Uma nova forma de expor quadrinhos: S.A.C.R.E.D., uma proposta de Ai Weiwei

Por Eduardo Nasi
Data: 9 agosto, 2013

Na coluna anterior, começamos um debate sobre as exposições de quadrinhos. Falei de como elas geralmente são montadas, apontei incongruências históricas e cheguei a dizer que o modelo atual não serve mais.

Nos comentários recebidos, alguns leitores se empenharam em propor como seria esse novo modelo. Antes de entrar nessa discussão sobre possibilidades futuras, quero aprofundar em um único exemplo está em cartaz neste momento em uma mostra colateral da Bienal de Veneza: S.A.C.R.E.D., de Ai Weiwei.

Al Weiwei é o mais importante artista contemporâneo chinês. Nos últimos anos, seu nome foi recorrente nos jornais do mundo todo: opositor da ditadura que controla seu país, ele acabou vítima de uma prisão pra lá de questionável.

Por semanas, não se teve notícia de seu paradeiro. Enquanto a China o acusa de desviar impostos, a suspeita do resto do planeta sobre os reais motivos do cárcere é o caráter político de sua obra. Ai Weiwei nunca deixou seu público esquecer que o governo do país que mais cresce no mundo é uma ditadura.

Mas não é só pela força política que seu trabalho ganhou destaque no cenário internacional. Ai Weiwei é um criador poderoso, que transita pelas instalações, happenings, fotografia, vídeos e também pelas plataformas digitais. Suas obras já ocuparam os espaços mais prestigiados do mundo das artes, inclusive no Brasil.

Ele transita por várias linguagens, mas não era, até agora, um autor de histórias em quadrinhos. Mas S.A.C.R.E.D. poderia ser lida como uma HQ.

No panteão das igrejas de Veneza, Sant’Antonin não tem nenhum destaque. Em dias normais, não recebe turistas nem aparece em guias. Datada do Século 17, não tem obras de grandes mestres renascentistas, mas afrescos razoavelmente recentes.

Não foi pela importância artística que Ai Weiwei escolheu Sant’Antonin, e sim pela arquitetura, me explicou a jovem Beatrice, mediadora da Bienal. S.A.C.R.E.D. ocupa a nave central da Igreja de Sant’Antonin. São seis caixas cor de chumbo nas dimensões 377 x 198 x 153 cm, organizadas e divididas em duas filas. Ficam três de cada lado. O público anda em torno delas explorando-as. Em cada uma, há buracos e, quando se olha por eles, se percebe que são janelas. Pelas caixas, se vê uma representação do cárcere do artista. E lá estão, em ferro e fibra de vidro, bonecos que representam o artista e seus guardas, além de uma reprodução da cela. Cada caixa mostra uma cena.

 

A sigla que dá título à obra começa a fazer sentido. Cada letra corresponde a uma das cenas. S é Supper, a ceia. A é de Accusers, e mostra o momento da acusação. E por aí segue: C de Cleansing: a hora do banho, R de Ritual, E de Entropy (entropia), D de Doubt (dúvida).

Há uma relação imediata com uma via sacra – as obras de arte em sequência que mostram os últimos dias de Jesus Cristo. Ai Weiwei não ocupa as capelas da igreja, nem os vitrais, que é onde normalmente ficam as representações da via sacra. Mas o artista também mostra cena a cena o seu calvário. Mais que isso: também começa com uma ceia e acaba em dúvida.

Não são poucos os pesquisadores que veem as vias sacras como antecessores dos quadrinhos. Mas não é só por isso que S.A.C.R.E.D. pode ser lido como uma HQ. Suas seis caixas contam uma trama fechada.

Ainda que sem balões, S.A.C.R.E.D. usa outros elementos importantes dos quadrinhos: os requadros que contém as cenas (e tanto as caixas quanto as janelas funcionam como tal) e a passagem do tempo. A instalação de Ai Weiwei segue diversos critérios para ser considerada uma HQ e, num checklist preparado a partir de artigos de especialistas, se enquadraria.

Se há um impulso de se duvidar que é mesmo uma HQ, ele não vem da obra, mas do observador. Claro que há motivos para isso, a começar pelo fato de que a obra não havia sido, até então, definida como uma HQ. Ai Weiwei poderia até mesmo discordar. Mas aí a questão é outra: quem define que uma HQ é uma HQ?

Visualmente, S.A.C.R.E.D. é muito diferente do que tradicionalmente se convencionou chamar de HQ. Não é uma revista ou um livro, e sim uma instalação tridimensional em uma igreja. Esculturas substituem os desenhos. Mas isso não pode limitar a definição: já faz tempo que os quadrinhos começaram a experimentar outros caminhos. Na próxima coluna, vamos voltar ao tema e tentar explorar essas possibilidades.

Até lá, talvez não seja o caso de esperar Ai Weiwei dizer que fez uma HQ. Se queremos  explorar novos caminhos, os quadrinhos precisam incorporar a criação desse artista chinês para si. Se não como uma HQ, ao menos como uma possibilidade, um norte, ou mesmo um ponto de partida para se explorar novas formas de se expor quadrinhos.

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