E-mail de Lucio Luiz, editor da Marsupial Editora, sobre financiamento coletivo

Por Samir Naliato
Data: 10 maio, 2017

No podcast Confins do Universo 032 – Financiamento coletivo: faça direito!, foi discutido como o crowdfunding tem sido usado por autores independentes para viabilizar publicações de suas obras, e dicas de como tornar seu projeto um sucesso em plataformas que oferecem esse serviço.

Em determinado momento, foi abordado o assunto de editoras usarem financiamento coletivo, um assunto polêmico entre os leitores.

O editor da Marsupial Editora, Lucio Luiz, enviou um e-mail ao Universo HQ abordando a questão e levantando pontos que somam à discussão. Por isso, o reproduzimos, na íntegra, abaixo.

Oi, pessoal.

Esse e-mail é bem grande, então sei que não vão ler no programa, mas eu quis mandar mesmo assim porque, por conhecê-los e saber que vocês gostam de ver opiniões variadas sobre os assuntos que discutem, eu acredito que vocês gostariam de ver esse meu ponto de vista sobre o tema ;)

Acabei de ouvir o programa sobre financiamento coletivo e gostei bastante. Gostei particularmente da Marsupial ter sido citada tantas vezes, com o Uso das Cores, o Pétalas, o Monstro do Coala… ;)))

Mas estou enviando esse e-mail porque observei um tema recorrente nos comentários (tanto no UHQ quanto no Facebook) e que foi colocado por algumas pessoas como “polêmico” (embora eu discorde que seja): a participação de editoras em projetos do Catarse.

Eu já publiquei cinco livros financiados pelos Catarse: um teórico (O Uso das Cores), três quadrinhos (A Vida com Logan, Pétalas – em coedição com a Tambor – e Olhos Insanos) e até um infantil (Angelina e o Dragão Flamejante). Sem contar duas HQs que publiquei depois de terem sido lançadas via financiamento coletivo em novas tiragens já sem relação com o Catarse (O Monstro e Coprólitos).

As experiências foram bem variadas. Teve livro que nós procuramos o autor, teve livro que o autor nos procurou e teve também o caso do Uso das Cores, que, como a Cris falou no programa, eu a estava ajudando desde o início e seria impossível o livro sair sem o Catarse.

E reforço o que ela explicou para uma pessoa nos comentários (não lembro agora se no Facebook ou no UHQ): ela pode não ter deixado claro que a editora estava desde o início, mas isso não foi má fé; foi apenas que, na época, não pareceu a ela tão importante, pois ainda não havia essa percepção que se tem hoje sobre o assunto.

Um parêntese: No A Vida com Logan eu também estava ajudando o Flavio desde o início, mas apenas como amigo “pessoa física”. A ideia de lançá-lo pela Marsupial (tendo sido até mesmo nossa primeira HQ no selo Jupati, que ainda era só uma “vontade” na época) veio depois do projeto ter sido lançado no Catarse.

De qualquer forma, o que eu sinto que acontece muitas vezes é que tem gente que acha que, pelo fatos das editoras serem empresas (dã!), então são “malvadas”, já que “toda empresa é malvada”. Buscam o lucro e querem prejudicar todo mundo (como se fosse impossível buscar o lucro sem prejudicar ninguém e, pior, como se fosse errado buscar lucro mesmo que de forma honesta).

O pior é que as editoras de quadrinhos de pequeno e médio porte, que penam pra publicar seu material nesse mercado complicado que temos aqui, acabam sendo jogadas no mesmo “saco” das editoras de grande porte (e que fique claro que não estou dizendo que esse pensamento é válido no caso delas, apenas estou dizendo que eu não consigo entender que tem gente que vê até as editoras pequenas, que sempre estão presentes nos eventos de quadrinhos e cujos editores convivem com a “comunidade quadrinística”, como “inimigas”).

Por sinal, seria um bom tópico para um programa futuro, hein. Conheço um editor que também é podcaster que toparia participar ;))) mas voltemos ao tema e deixemos a autopropaganda pra depois ;))

No caso dos livros “via Catarse” que eu publiquei, há uma característica fundamental que eu deixei claro para os autores desde o início: A editora não receberia nenhum centavo do Catarse de forma direta.

Isso significa que todo o dinheiro do Catarse seria usado para o próprio autor e, no caso das impressões, esse dinheiro bancaria apenas a parte destinada aos colaboradores e à quantidade que o próprio autor eventualmente quisesse para vender diretamente nos eventos, sem a editora ganhar nada com isso. Os livros que foram colocados à venda nas livrarias e comic shops foram bancados pela editora. E os autores ganham sua porcentagem de direitos autorais normalmente.

Claro que quem conhece como funciona o orçamento das gráficas sabe que há um benefício indireto, pois quanto maior a tiragem, menor o custo unitário. Isso é bastante positivo, claro. Mas, citando o livro da Cris novamente como exemplo, ele esgotou a primeira tiragem e precisou de uma reimpressão, que foi bancada integralmente pela editora em uma tiragem menor que a original (e, consequentemente, de custo unitário maior), mas mantendo o preço de capa (e todos vocês já leram o livro dela, creio eu, e sabem que uma impressão de tantas páginas coloridas é cara).

Importante dizer que essa é a forma como eu, pessoalmente, escolhi trabalhar. Não considero errado quem faz de outra maneira, pois todas as formas de gerenciar o financiamento coletivo (desde que transparentes e honestas) são plenamente válidas. A distribuição é o maior gargalo para a produção independente e, se o acordo for distribuir uma tiragem bancada pelo Catarse e isso estiver transparente para todos, também é integralmente válido. A minha maneira de agir é apenas a minha maneira de agir.

Sobre o livro aparecer primeiro em eventos antes de chegar nos colaboradores, faço um mea culpa. Posso garantir que, em todos esse livros dos quais participei como editor, havia uma preocupação em entregá-los para os colaboradores antes. Mas o prazo vai atrasando, o envio pra gráfica demora, a impressão toma mais tempo que o previsto e, considerando que o calendário de eventos de quadrinhos não é tão grande, muitas vezes o livro acaba chegando em cima de um evento onde seria importante lançá-lo ou só haveria outra “janela de lançamento”, às vezes, meses depois.

Como já colaborei com mais de 40 projetos, entendo a frustração quando isso acontece, e tenho certeza que atualmente eu pensaria duas vezes antes de fazer isso novamente. Reconheço que é um erro e que as pessoas têm direito de ficar chateadas, mas tem hora que você fica pressionado para tomar decisões difíceis e nem sempre são as ideais. Mas isso não é uma desculpa, apenas uma explicação que se assume como falha.

Por fim, só uma opinião sobre o comentário que fizeram sobre editoras não colocarem projetos no Catarse. Diante disso tudo que eu comentei antes, acho que o risco de não dar certo é muito grande (espero estar enganado).

Eu mesmo tenho um projeto de quadrinhos que eu adoraria colocar no Catarse. Minha intenção com isso seria financiar um pagamento decente pela produção dos autores (envolveria muita gente, então realmente precisaria de apoio financeiro), atividades culturais relacionadas (o projeto é meio megalomaníaco, mas no bom sentido) e os custos diretos do que for gasto com quem colaborar. Todo o resto (impressão para vendas, divulgação, logística, etc.) seria bancado pela editora sem o dinheiro do Catarse.

Mas, sendo bem sincero, eu não sei como as pessoas que criticam a participação de editoras em projetos independentes reagiriam a um projeto de uma editora. Então, por enquanto sigo observando e estudando outras formas de financiar esse projeto (que, garanto, é bem legal – os quadrinistas com quem já conversei sobre ele gostaram muito – mas deixo vocês curiosos de maldade ;) ).

Bom… Essas são minhas considerações. Como disse, escrevi sabendo que não seria lido no programa. Minha intenção nem era essa, de verdade. Apenas queria mesmo compartilhar minha visão com vocês. Posso até estar equivocado em algumas das coisas que comentei (e fiquem à vontade para dizer que falei bobagem, eu gosto quando isso acontece, juro), mas senti vontade de falar :)

Abraços,
Lucio Luiz

 

 

• Outros artigos escritos por

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  • A questão nem é de acharem que as editoras são “empresas malvadas” porque, afinal, fazem parte do sistema capitalista. E sim porque acham, equivocadamente, que por trás de um CNPJ existe muito capital pra investir, o que não é verdade. Tem até editora de um homem só, como foi a Nona Arte. Não há nada de extraordinário em uma editora se utilizar do Catarse.

  • Manoel Macedo

    Não vejo como “polêmica” a participação de uma editora no Catarse, pode ser até um tanto quanto “estranha” já que são empresas que, inicialmente, deveriam já ter caixa para esses investimentos, mas não vejo nada proibitivo. Aliás, seria interessante até que cada autor que faz propostas no Catarse o fizesse em parceria com alguma editora. Isso daria mais garantias, talvez, já que alguns projetos acabam tendo problemas, como foi o caso do “Mulheres nos Quadrinhos” que desde 2014 muitas outras pessoas (incluindo eu) ainda não receberam os livros prometidos.

  • Grande Lucio! Grande Marsupial! Isso sim é um trabalho editorial honesto e qualificado. Um stand de editora que vale muito a pena de se visitar nos eventos pois sempre tem promoções sensacionais e livros e quadrinhos de qualidade. =) #fikadika

  • Heberton Arduini

    A Culpa Catolica aliada com o Socialismo Pré Escolar fazendo vitimas.

  • Marquito Maia

    Há alguns anos a Fantagraphics também “passou o chapéu” para viabilizar as suas publicações (entre elas, o maravilhoso Príncipe Valente!).
    Por falar em editoras e Príncipe Valente, será que a Pixel (diga-se de passagem, uma das editoras mais bizarras do “mercadinho de quadrinhos” da República de Banânia) pretende dar continuidade à essa coleção e, também, à do Flash Gordon?

    • Jason Todd McFarlane

      O segundo Flash Gordon está previsto para o segundo semestre de 2017.

  • Sigurd Goldmember

    Na minha humilde opinião, realmente uma editora utilizar o catarse ou outro site de financiamento coletivo não é um problema e não entendo porque tanta reclamação. Eu, por exemplo, compro tais quadrinhos de editoras menores pois vejo muitas recomendações de colecionadores do youtube. Se não fosse tal divulgação, que com certeza não é remunerada em sua maioria, eu jamais viria a conhecer tais projetos. E propaganda é caro! Mais um motivo pra editora utilizar ferramentas como o catarse, que serve não só como divulgação mas também pra ter um “termômetro” daquilo que pretendem lançar, afinal, as editoras não são obrigadas a lançar algo que, por mais sensacional que lhes pareçam, talvez não seja algo comercialmente viável.

  • Mr_MiracleMan_Jr

    Se produto e preço forem bons, vai fazer sucesso.Tem editoras de livros que usam essas ferramentas w, pwlo

  • Yoshi Itice

    Vou dar minha opinião aqui e espero que levem na boa. Meu maior problema com o projeto do Uso das Cores no Catarse nem foi ter ou não ter editora, mas o preço de capa dele. Na campanha o valor mínimo (portanto, preço de capa) foi de R$90 e após o lançamento recebeu o valor de R$65, mas era possível encontrar por R$45 (se não me falha a memória) no próprio evento de lançamento. Na época eu levei na boa, porque considerei que eu estava ajudando a Cris a lançar seu livro e, por acaso, estava recebendo um exemplar em troca, mas o gosto fica meio amargo ao saber que existia uma editora por trás desde o começo. Vejam, eu não acho errado uma editora fazer um projeto de financiamento coletivo. Acho super válido. E estou muito longe de achar que empresas são do mal e querem sugar nosso sangue. Mas que ficou meio estranho, ficou.