O Batman de todos nós

Por Marcus Ramone
Data: 10 junho, 2017

Tudo que marca uma criança se torna indelével. Não poderia ser diferente com o clássico seriado Batman, estrelado por Adam West. Literalmente inesquecível, por mais infantil que tenha sido – e certamente por isso mesmo.

Eu tinha entre nove e dez anos de idade. Todo final de tarde, naquele período entre 1981 e 1982, eu e meu irmão mais novo tínhamos encontro marcado com a TV para assistir às reprises de Batman, sucesso nos anos 1960 e que, no início da década de 1980, fora resgatado para as novas gerações pelo SBT.

Meu irmão era o Robin; eu, o Batman, claro. Encarnávamos os dois personagens nas brincadeiras diárias. Mas era uma diversão levada a sério, pois nós víamos os paladinos da Dupla Dinâmica como verdadeiros heróis. Não tínhamos o senso crítico para enxergar que aquilo era uma paródia, uma atração cômica, como ficou óbvio depois que crescemos.

As lembranças estão vivas em nossas mentes. Na minha. Na do meu irmão. Na de cada um que traz no coração o seu “Batman da infância”. Aquele mesmo, interpretado pelo ator Adam West.

Mas o falecimento de West, ocorrido neste dia 10 de junho de 2017, aos 88 anos, parece simbolicamente colocar um ponto final nisso tudo. Como se o que era bom acabou somente agora. Como se nunca tivéssemos saído da infância e a série Batman jamais houvesse chegado ao fim, pois West continuava ativo na mídia e em ocasionais trabalhos ligados ao Homem-Morcego.

Afinal, ali estava ele, sem o uniforme do Batman, o próprio Bruce Wayne. E, quem sabe – como somente uma mente nerd poderia conceber –, prestes a anunciar de forma bombástica sua participação em uma versão cinematográfica de Batman Beyond, interpretando um Cavaleiro das Trevas idoso e aposentado do super-heroísmo.

Para muitas pessoas, é doloroso acordar de sonhos bons. O coração pesa. As lágrimas caem.

É assim que me sinto hoje. Assim como me senti quando Chaves, Superman e Sr. Spock se foram, dentre outros que me fizeram acreditar em cada fantasia que eles encenaram na TV ou no cinema e que, como heróis, corroboraram para mim todos os bons valores que meus pais me ensinaram.

Nenhum outro ator, antes ou depois de Adam West, conseguiu marcar tão fundo o personagem da DC Comics na cultura pop. Nenhum deflagrou uma batmania entre as crianças. Nenhum outro que tenha vestido o manto do morcego conquistou tanta reverência. Nenhum continuou sendo por tanto tempo o Batman no imaginário popular e no coração dos fãs do personagem.

E jamais ninguém será, pois Adam West agora é eterno.

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  • Marcus Ramone

    VAm, essa sua frase foi lapidar: “Perdemos o Batmam de verdade, afinal todos os outros são apenas atores.”

  • Marcus Ramone

    Eis o ponto central de nossa tristeza. :-(

  • Marcus Ramone

    Somos todos Batman, graças ao West.

  • Fabian Lucio Fontoura

    Parabéns pelo lindo texto, Marcus: conseguiu expressar muito be a tristeza que acometeu todos nós….

  • Cassiano Cordeiro Alves

    A primeira vez que vi o Batman “em carne e osso” foi no seriado (passava no SBT). Como criança, ignorava os exageros, o humor sem noção, e até mesmo a tolice de algumas histórias. Só me importava o telefone vermelho tocar, ver meus heróis favoritos entrar no batmóvel (o meu favorito até hoje!) e pegar os bandidos. Mesmo com o Batman do Tim Burton, ainda gostava da série, só fui me afastar dela na adolescência. Hoje, ela é mais uma querida memória afetiva do que qualquer outra coisa. E mesmo com tantos filmes, desenhos e HQs, com tanta gente dando voz ao morcego, vestindo seu traje, Adam West tem seu lugar especial em minha memória e meu coração. Foi “meu” primeiro Batman “de verdade”. Penso que perdemos o Batman mais icônico de todos os tempos, isso é um fato, pouco importa se é o seu intérprete favorito ou não. Adam West representou o Batman mais inocente, otimista e engraçado de todos. Descanse em paz, Adam West. Nós, fãs do Batman, nunca te esqueceremos.

    • Marcus Ramone

      Você disse tudo, Cassiano. TUDO!

  • Aqui tinha o Kung Fu da EBAL, tinha o rosto do Carradine, mas as histórias eram ambientas no século XX.

    • Stephan

      As adaptações inglesas eram autorizadas pela Warner e fiéis ao personagem(inclusive com uma aventura desenhada por Paul Neary no início de sua carreira!)
      Não sei dizer se o mesmo ocorreu com as histórias argentinas, mas o Kung Fu “brasileiro” não era oficial(a Ebal se saiu melhor com o Judoka).

      • As argentinas eram piratas, a Mo.P.a.Sa era uma editora notória pela pirataria, tinha uma revista do Astroboy.

  • Pedro Ribeiro

    Ben Affleck: nunca será!!!!!!!1

  • Marquito Maia

    Sem dúvida, um seriado que marcou muitas gerações, com os enquadramentos malucos, as onomatopeias, as armadilhas mirabolantes dos vilões, a Batgirl etc., MAS que quase liquidou o verdadeiro Batman dos quadrinhos! Ainda bem que surgiu a dupla O’Neil/Adams pra salvar o personagem!
    Quanto ao Adam West, teve o mesmo destino do Roger Moore: dois atores medíocres, marcados por um único personagem. Viva Hollywood!

    • brunoalves65

      Na verdade, o Batman da TV salvou o Batman dos quadrinhos – tanto pela visibilidade que deu ao personagem quanto pela reação de quadrinistas como O’Neil e Adams, que resgataram o herói sombrio. De uma maneira ou de outra, a série galhofa tem uma imensa importância na cronologia do Morcego.

      • Júlio Oliveiraq

        Exatamente isso. Um fato que os fans mais exaltados se recusam a reconhecer.
        JD

    • Stephan

      Se ambos os atores fossem tão medíocres assim, eles não seriam lembrados por milhares de fás ao redor do mundo. Cumpriram bem o seu papel de entreter, ainda que, obviamente, não tenham agradado a todos. Se não lhes foram dadas outras oportunidades no meio cinematográfico, isso não foi culpa deles.

      • Marquito Maia

        Concordo que ambos cumpriram bem o seu papel, mas o Sean Connery, por exemplo, interpretou o 007 e, depois, fez um monte de filmes, com os mais diferentes tipos de personagem.
        E assim como o Adam West e o Roger Moore, o George Clooney também começou na telinha (naquela chatice do “E.R.”! Maldito “Dr. Kildare”…!!!) e depois migrou pro cinema, onde mostrou ser um grande ator e diretor, com micos como… “Batman e Robin” (justamente o filme que mais se inspirou na série da tevê), que, obviamente, não comprometeu em nada a sua carreira.
        Como costuma-se dizer: “Nada substitui o talento”.

        • Stephan

          O filme “Batman e Robin” foi um fracasso em todos os sentidos por ter tentado imitar forçosamente a série clássica, ainda por cima com um toque de arrogância por parte do diretor Joel Schumacher(tal qual aconteceu com outra bomba, o “James West” com o Will Smith) ou seja, o problema não foi a fonte inspiradora, mas sim a maneira como ela foi(mal) utilizada.
          Outra coisa: o magnífico Orson Welles tinha talento de sobra e oportunidades de menos, ou seja, nem sempre o mundo trata de forma justa as pessoas competentes.
          Não estou a comparar o gigante Welles com West e Moore – dois atores que não almejaram revolucionar nada, apenas quiseram entreter os outros, o que não é um demérito – mas o sucesso nesse meio nem sempre implica que isso foi fruto do mais puro talento(a propósito, Clooney continua um canastrão). Fatores tais como sorte e agentes de peso tem grande influência no rumo de uma carreira artística, e atualmente, na maioria dos casos, o que menos se vê nas telas é gente talentosa, tanto na frente quanto detrás das câmeras.

    • W. W. Barros

      “Quase liquidou o Batman dos quadrinhos”? O Batman da série era o Batman representado nos quadrinhos da época. e não o contrário, basta ver o que era publicado nessa tempo (50-Início dos 60).

  • Murillo Mattos

    Belo texto, retrato de uma, duas, três gerações que aprenderam bons valores com o Batman de Adam West. Quando tinha 8,9 anos era o melhor programa do mundo. Hoje é a lembrança eterna no coração.

  • Fat Flash

    Cara, ótimo texto.