Os meninos que colecionam Homem-Aranha

Por Marcus Ramone
Data: 16 abril, 2015

Um é norte-americano; o outro nasceu no Iraque. O primeiro é um personagem da ficção que emocionou toda uma geração de leitores de quadrinhos de super-heróis. O segundo é bem real e comoveu os Estados Unidos e outros países onde sua história de dor, sofrimento e privação ficou conhecida.

Além das vicissitudes que o destino imputou cedo demais em suas vidas, as duas crianças têm outro detalhe em comum: são fãs e colecionadores de tudo que se refira ao Homem-Aranha e, ao menos por poucos momentos, esqueceram as angústias ao conhecê-lo pessoalmente.

A história real aconteceu há pouco mais de oito anos, no dia 15 de janeiro de 2007. Com apenas cinco anos de idade, o iraquiano Youssif viveu momentos de horror que jamais irá esquecer, pois as marcas do que sofreu estão literalmente registradas em seu corpo.

Sua casa foi invadida por prováveis integrantes de uma milícia fiel ao antigo regime ditatorial de Saddam Hussein. O garoto, arrastado para fora sob os olhares aterrorizados dos pais, foi molhado na cabeça com gasolina.

Youssif

O que veio a seguir é uma cena imaginada apenas na mais bizarra das histórias em quadrinhos de terror: foi ateado fogo na cabeça de Youssif, queimando o tempo suficiente para deformar o rosto, antes que seus pais pudessem socorrê-lo.

A partir dali, foram meses em que o pequeno iraquiano esteve hospitalizado em estado grave, tratado sem anestésicos e emitindo gritos de dor tão guturais que, segundo relataram seus pais, podiam ser ouvidos do lado de fora do hospital.

Em setembro do mesmo ano, o Universo HQ reportou que, ao menos em parte, o sofrimento da criança fora amenizado. Naquele mês, Youssif e sua família foram recebidos nos Estados Unidos, onde o menino começou a receber cuidados médicos mais adequados.

Seu pai havia procurado jornalistas da rede de televisão CNN, presentes na cobertura dos conflitos internos no Iraque, contando sua história ao mundo e solicitando ajuda. Para ele, era preferível morrer com alguma represália do que ver o filho sofrendo. “Faço qualquer coisa pelo Youssif”, disse em entrevista ao canal jornalístico.

A ONG The Children’s Burn Foundation bancou o o tratamento e a estada da criança nos Estados Unidos.

Logo nos primeiros dias, Youssif viveu um momento de alegria que não surgia em sua vida desde o atentado que sofreu. Ele visitou os estúdios da Universal Pictures para conhecer o Homem-Aranha. “É o meu herói preferido”, disse o garoto à CNN.

Escoltado pelo Capitão América, o Duende Verde e outros personagens, o Homem-Aranha abraçou e beijou Youssif e explicou a ele a posição das mãos para o disparo das teias, imediatamente imitado pelo fã mirim. Ao final do encontro, Youssif “agendou” mais uma visita: “Quero vê-lo de novo!”.

Outra emocionante história, dessa vez protagonizada por uma criança fictícia, foi escrita por Roger Stern, com desenhos de Ron Frenz e arte-final de Terry Austin, e ganhou destaque no gibi Amazing Spider-Man #248, publicado nos Estados Unidos em setembro de 1983 (a data de capa, entretanto, é janeiro de 1984).

O menino que coleciona Homem-Aranha é um clássico que angariou prêmios, cativou leitores e a crítica especializada, ganhou republicações e inspirou um episódio em duas partes da série em desenho animado do Homem-Aranha, em 1994.

Tudo começa com uma reportagem no jornal Clarim Diário que apresenta Timothy Harrison, um menino fanático pelo escalador de paredes e que guarda tudo sobre seu ídolo, desde recortes de jornal a badulaques com motivos do herói.

O menino que coleciona Homem-Aranha

Sofrendo de leucemia, Timothy tem poucos dias de vida e seu maior sonho é conhecer o Homem-Aranha.

Depois de ler a reportagem, Peter Parker sentiu-se tocado pelo pequeno fã e resolveu visitá-lo trajando seu uniforme de combatente do crime.

A surpresa e a alegria estampada nos olhos do garoto é uma das marcantes cenas da história, que a partir daquele momento mostra uma emocionante interação entre fã e ídolo, cada um revelando ao outro os detalhes mais significativos de sua vida.

O Homem-Aranha conta sua origem, os medos e as dificuldades que sempre enfrentou. Por sua vez, Timothy comove o leitor com a história de uma vida que será muito curta.

Ao despedir-se do menino e preparando-se para ir embora, o herói se detém quando é perguntado se poderia, ali mesmo, revelar sua identidade secreta.

Embora argumente os motivos pelos quais mantém seu rosto escondido por trás de uma máscara, o Homem-Aranha cede ao desejo de Timothy quando ele promete que nunca dirá nada a ninguém… enquanto viver.

No final, após sair pela janela e ainda aderido à parede, o herói com poderes sobre-humanos baixa a cabeça e chora.

Essa história curta de 11 páginas, considerada uma das melhores já criadas para o Amigão da Vizinhança, foi publicada no Brasil em Homem-Aranha #19 (Editora Abril, janeiro de 1985) e na edição especial Marvel – 40 anos no Brasil (Panini Comics, setembro de 2007).

O garoto Thimoty, imagina-se, pode estar vivo até hoje, levando-se em conta que o tempo nos quadrinhos não corre. E pelo que pode ser chamado de milagre, Youssif também sobreviveu.

Mas para o menino iraquiano, hoje com 13 anos, uma simples mudança de roteiro, como é possível fazer nos gibis, não apagará o que lhe marcou física e mentalmente para toda a sua vida.

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