Os 55 anos do Jotalhão

Por Marcus Ramone
Data: 4 setembro, 2017

Em 1962, quando o jornalista Alberto Dines, do Jornal do Brasil, encomendou a Mauricio de Sousa uma nova série de tiras, nasceu o elefante Jotalhão, cujo nome faz referência ao “J” daquele periódico.

“Era para sair no Jornal do Brasil, mas, nesse ínterim, a Folha de S.Paulo me convidou para lançar a Folhinha de S.Paulo e eu precisava de novas criações. Então, o Jotalhão entrou no suplemento, no miolo das histórias do Raposão, em páginas do tipo tabloide. As tiras diárias saíam nas páginas da Folha Ilustrada“, disse Mauricio de Sousa ao Universo HQ.

No final da década de 1960, o personagem alçou um voo mais alto do que seus quilos a mais permitiriam alcançar em condições normais. Graças a uma tira da Mônica que mostrou a já clássica piada em que a menina dentuça puxa um elefante pela tromba e ouve o Cebolinha dizer “Não sei, não… mas acho que sua mãe pediu foi massa de tomate!”
A brincadeira aludia ao nome do extrato de tomate Elefante, produzido até hoje pela Cica.

“Enio Mainardi, da agência Proeme, viu a tira e me telefonou perguntando se poderia programar uma nova campanha usando os personagens e o tema. Consenti, e assim nasceu a campanha que me levou para a televisão, via comerciais, e resultou em cerca de 90 filmes nos primeiros anos de contrato com a Cica“, disse o criador do Jotalhão.

Entretanto, Mauricio de Sousa promoveu uma significativa mudança no visual do personagem para adaptá-lo à nova empreitada. “No começo ele era cor de rosa, nem sei o porquê. Saía assim na Folhinha de S.Paulo, antes da parceria com a Cica. Depois, com o contrato, achei que seria melhor esverdeá-lo para conseguir melhor contraste nas latinhas do extrato de tomate. Ficou algo meio ‘italianado’, como eu queria.”

A partir dali, teve início uma longa parceria que rendeu comerciais que marcaram gerações e deram origem ao bordão “Ô, Mônica! Você tem certeza de que sua mãe pediu um elefante?”, imortalizado na voz do ator Túlio de Lemos, já falecido.

Jotalhão também fez muitas participações nos desenhos animados da Turma da Mônica, aparece mensalmente nas revistas em quadrinhos daqueles personagens em aventuras próprias e continua estrelando linhas de brinquedos, de jogos a bonecos.

Parafraseando a famosa música de domínio popular, o que não é possível afirmar é que o simpático elefante não tenha incomodado muita gente. “Durante a ditadura (brasileira, em que o País foi governado por militares, entre os anos 1960 e 1980), com a ‘cumplicidade’ do Jotalhão, eu conseguia fazer diversas histórias com críticas ao regime, na forma de fábulas ou parábolas”, revelou Mauricio de Sousa.

Depois de 55 anos, o elefante verde que desperta o interesse de uma formiga apaixonada e tem como melhores amigos uma raposa e um coelho, continua conquistando admiradores com suas histórias em quadrinhos – até mesmo se destacando na graphic novel Muralha, estrelada pela Turma da Mata e lançada em 2015.

E não só nas páginas dos gibis esse sucesso irá continuar, pois, nos comerciais de TV e nas prateleiras dos supermercados, Jotalhão continuará presente por muito tempo. Afinal, ainda restam mais 20 anos de contrato com a Unilever, atual dona da marca Cica.

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  • James Howllet

    Foi a 2° HQ ou tirinha que li em minha vida. A primeira, claro, foi a do Chico Bento.

    De qualquer forma não parava de encher o saco da minha mãe quando ia ao supermercado e “exigia” o extrato de tomates “do elefante”. He he he…

    Clap, clap, clap…Muitos anos de vida!

  • Adriano de Oliveira Ferreira

    historia simplesmente fantástica!

  • Sería bacana compilar essas fábulas e parabolas criticando a ditadura, heim?