A evolução das adaptações de quadrinhos

Por Sérgio Codespoti
Data: 10 março, 2017

Existem dois tipos de filmes: os que possuem roteiro original e as adaptações de outro material.

Romances, biografias, artigos de jornal, musicais, peças de teatro, videogames, programas de rádio, desenhos animados, seriados de TV, filmes antigos e histórias em quadrinhos, dentre tantas obras fontes, podem servir como fonte para uma adaptação.

No caso das adaptações baseadas em quadrinhos, um tipo específico tornou-se um subgênero importante: as baseadas em HQs de super-heróis.

Não é de hoje que os quadrinhos são fontes de inspiração para o cinema.

Arrosage public é uma HQ  muda, de humor simples, ilustrada por Uzès (pseudônimo de Achille Lemot), publicada na revista Le Chat Noir # 182, em 4 de julho de 1885.

Essa página têm um  enredo simples, que se baseia num humor visual tipo pastelão: um sujeito está usando uma mangueira para limpar a rua e um garoto bloqueia a mangueira. Quando o sujeito corre atrás do menino, a mangueira ganha pressão e molha um vendedor numa loja.

Pode parecer estranho para os leitores de hoje, mas essa ideia foi copiada por uma dúzia de cartunistas e ilustradores na França e Alemanha e foi adaptada para o cinema em três “filmes” curtos: L’Arroseur, de Georges Meliès (1896); L’Arroseur arrosé, de Alice Guy (1897); e The Biter Bit, de James Bamforth (1900).

Desde o início do cinema, os quadrinhos têm sido fonte de inspiração. Mas também foram influenciados por filmes.

Não demorou muito para que personagens como Flash Gordon, Buck Rogers, Mandrake e Fantasma chegassem ao cinema. Depois vieram Batman, Superman, Capitão América e outros que eram as estrelas de seriados de cinema.

Mas nem sempre as HQs de super-heróis se tornaram sucesso nas telonas. O filme Superman, de 1978, durante algumas décadas foi o padrão de excelência contra o qual outros filmes tinham que competir.

Inspirados pelo sucesso de Superman, dezenas de adaptações pipocaram nos cinemas: mais três aventuras do Homem de Aço, Supergirl, Capitão América (de Roger Corman), Monstro do Pântano, Howard the Duck, Conan, Batman, Justiceiro, O Corvo, As Tartarugas Ninja, Rocketeer, O Sombra, O Máskara, Flash Gordon, Juiz Dredd, Barb Wire, O Fantasma, Spawn, Aço e muitas outras.

Esses filmes eram, em sua maioria, produções de baixo orçamento. Dessa leva, vale destacar os quatro filmes de Batman, dois de Tim Burton (que se tornaram cult) e dois muito coloridos, de Joel Schumacher, que são lembrados até hoje como exemplos do camp e dos excessos do gênero.

Além disso, é importante notar que personagens pouco conhecidos de editoras menores, como Rocketeer e Barb Wire, também conseguiram chegar aos cinemas. O primeiro é um filme simples, mas honesto na sua proposta de aventura nostálgica; e o segundo se apoiava na celebridade da atriz Pámela Anderson para alavancar a bilheteria.

Muitos críticos consideram que a era moderna dessas adaptações começa com o filme Blade, de 1998. Depois disso, o gênero (na verdade, as adaptações de “supers” poderiam ser consideradas um subgênero das adaptações de HQs) se consolidou, com vários sucesso de público e crítica.

Com o sucesso e bilheterias na casa de um bilhão de dólares, o mercado ficou saturado de produções. Esse tipo de filme virou a “bola da vez” em Hollywood.

Em 2013, por exemplo, foram lançadas 12 adaptações de HQs com produção estadunidense e mais seis desenvolvidas na Europa, todos em live action.

É natural que, com esse volume de produções, a maioria das obras seja fraca, com poucas se destacando do resto.

Na última década, a tecnologia e os valores de produção (elenco, efeitos, edição, cenografia etc.) para esse tipo de projeto alcançaram padrões muito altos.

Mas o que importa mesmo é o elemento humano. As pessoas responsáveis por esses projetos precisam entender o gênero com o qual estão trabalhando e também a mídia que estão usando para contar a história.

Não basta saber fazer cinema; é preciso entender o mundo dos super-heróis e vice-versa para se produzir filmes que continuem a agradar o público e a crítica. E ocasionalmente até surpreender a ambos.

Basta ver o caso de Logan, o terceiro e último filme solo de Hugh Jackman como Wolverine. O diretor James Mangold optou pela estrutura de faroeste e minimizou bastante os elementos típicos das histórias de super-herói.

Como escrevi anteriormente, Logan é divertido, acima dos anteriores do personagem, mas, ao disfarçar a película como um thriller de ficção com estrutura de faroeste moderno, fica a impressão de que pelo menos Mangold – e talvez o resto dos produtores – se sentia pouco à vontade para fazer um filme de super-heróis.

Não me oponho ao resultado e acho que as adaptações precisam ser variadas na sua proposta e na estética, para evitar que a mesmice – tudo sério, tudo dark, tudo adulto, tudo engraçadinho etc. – seja mais uma das armadilhas do gênero.

Mas persiste a sensação de que a produção tinha um desconforto com o gênero e optou por uma saída pragmática que foi bem-sucedida.

Apesar do sucesso de público, de bilheteria e, muitas vezes, até da crítica, ainda existe preconceito contra essas obras, tanto por parte de quem produz e dirige, como por parte de quem assiste.

Sérgio Codespoti é fã de cinema e de quadrinhos e acha que a mistura dessas mídias ainda tem muita coisa boa para oferecer.

• Outros artigos escritos por

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  • Alex Pereira

    Se Logan fosse mais “super-herói”, acredito que teria sido menos legal. Do jeito que está ficou excelente.

  • Gustavo Cantieri

    Bom dia, Sérgio. Sabe se há alguma explicação para os finais das adaptações em quadrinhos dos filmes do Conan com o Schwarzenegger? Em “Conan – O Bárbaro” o final é suprimido e a morte de Thulsa Doom não é perante os fiéis de seu culto e sim na batalha anterior, em meio aos dólmens e menires. Já em “Conan – O Destruidor”, o monstro da cena final não se parece em nada com a versão do cinema.

    • Não sei nesses casos, mas sei que era comum as adaptações serem feitas antes do filme estar pronto, aí ficam algumas discrepâncias.

      • James Howllet

        Sim, quando li a adaptação de Guerra nas Estrelas desenhada pelo Howard Chaykin tomei um susto logo no início.

        • Tem umas adaptações de Star Wars produzidas no Brasil q foram totalmente baseadas em posters e pouco material de comunicação que tiveram acesso, hahaha

    • codespoti

      Muitas vezes os desenhistas trabalhavam com um roteiro que não era a versão final da edição do filme, pois precisavam de tempo para fazer a HQ e lançá-la na época do filme…
      Aliás, foi o que o Carlos Vásquez respondeu também.

  • Luciano Monteiro

    Existe 2 pontos cruciais quando pensamos em adaptações cinemagrácifas. Em primeiro lugar a linguagem da mídia em si, que nos caso do cinema vs quadrinhos, apesar de parentes, são bastante diferentes. O cinema é a “arte do tempo”, assim como a música, e para se ter uma leitura da obra completa é necessário assistir o filme por inteiro. As HQs estão dentro da categoria de “artes do espaço” e num relance, podemos ter uma leitura geral da página (ou da HQ inteira, folheando as páginas), para só depois, gastarmos o tempo por nós determinado para melhor compreender a obra. No cinema cada plano nos apresenta a ação dentro de uma duração específica (3, 5, 10 segundos), enquanto que nos quadrinhos o arista deve escolher, dentro de uma ação determinada, a fração de segundo que melhor expressa aquilo que se pretende transmitir, congelando a ação. Existem outros elementos que acabam influenciando diretamente na concepção e realização de tanto de quadrinhos quanto de filmes que são díspares. Porém outro elemento que os diferencia é a forma de produção em si. Filmes custam milhões de dolares e por isso devem ser pensados no público e no retorno financeiro e isto influencia diretamente na forma como os filmes são feitos. Em minha opinião as melhores adaptações de quadrinhos para o cinema foram aquelas que, acima de tudo, são bons filmes e não necessariamente boas adaptações. Superman de Richard Donner, The Dark Knight de Christopher Nolan e Spiderman 2 de Sam Raim são filmes com roteiros complexos e bem construídos, com arcos complexos e com grande habilidade em relação à construção de personagens, exposição, ironia dramática e estrutura causa-e-efeito. Possuem uma direção inspirada, elenco impecável e se tornaram ícones não apenas da cultura pop, mas da História do Cinema. Infelizmente o que observo hoje são filmes de heróis unicamente preocupados nos momentos “nerd-service” que não possuem nenhuma função narrativa. Sem querer generalizar, mesmo porque existem exceções, esses filmes atuais podem até ser considerados boa adaptações de personagens de quadrinhos, mas como cinema são obras esquecíveis e descartáveis.

  • Reginaldo Costa

    “Apesar do sucesso de público, de bilheteria e, muitas vezes, até da crítica, ainda existe preconceito contra essas obras, tanto por parte de quem produz e dirige, como por parte de quem assiste.”
    Não sei se este preconceito é injustificado, uma vez que muitas adaptações tem roteiros bem rasos (thor, esquadrão suicida e até o próprio wolverine).
    Um filme é uma obra que custa muito dinheiro, leva muitos meses para ser feito e tem muitas mãos na sua confecção. O duro é que muitas vezes fazem o processo errado e saem filmando antes de ter uma boa história. Uma boa história é tudo e não importa o quanto o filme seja divertido, ele não se sustenta sem isso. Talvez por isso Logan esteja se sobressaindo, pois ao menos tentou contar uma história que saísse da casinha.

  • FabioRT

    Mas era esperado isso do Logan…é baseado na HQ Velho Logan…que por sua vez é muitíssimo inspirada no Filme os Imperdoáveis…logo….

  • Valdir Pedrosa

    Sempre assisto aos filmes de heróis com um pensamento em mente: isso é apenas uma adaptação, não é igual às HQs, não há 100% de fidelidade aos quadrinhos. Repito isso mil vezes para condicionar o meu cérebro. Mas mesmo assim, não consegui gostar totalmente de nenhum deles. Eu me conto entre aqueles que gostariam que todos os personagens dos filmes fossem fiéis às HQs, assim como suas origens, etnias, etc. Infelizmente (para mim) é sonho de uma noite de verão.

  • O Gato Socialista

    sem falar que hoje super-herói se confunde com pastelão…

  • Douglas Coelho

    Dick Tracy é uma boa adaptação. Foi muito premiada, tb.

  • Vilson Gonçalves

    O levantamento de material é respeitável, mas a conclusão do texto podia ser melhor amarrada e objetiva. Ao mesmo tempo que elogia o potencial para a criação de produções diversificadas, fica se lamentando porque Logan não é “filme de super-herói o suficiente”, como se o gênero precisasse ser restrito a todos os seus tropos (quando isso é algo que não se costuma cobrar nem mesmo de gêneros fechados como o western e a ficção científica).

  • Marquito Maia

    “Não basta saber fazer cinema; é preciso entender o mundo dos super-heróis e vice-versa para se produzir filmes que continuem a agradar o público e a crítica. E ocasionalmente até surpreender a ambos.”
    Por isso que CORPO FECHADO (UNBREAKABLE, 2000), do M. Night Shyamalan, é um dos melhores filmes de super-heróis já feito para as telonas! O texto de introdução do filme, sobre os gibis, já é de deixar qualquer fã de quadrinhos satisfeito! A sequência do Sr. Glass discutindo com um cliente na sua galeria, então, é simplesmente demais! E o próprio nome da galeria LIMITED EDITION fez escola, visto a loja de colecionáveis ali na Consolação, pertinho da Comix e do Studio Geek! Um verdadeiro triângulo das Bermudas para o dinheiro dos aficionados pelo tema!