

O processo de hibridização de Holy Avenger por meio das onomatopéias
e metalinguagem

O desafio que Amaro Braga se propôs foi demonstrar como se deu o processo
de hibridização por meio de alguns elementos que compõem as HQs,
como a onomatopéia. Ao mensurar o número dos sons típicos dos quadrinhos
que aparecem na revista, o autor verificou que Holy Avenger possui
uma quantidade significativa de ruídos por páginas, como nos mangás. Constatou
que aparecem representações típicas dos comics (como flash,
crash, pow), sonoridades em português (como coça,
rasga, risca), além de outras típicas da produção nipônica.

Holy Avenger
Em sua pesquisa foram constatadas 574 onomatopéias de 159 tipos diferentes,
que Amaro exemplificou detalhadamente no anexo do trabalho, dando uma
média de 1,5 ruídos por página desenhada, num universo de 808 páginas.

Embora as onomatopéias nacionais sejam em menor número, o conjunto com
as americanas e japonesas deu indícios para o autor de constatar um processo
híbrido em sua constituição.

O uso da metalinguagem nos quadrinhos também foi alvo de análise. Nos
mangás este é um recurso utilizado em grau máximo para amplificar a mensagem
dos personagens. Por exemplo, ao chorar, acabam-se literalmente em lágrimas,
esperneiam ou gritam sacudindo os membros, além das caretas típicas que
às vezes ocupam a totalidade do quadrinho.

Holy Avenger
Segundo Amaro, foram usados 704 recursos metalingüísticos durante as 40
edições, assinaladas em nove categorias, como “gotinhas”, “veias saltadas”,
linhas cinéticas para produzir movimentos, entre outras.

Então, a pergunta inevitável é: seria Holy Avenger uma representação
mais que definida da manifestação contemporânea de uma cultura híbrida?
Amaro Braga responde positivamente a esta questão, apoiando-se não só
em sua averiguação, mas também na obra de Nestor Canclini (Culturas
híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade
), que reflete
sobre “o desenvolvimento de uma aliança entre a cultura icônica e a literatura
no momento em que se manifesta por meio de desenhos, literatura, uma arquitetura
cênica e uma poética e a própria mídia”.

Esta seria, portanto, uma visão estrutural da construção das histórias
em quadrinhos como objeto híbrido. A própria proposta primária de Holy
Avenger
ser um “mangá nacional” já demonstra, como diz Amaro, “seu
aspecto híbrido, por querer desenvolver uma linguagem étnica, cultural
e geograficamente determinada, fora dos ambientes propícios a sua criação
– que seria ser japonês e viver no Japão”.

Holy Avenger
A outra questão que emerge do trabalho é o “discurso dos autores da revista
na defesa de sua obra como produto nacional, que valoriza a produção de
quadrinhos brasileiros”, uma vez que a revista ganhou o Troféu HQ Mix
de melhor revista seriada.

Segundo Amaro, apesar de Holy Avenger desenvolver um produto no
qual estariam expressos estes mecanismos de identificação nacional, “não
desmerece seu papel incentivador na produção de quadrinhos brasileiros,
principalmente nas parcas, mas presentes onomatopéias ‘nacionais’, e também
por desbravar o mercado para outras publicações independentes”.

Seu trabalho conclui que o desenvolvimento de Holy Avenger é fruto
de um processo em que se inserem as culturas na contemporaneidade; “é
resultante do fluxo de investida da cultura global em quebrar as barreiras
que dividem as culturas desenvolvendo um espaço de relação híbrido,
cujas diferenças não são aculturadas, mas sim re-significadas em sua própria
diferenciação”.

Destaques
do trabalho

1) Tema atual e original

2) Bibliografia abrangente sobre histórias em quadrinhos, mangás e aquelas
na construção do eixo metodológico do trabalho com as obras selecionadas
de Pierre Bourdieu, Nestor G. Canclini, Stuart Hall, Pierre Bourdieu entre
outras.

3) Inserção de anexos que efetivamente foram utilizados para se
compreender e auxiliar na análise do corpus do trabalho

4) Verificação, mensuração e análise detalhada do conjunto das onomatopéias
em cada uma das 40 edições de Holy Avenger, com a quantidade em
cada uma das publicações.

5) Apresentação das onomatopéias, sua tipologia e classificação.

6) Tabela de distribuição das metalinguagens analisadas no texto nas 40
edições distribuídas em nove categorias.

7) Gráfico das homenagens aos mangás e animês nas páginas de Holy Avenger,
com o número da revista, página, descrição da cena e o mangá e animê que
faz referência.

Amaro Braga é graduado em Antropologia, licenciado em Sociologia, além
de ser também especialista em História da Arte e das Religiões. Atualmente
é pesquisador do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, professor substituto
da Universidade Federal de Pernambuco e Professor da Faculdade
Mauricio de Nassau
. Como desenhista, suas HQs já foram selecionadas
no II, III, IV, V e VI FIHQ-PE, no Salão UNIMEP-SP e no
FIQ-BH. É diretor do CDICHQ – Centro de Desenvolvimento e Incentivo
Cultural às Histórias em Quadrinhos –
e publicou em 2006 o álbum Passos
Perdidos, História Desenhada: A Presença Judaica em Pernambuco
.

Holy AvengerHoly Avenger

Resumo

Este trabalho pretende altercar as recentes produções de quadrinhos nacionais que se identificam como “mangá nacional”, concentrando suas considerações acerca de uma produção de quadrinho independente de maior sucesso editorial até então: a revista Holy Avenger.

A questão a ser desenvolvida na tentativa de identificar se esta produção seria uma reprodução do produto japonês no Brasil com base no sucesso dos mangás no Ocidente, ou fruto de um fenômeno de hibridização cultural, no qual estão inseridas as sociedades na contemporaneidade, no contexto da cultura global.

Por meio de uma análise semiológica a respeito das onomatopéias e das seqüências temporais utilizadas na revista, entre outros componentes, se procurou identificar quais elementos seriam oriundos dos mangás japoneses e quais adviriam de uma estética nacional.

Palavras-chave: Histórias em Quadrinhos; Hibridismo; Identidade; Mangá.

Abstract

This work aims to discuss the recent productions of national comics that identify itself as national manga, concentrating its ponderation concerning in an independent production of comic of biggest publishing success until then: the comic Holy Avenger.

We develop our question in the attempt to identify if this production would be a reproduction of the Japanese product in Brazil, on the basis of the success of Japanese mangas in Occident or fruit of a phenomenon of cultural hybridization where the contemporary societies are inserted, in the context of the global culture through a semiological analysis concerning the onomatopoeia and the used timing sequences in the magazine, among others components, we look for identify which elements would be deriving of Japanese mangás and which would happen from a national aesthetic.

 

Sonia M. Bibe Luyten é
Mestre e Doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações
e Artes da Universidade de São Paulo. Na ECA/USP, em 1972, iniciou de
forma pioneira o curso de Histórias em Quadrinhos. No Brasil foi professora
de diversas faculdades de Comunicação de 1972 a 1984. Lecionou como professora
convidada das Universidades de Estudos Estrangeiros de Osaka, Tóquio e
Tsukuba, no Japão (1984-1987); da Universidade Real de Utrecht, na Holanda
(1993-1996); e na Universidade de Poitiers, na França (1998-1999). É autora
dos livros Comunicação e Aculturação, O que é História em Quadrinhos,
Histórias em Quadrinhos – Leitura Crítica, Mangá, o poder dos quadrinhos
japoneses, Cultura Pop Japonesa: mangá e animê. É colaboradora do Universo
HQ com a coluna especializada Quadrinhos pelo Mundo. Foi orientadora e
membro de Banca em Teses de Mestrado sobre Histórias em Quadrinhos e Mangá
no Brasil e Holanda. Recebeu vários prêmios, como o Troféu Romano Calise,
em Lucca, na Itália, como melhor tese acadêmica na área de Histórias em
Quadrinhos, o HQ Mix (1988, 1991 e 1999), o MangaCom (2000), o Angelo
Agostini (como Mestre dos Quadrinhos Brasileiros, em 2006). Foi professora
e Coordenadora do Mestrado em Comunicação da Universidade Católica de
Santos (2000- 2005) e atualmente é pesquisadora independente.

 

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