Lourenço Mutarelli: um artista na acepção da palavra

Por Equipe UHQ
Data: 3 março, 2001

Numa entrevista EXCLUSIVA ao Universo HQ, o maior nome dos quadrinhos brasileiros da atualidade, fala de sua carreira, das dificuldades de seu início de carreira e mostra aos nossos leitores, EM PRIMEIRÍSSIMA MÃO, páginas de seu próximo álbum, A Soma de Tudo, que encerra a trilogia do Detetive Diomedes, e só deve sair no segundo semestre de 2001

 

Lourenço Mutarelli é um cara totalmente “na dele”. Pai coruja do “elétrico” e cativante Francisco, de 5 anos, seu jeito quieto esconde um tremendo “gente boa”. Extremamente atento, ele parece estar sempre observando tudo à sua volta, captando elementos, situações ou pessoas que poderão ser utilizados nos seus próximos trabalhos.

Aos 36 anos (ele nasceu em 1964), dono de um traço único, extremamente humilde, hoje, Lourenço Mutarelli é “apenas” o maior nome das histórias em quadrinhos nacionais. Seus roteiros atingiram uma maturidade notável em seus dois últimos álbuns, O Dobro de Cinco e O Rei do Ponto merecendo grande destaque na imprensa do País inteiro. Recentemente, foi lançado em Portugal, pela Devir Editora, onde foi muito bem recebido por público e crítica.

Atualmente, está trabalhando em A Soma de Tudo, o álbum que encerrará a trilogia do detetive canastrão Diomedes, mas abriu um espaço na sua agenda para uma entrevista EXCLUSIVApara o Universo HQ, onde conta detalhes de seu início de carreira, dos problemas que enfrentou, de sua relação com os quadrinhos, fala de seus ídolos e confessa, até, que acharia interessante fazer uma história de super-herói! No seu estilo, claro!

Lourenço Mutarelli e seu filho Francisco

E o melhor: além de ler tudo sobre Lourenço Mutarelli, nesta entrevista, conduzida por Sidney Gusman e Marcelo Naranjo, você poderá conferir, EM PRIMEIRÍSSIMA MÃO, COM EXCLUSIVIDADE, duas das primeiras páginas do próximo álbum do autor, que deve ser lançado somente do segundo semestre (a previsão é agosto). Um presente do Universo HQ para os seus leitores!

Adjetivos não faltam para definir Lourenço Mutarelli: brilhante, fantástico, provocativo, talentoso, inteligente, incrível e muitos outros. Então, faça o seguinte: leia a entrevista e, ao final, acrescente você mesmo mais alguns a essa lista.

Universo HQ: Lourenço, você é formado em que?

Lourenço Mutarelli: Fiz um curso relâmpago, de dois anos, na Belas Artes, concluído em 1985. Aí, ou você encerrava ou curso, ou optava por bacharelado ou artes plásticas. Como parei por ali, me formei em educação artística. Na época, já estava trabalhando no Mauricio (de Sousa), e já não tinha muito tempo até pra continuar, nem tanto interesse.

Página de O Rei do PontoUHQ: Lourenço, quando você decidiu que queria trabalhar com quadrinhos?

Lourenço: Isso é engraçado, porque foi uma decisão mesmo! Sabe, quando eu vi algumas coisas, falei: “Puxa, vou tentar viver de quadrinhos”. Eu sempre fiz uma historinha ou outra, sem muita pretensão, coisa muito ligada às pessoas que estavam em minha volta, coisa para amigo ler. Aí, em 1986, eu comecei a tentar estruturar melhor isso.

UHQ: Qual foi seu primeiro trabalho publicado? Em que ano foi isso?

Lourenço: Foi em 1988, tanto o fanzine que eu editei, quanto a minha primeira história na Animal, com o Rogério de Campos. Mas eles sempre deixavam bem claro que era no MAU (Nota do UHQ: um suplemento que vinha encartado na publicação), não na Animal; mas, para mim, eu estava na Animal.

Engraçado é que, antes do meu primeiro fanzine, tinha um monte de editoras de quadrinhos, como a Press e umas outras pouco conhecidas. Eu fui a todas, mas nenhuma se interessou muito pelo meu trabalho. Achavam legal, mas diziam que não tinha a ver. Alguns perguntavam onde eu já tinha publicado. “Em nenhum lugar? Então, não dá!”.

Mas, assim que eu publiquei o fanzine, que o Marcatti demorou nove meses para imprimir, porque era uma coisa sem pressa, sem grana, começaram a me ligar, na farmácia onde eu trabalhava. O próprio Rogério me contatou, perguntando se eu não tinha tempo pra fazer alguma coisa, e foi isso! 1988 foi decisivo!

UHQ: Como chamava seu primeiro fanzine?

Lourenço: Era o Over-12. Hoje, eu levo um dia e meio, dois, pra fazer uma página; mas, naquela época, fazia quatro, seis páginas por dia! Eu não tava preocupado com desenho, queria ver meu gibizinho. Então, não é muito… Ah, é um lixo (risos)!

UHQ: Que tipo de quadrinhos você lia naquela época; e o que acompanha atualmente?

Lourenço: Infelizmente, acompanho pouca coisa atual. Naquela época, acho que lia tudo. Uma coisa que, para mim, era muito especial era Tintin. Eu consegui fazer uma coleção, depois ganhei outra completa. Não tenho mais nenhuma das duas! Até tinha um deles, o Charutos do Faraó, que eu não li, porque eu queria um dia ter a sensação de ler algo inédito do personagem. Como nunca mais ia sair nada, eu guardava aquela pra ler. Tintin é uma coisa meio sagrada! Quando o conheci, era muito garoto; e sempre que leio, volto naquela mesma freqüência. É um mundo totalmente ficcional, uma coisa legal, algo que me desliga totalmente de coisas ruins e difíceis. Talvez o melhor momento da minha infância tenha sido ler o Tintin.

O Pato Camaleão, no estilo Hergé: um exemplo da versatilidade do artistaUHQ: Era a HQ que você mais curtia?

Lourenço: Não sei se era o que eu mais curtia, mas é o que tinha uma relação mais profunda comigo. Eu gostava de muita coisa. Nunca fui muito ligado é nesse universo de heróis, por razões próprias, muito pessoais. Eu sempre achei uma coisa muito paternal… O cara tem um problema e o pai ajuda. Meu pai nunca ia me ajudar; ele tava sempre do lado dos outros! Então, não me atraía muito. Nessa época, eu gostava de ler Druillet, Torpedo e qualquer coisa do Muñoz e Sampayo.

UHQ: Você sempre teve um estilo muito particular de desenhar. Algum artista o influenciou? Quais são seus ídolos nos quadrinhos?

Lourenço: Tenho muitos ídolos, mas nenhum que eu falasse “vou fazer igual a ele”. Eu me influenciava por Tintin, Crumb, pelo underground americano, Muñoz – a arte-final que mais admiro. Sempre que vou começar uma história, eu folheio um álbum do Príncipe Valente, do Hal Foster. Não pra tentar copiar qualquer coisa, mas pra não esquecer do profundo respeito que preciso ter com os quadrinhos. A elegância que aquilo tem, e o respeito com que é feito… Eu tento nunca me desviar disso.

No começo de minha carreira, eu não conseguia fazer meu traço. É por isso eu fico meio incomodado em ganhar prêmio de melhor desenhista, porque eu não desenho como quero; eu desenho como consigo.

É verdade! Eu não defini: “meu estilo vai ser esse!”. Não! Eu só consigo desenhar desse jeito. É uma coisa que nem sei se gosto muito, mas é o único jeito que sei fazer.

UHQ: Como foi o mal-entendido com Will Eisner? É verdade que você se desfez de todos os materiais dele?

Lourenço: É verdade. Eu amava o Will Eisner. Ele era o cara que fez a primeira historia que me tocou de uma forma sentimental, a do Gerhard Shnobble (nota do UHQ: um clássico dos quadrinhos, sobre um homem que podia voar, numa aventura do Spirit). Se bem que, depois eu descobri que ela foi escrita pelo Jules Pfeiffer, sem créditos, mas não importa.

O Will Eisner pra mim era um mito, um monstro, que sempre foi vanguarda, sem querer ser. Durante muito tempo, ele foi um cara que me norteou. Aí, teve a 3ª Bienal de Quadrinhos, em Belo Horizonte, onde ele falou que o papel ia acabar. No meu álbum Seqüelas, que é meio ruim (nota do UHQ: nós discordamos em gênero, número e grau do entrevistado!), eu começo com uma brincadeira “Jingle Bell, Jingle Bell” porque eu estava muito irritado com essa história de tecnologia, todo mundo falando que o papel ia acabar.

Eu não sei se quero viver num mundo sem papel. Talvez eu até me adapte, brinco um pouco com o photoshop. Mas acho que se o Will Eisner, uma lenda viva, um talento indescritível, resiste a largar o papel; ele vai ter uma chance maior de sobreviver. Era uma palestra que tinha, sei lá, umas quinhentas, mil pessoas, num lugar muito grande. Estava até o prefeito, e já te já intimidava, porque o microfone era lá na frente; você tinha que atravessar a multidão pra fazer a pergunta.

Então, ele mostrou pra gente o que seria a saída dos quadrinhos, o tal do Moby Dick, não em quadrinhos, mas uma coisa em vídeo, que lembrava aqueles desenhos da Marvel, do Hulk, mas não chegava nem naquilo! O desenho era parado. O cara falava “sinto cheiro de encrenca”, e aparecia um narizinho e fungava. Metade das pessoas dormiu, o restante não achava posição nas cadeiras. Eu achei que não era quadrinhos, não era cinema, não era videogame, não era nada!

Então, eu levantei pra fazer uma pergunta. Ainda falei, “com todo respeito que sinto pelo mestre, o senhor não achava que deveria resistir mais a essa tendência de tecnologia, em vez de largar os quadrinhos que fazia tão bem?”. Ele respondeu de forma estúpida: “Você é muito pequeno! Não tente resistir, ou vai ser atropelado”.

Eu não tava falando de mim! Ele nem sabe quem eu sou, mas eu sei quem é ele. Ele deveria resistir. Mas foi tão arrogante, tão estúpido… Cheguei em casa e peguei todo o material e vendi, por causa da decepção. E era tudo autografado, pois eu o encontrei algumas vezes. O Mauricio chegou a levá-lo no estúdio, só pra gente, um contato muito próximo.

O artista em ação: meticulosidade no traço

UHQ: Quais os artistas brasileiros que você admira?

Lourenço: Tem muitos. Acho que o Brasil tem muita gente boa, em diferentes estilos. Uma pessoa que está meio esquecida, principalmente em São Paulo, que eu admiro demais é o (Flávio) Colin. Além de ser uma figura simples, é um cara talentoso demais. As pessoas não percebem o potencial dele. Também gosto muito do Jô de Oliveira.

Ai tem várias gerações e tipos. O Ota tem alguns trabalhos que eu acho muito engraçados, e outras coisas ruins… O Laerte é um cara que eu admirava bastante no começo. Tinha histórias incríveis, tipo A insustentável leveza do ser, mas parece que, depois, ele foi pegando o caminho do mais fácil, foi deixando de fazer aquilo que eu pretendo nunca deixar: respeitar os quadrinhos. Eu gostava do Mosquil, que nem é brasileiro (Nota do UHQ: um desenhista argentino que publicou na extinta revista Porrada! Special, da Editora Vidente, na década de 90). Aquele cara era uma efervescência. Ele voltou pra cidade dele e nunca mais falei com ele. O Luis Gê é maravilhoso, o próprio Angeli é bom, o Adão vem crescendo… Tem muita gente, mesmo.

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