Fanfic: A queda do Superpato (Capítulo 3)

Por Marcus Ramone
Data: 14 março, 2016

Huguinho

“É apenas um Metralha”, pensou. Nada melhor para começar uma boa noite de ação.

Observando-o tentar invadir a mansão do velho Patacôncio, Superpato não deixou de captar a ironia da cena. “Quantas vezes o magnata contratara os Metralhas para roubar ou matar o Tio Patinhas? E aqui estou eu para salvar o patrimônio e, talvez, a vida desse verme.”

Mas ele não estava ali para fazer distinção de vítimas a serem defendidas. Havia um trabalho a ser feito.

Esperou alguns segundos para apertar o controle remoto dos faróis do patomóvel.

O Metralha 176 foi surpreendido pela luz repentina dos faróis. Assustado, caiu do muro que estava escalando, atrás da mansão. A surpresa só não foi maior do que a que sentiu segundos depois, ao sofrer um forte impacto nas costas, atingido pelo pés do Superpato.

Rolando no chão, 176 teve tempo para sacar uma pistola. Desferiu dois tiros sem direção certa, mas o terceiro disparo encontrou o peito do Superpato, protegido por uma camada de kevlar. O quarto tiro foi endereçado à cabeça do herói, que a protegeu usando a capa como escudo.

O avanço do vigilante mascarado durou poucos passos, até que chegasse onde o Metralha se encontrava caído. Um chute no queixo fez o bandido gritar e soltar a pistola. Sangrando, com o rosto ainda colado ao chão, ele pediu, aos soluços: – Não me mate, eu me entrego!

Como um bate-estaca enterrando uma viga, Superpato pisou a cabeça do Metralha. Um baque surdo foi seguido pelo silêncio. Sangue escorria da têmpora de 176, que perdeu os sentidos.

Superpato se agachou. Tirou a máscara do beagle e o olhou com curiosidade. “Muito jovem para ser o 176 que conhecíamos. Parece que essa família também quer manter seu legado.”

Na Mansão Patacôncio, uma luz se acendeu. Pela janela de um dos quartos, um vulto observava. O ricaço mantinha o mesmo hábito de que certo escocês da Família Pato não abria mão: sem seguranças, para mais economia.

Um som de sirenes surgia tímido, de alguma direção que o Superpato não saberia precisar. “A polícia. Ótimo. A notícia logo vai se espalhar.”

A Patada

Zezinho

Quatro contra um. Houve um momento de hesitação, mas recuar estava fora de cogitação.

Os dois primeiros corriam na frente, carregando dois malotes de dinheiro da loja de conveniência situado dois quarteirões atrás. O resto seguia cobrindo a fuga atirando contra uma dupla de policiais.

Agachado no topo do pequeno prédio abandonado, Superpato calculava o trajeto dos assaltantes. Olhou para o poste mais adiante e lançou o patarangue. Encaixe perfeito. O mais difícil ainda viria.

Quando os dois primeiros bandidos passaram, o vigilante se lançou ao ar, fazendo um arco baixo com a corda do patarangue em direção aos outros dois que atiravam contra os policiais. Não se sabe se foi a visão do vulto negro com asas estendidas contra a luz da Lua que fizeram os bandidos arregalarem os olhos e não esboçarem reação na fração de segundos em que desviaram a atenção de seus perseguidores. Mas eles se lembrarão muito mais de como foram arremessados violentamente contra a vidraça de uma lanchonete ao lado de onde passavam.

Os policias imediatamente tomaram conta da situação. Foram necessários alguns segundos para se refazerem da surpresa e desviarem o olhar do pato mascarado. Ambos entraram na lanchonete com um leve sorriso esboçado no rosto.

A adrenalina invadiu o corpo do Superpato como ele nunca houvera sentido. Era uma motivação a mais para partir em perseguição aos outros assaltantes.

Com um toque na luva esquerda, eles acionou os retrofoguetes e as esteiras das botas. Seria a primeira vez que usaria os apetrechos em uma velocidade tão alta, além do que treinara em tantas oportunidades.

Controlar as botas não foi fácil e, na esquina que os bandidos contornaram, Superpato fez uma curva muito aberta, desviando no último momento de um automóvel que vinha em direção contrária.

Usando a falha como vantagem, adiantou-se no caminho dos assaltantes para pegá-los pela frente. Os dois se aproximaram de um beco para escapar. Mais um vacilo do herói e eles sumiriam de vista.

Superpato disparou balas eletroconcussivas. Daquela distância, as chances de não atingi-los era grande, mas serviriam para assustá-los e saber se estavam armados.

Como não houve resposta com nenhum tipo de arma, aumentou a velocidade e, no momento em que eles entraram no beco, posicionou-se bem às costas dos dois. Novos disparos atingiram os bandidos, no ombro de um e nas costelas do outro, que caíram rolando no chão.

– Parados! Vocês estão sob minha mira -, gritou. Mas os assaltantes já não estavam acordados.

“Trá-lá-lá”, cantarolou mentalmente o Superpato, caindo imediatamente na gargalhada, num misto de alívio e orgulho de si mesmo.

A Patranha

Luisinho

“Tenho que ser rápido para pôr fim a essa loucura”, Superpato refletiu.

O volumoso Kid Monius escapara da cadeia havia poucas horas, invadira uma casa e estava mantendo uma criança como refém. A mãe chorava em desespero, amarrada à janela, servindo de escudo.

Do lado de fora, a polícia tentava negociar. Uma tarefa difícil, pois o bandido já não era mentalmente estável e, desde a morte de seu chefe e mentor, Ted Tampinha, perdera o juízo definitivamente.

Superpato conseguira subir na casa e se esconder entre o forro e o telhado. As luzes já haviam sido apagadas pela polícia. Restava entrar sem ser visto pelos policiais e Kid Monius.

Alguns policias já estavam no corredor próximo ao quarto em que bandido e reféns se encontravam. Monius gritava palavras sem sentido, mas algumas eram muito bem entendidas: – Vou matar essa patinha!

Andando pelo sótão com passos silenciosos, Superpato usava seus óculos de visão infravermelha. A certa altura, olhou para baixo e ativou o sonar do aparelho. Ainda não era o quarto certo.

Mais alguns passos e viu claramente a imagem se formando. Monius e a criança encostados no encontro entre as duas paredes opostas à porta, ao lado da janela. Ofegante, o louco tinha as duas mãos envoltas no pescoço da patinha. Nada de armas. Ele blefara e a polícia caíra na conversa.

“Madeira pouco espessa”, Superpato disse, mentalmente. Um feixe laser foi ativado, diretamente do dedo indicador de sua luva direita. Um pequeno buraco foi aberto no teto logo acima de Kid Monius. “É agora!”

O dardo tranquilizante atingiu o pescoço de Monius, raspando a parte de trás da cabeça e quase atravessando a nuca. Um grito de dor sobressaiu-se ao som de choro e soluços da pequena refém. Um grande baque também foi ouvido.

Os policiais arrombaram a porta e viram um enorme corpo deitado de bruços, inerte.

Pouco depois, algumas pessoas juraram ter visto um silencioso automóvel flutuante surgir do nada, pairar sobre a casa e abduzir uma figura mascarada que ostentava uma capa imponente.

“Será sempre assim, com um final feliz? Isso você esqueceu de nos dizer, tio”, questionou-se o mascarado.

Os trigêmeos

Superpato estava sentado na larga e espaçosa poltrona ao lado da lareira da Mansão Pato. Cansado, sujo e com algumas avarias no uniforme. Mas o semblante era de satisfação.

Ele esperava o outro, que não tardou a chegar, também carregando as marcas de uma noite agitada. Ambos continuaram calados, sentados lado a lado, com o olhar fixo no vazio e o mesmo ar de contentamento.

O terceiro chegou pouco depois e se juntou a eles, na poltrona que até então estivera vazia, não sem antes suspirar para exprimir o que as dores no corpo lhe instigavam.

Cada um remexia suas lembranças. Foram quase dois anos de treinamento duro, exaustivo. Houve momentos em que quiseram desistir. Mas a confiança que Donald depositara neles sempre falava mais alto em suas consciências.

Donald. Será que ele ficaria orgulhoso dos sobrinhos, depois do que eles fizeram nesta noite? O pato saíra de cena havia poucos dias, sem se despedir. Deixara apenas um bilhete em que se lia “Jamais esqueçam o quanto Patópolis precisa de um herói, em todas as acepções da palavra.”

Um herói dividido em três. Sem saber, a cidade acabara de ganhar mais do que esperava.

Passaram-se apenas  cinco minutos até que todos se entreolharam e sorriram com o canto do bico. “O Superpato voltou”, disseram, falando todos ao mesmo tempo, como nos bons e velhos tempos de sua infância.

Continua…

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Superpato A queda

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  • Finalmente! Muito bom!

  • André

    Fui até reler os capítulos anteriores pra me recontextualizar. Ainda choca um pouco ler como foi o fim dos outros heróis, mas a história tá muito boa. Parabéns, Ramone.

    • Marcus Ramone

      Valeu, André! :-)