Doutor Estranho e uma história em dois tempos

Por Marcelo Naranjo
Data: 19 janeiro, 2018

Em 1973, o então novato P. Craig Russell apresentou ao editor Roy Thomas, da Marvel, uma HQ com o Dr. Estranho.

Thomas gostou, mas o projeto ficou parado por três anos, até que o editor Marv Wolfman decidiu utilizá-lo num anual, publicado pela Marvel em 1976, com o título …and there will be worlds anew!, com argumento e arte de Russell e roteiro de Wolfman.

No estilo da época, os recordatórios em primeira pessoa são recheados de metáforas, no caso, dos dramalhões amorosos afetados pelos problemas de trabalho que só mesmo um mago supremo poderia ter (quanto sofrimento!) – ele então namorava a personagem Clea, seu par romântico nessa fase.

Russell afirmou numa entrevista que o seu estilo de arte quando começou no ramo era influenciado principalmente por Barry Windsor-Smith, Bernie Wrightson, Will Eisner e Bernie Krigstein.

O que chama muita atenção nessa trama é a semelhança com o traço de Windsor-Smith, ainda que Russell já mostrasse a que veio.

Doctor Strange Annual #1 Heróis da TV # 60

A aventura foi publicada no Brasil na revista Heróis da TV # 60 (1984), da Editora Abril, com o título Num Reino Dourado. A feiticeira Lectra vem de um universo chamado Alter Cosmo e rapta Clea, com o intuito de atrair o Dr. Estranho para sua cidade, Allandra.

Depois de um grande embate místico, ela explica que a morte de seu mundo é iminente, e que tem a intenção de casar com o Dr. Estranho para evitar que isso ocorra.

Na verdade, a culpa da derrocada do local é da própria feiticeira, que enfeitiçou a irmã, com quem deveria compartilhar o poder, por ciúmes. O motivo: a paixão em comum pelo mesmo homem.

Por mais que tente, Estranho não consegue evitar a destruição do local e, no final da aventura, agradece por poder voltar ao seu lar e aos braços de sua amada (o rapto era um engodo).

Agora, confira nas imagens abaixo uma página original que localizei no Google e, ao lado, sua adaptação para a versão nacional, na extinta revista Heróis da TV.

Página original Página publicada no Brasil

Não é necessário ter grande fluência do inglês para notar que é praticamente outra história. Mais que isso: neste e em outros trechos, a HQ foi praticamente reescrita pelos editores da época. Mesmo sabendo que o formatinho implicava numa redução de texto, quase podemos chamar isto de “trabalho inédito”.

Com o passar dos anos, Russell decidiu que queria refazer e publicar novamente a HQ, o que finalmente ocorreu em 1996, com o editor Bob Harras. Ele redesenhou e reescreveu a aventura inteira, com o título O que é que está te perturbando, Stephen?, publicada no Brasil em 1997, pela editora Metal Pesado, em formato americano e respeitando mais o texto original.

Como era de se esperar, o passar dos anos fez muito bem ao trabalho do artista, que com seu belo, inconfundível e original estilo recontou em painéis incríveis toda a trama, mantendo a essência, mas melhorando boa parte dela, não só na arte, como no roteiro, menos melodramático e com algumas correções.

Arte de P. Craig Russell na história original Arte de P. Craig Russell na história redesenhada

Dessa vez, Wong é o sequestrado, e novamente Estranho parte em direção a um novo plano, aqui chamado de Ditkopolis. Lá, ele tem que enfrentar a alucinada feiticeira Electra, e se vê em meio a um triângulo amoroso, com o inevitável final trágico.

Curiosamente, Russell afirma que desde a primeira versão tinha vontade de desenhar a cidade literalmente caindo sobre a feiticeira louca, dessa vez tendo seu desejo realizado. E brinca que gostaria de ter realizado um casamento “maluco” entre o mago e a feiticeira. “Talvez na versão de 2016”, escreveu o autor. Para sorte (ou azar) do mago supremo, nada do casamento até o momento – se ele ocorrerá ou não, só perguntando para o Olho de Agamotto.

Marcelo Naranjo sabe que os formatinhos de super-heróis da Editora Abril mudavam e muito as HQs originais. Mas não vai se desfazer deles nem sob as ordens do Eterno Vishanti. Quem esse povo místico pensa que é?

Arte de P. Craig Russell na história original Arte de P. Craig Russell na história redesenhada
Arte de P. Craig Russell na história originalArte de P. Craig Russell na história redesenhada
Página inédita da versão de 1996Doutor Estranho - O que é que está te perturbando, Stephen?

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  • Emerson Penerari

    Excelente texto, Marcelo, e me fez refletir uma coisa: apesar de ter lido as duas versões quando foram lançadas no Brasil, não me lembrava que se tratava da mesma história! Lá vou eu bagunçar a estante atrás dessas obras para reler, amo o trabalho do P. Craig Russell!

  • Yuri

    A versão da Heróis da TV nessas imagens em comparação tá bem melhor que a americana, parece até um texto do Moore; enquanto que a original tem uma introdução bem piegas. :v

  • Henrique Brum

    essa mudança da Abril foi pra encaixar em alguma cronologia diferente, né? o texto original é sobre ele ter perdido poderes de mago supremo e a editora ignorou tudo…publicaram por aqui antes dele ter os poderes reduzidos ou algo do tipo? Parecido com o que aconteceu com Guerras Secretas. Mas bem interessante o artista querer refazer um trabalho antigo. Otima materia!

  • Greg Samsa

    Que doidera essa versão de Heróis da TV. Parece que pegaram os desenhos sem texto e criaram uma história a partir disso. É um execício criativo interessantíssimo, mas comercialmente é um baita desrespeito com o público.

    Quem usou isso como um experimento real foi a dupla Steven T. Seagle e Teddy Kristiansen, no álbum The Red Diary / The Re[a]d Diary. Kristiansen originalmente lançou a HQ na Dinamarca, desenhada e escrita por ele em sua língua nativa. Seagle “leu” e adorou o livro, mas, sem entender uma palavra de dinamarquês, foi criando sua própria interpretação da história. Quando contou para o amigo o que tinha “entendido”, descobriu que era algo completamente diferente do que a HQ de fato dizia. Assim, eles decidiram lançar o trabalho nos EUA como um flipbook, com uma versão de cada lado, sendo a original devidamente traduzida para o inglês. É um livro belíssimo e um excelente experimento narrativo. Vale conferir.

    Isso também me lembrou algo que li sobre o desenho do Batman da década de 60 (ou seria 70?), aquele inspirado na série do Adam West. Não sei se é verdade, mas diziam que os episódios chegavam aqui sem áudio, então criava-se uma história puramente baseada no visual.

  • Brontops

    Não… Eles não falavam português e não havia google translator

    • Adriano Nascimento

      E a Abril pagava os royalties direitinho

  • Adriano Nascimento

    Bom texto. Por coincidência, reli essa história (da Metal Pesado) há 2 semanas, durante a arrumação da coleção (parte estou vendendo). E também tenho xodó total pelos meus formatinhos! :)))
    Aliás, no texto do autor na revista, ele revela que há uma página que ele manteve da versão original. Não consegui identificar, mas olhei apenas a versão mais recente.

  • Pedro Ribeiro

    Excelente matéria! Por favor, escrevam mais! Precisamos resgatar essas histórias clássicas, que foram publicadas em HTV, SAM, CA e HA