Um retrato fiel do mercado

Por Equipe UHQ
Data: 3 março, 2001

Entrevista: Editora Opera Graphica

com Carlos Mann (Editor)

Opera GraphicaUniverso HQ: Qual a sua opinião sobre o mercado de quadrinhos no Brasil hoje? O que esperar desse mercado no próximo ano?

Carlos Mann: Estamos bastante otimistas em relação aos quadrinhos no Brasil. Principalmente, no que se refere à diversificação de produtos e editoras. Mas não temos ilusões de que este produto reverta sua situação no panorama editorial brasileiro. O que nos entusiasma é que, hoje, com produtos lançados por várias editoras, com temas mais diversificados, podemos satisfazer um público mais sofisticado e talvez ampliá-lo. Além do que, por serem menores, estas editoras podem ganhar agilidade de manobra para melhor se adequar ao mercado, o que pode representar uma sobrevida maior para esses novos projetos. Esperamos a consolidação de algumas editoras, que vêm investindo nesse segmento, o que trará bons reflexos diante dos leitores. E aproveitar este momento positivo para dar início à implantação da nossa editora.

UHQ: Quais os principais problemas que você vê no mercado nacional? O que acha que deveria acontecer para mudar esse panorama?

Carlos: Os pequenos editores encontram dificuldades de colocar seu produto no mercado, principalmente, por falta de um esquema alternativo de distribuição que possa atender aos anseios de um segmento muito específico. Fazer com que o público-alvo encontre seu produto e que se possa promover ações para formação de novos leitores são, provavelmente, os principais desafios para este mercado.

UHQ: Qual o balanço que a sua editora faz do ano 2000?

Carlos: Há muito pouco que se comentar. Foi um ano de preparação e aquisição de direitos para o lançamento da editora no mercado, que teve início no último trimestre de 2000, com o lançamento de Volúpia, de Júlio Shimamoto e Restolhada, de Marcatti.

UHQ: Quais são os planos da sua editora para 2001? O que vem por aí?

Carlos: Será o ano de implantação da editora, sem perspectivas demasiadamente otimistas. Um ano basicamente de investimentos, iniciados no ano anterior e que só devem refletir a médio e longo prazo. O plano da editora é lançar produtos com forte ênfase nos autores nacionais, temas ligados a seriados de tevê e alguma coisa de material estrangeiro. Pretendemos, a partir deste ano, formar um portfólio de produtos que nos qualifique para boas aquisições nos próximos anos.

UHQ: Hoje, a história em quadrinhos é um produto caro. É possível reverter esse quadro ou a tendência é isso se manter?

Carlos: A questão do preço do produto é algo questionável, pois os álbuns de quadrinhos têm um preço inferior ao seu similar na forma de livro. O que há, em parte, é um preconceito quanto ao produto HQ, que é comparado não a um livro, mas sim a uma revista de banca, que tem um apelo mercadológico diferente. Se comparado ao preço internacional, o custo de nossos produtos é bastante acessível. O problema é que o poder aquisitivo da média da população brasileira é que difere bastante, se comparado a níveis internacionais. Acreditamos que a tendência é que deve haver uma forte segmentação e o aparecimento cada vez maior de produtos de preço elevado, se comparado ao das revistas de banca. Caminho encontrado por editoras, como a nossa, que estão produzindo material com acabamento mais sofisticado e tiragens menores.

UHQ: Mesmo nessa tremenda crise, poucas vezes tivemos tamanha variedade de lançamentos. O leitor pode optar entre super-heróis, europeu, manga, quadrinho adulto, erótico, nacional etc, mas todos com tiragens reduzidas e preços altos. Como você encara essa segmentação?

Carlos: Vemos de forma positiva esta segmentação. Já que não dispomos de meios de distribuição eficientes para o setor, a segmentação possibilita o aparecimento de novas editoras e a satisfação de um público específico que, até então, não tinha acesso a produtos diferenciados, caso que ocorre também em países mais desenvolvidos, onde determinados produtos também têm suas tiragens entre 2 e 3 mil exemplares.

UHQ: Por muito tempo, os quadrinhos de super-heróis dominaram o mercado nacional. Você acha que essa diversidade de títulos é sinal que eles estão em decadência?

Carlos: Não acreditamos que a diversidade de títulos esteja ligada à decadência do segmento de super-heróis. São segmentos diferentes e que não competem entre si. O leitor não deixou de ler super-heróis em virtude do aparecimento de um outro estilo.

UHQ: Você acha que a falta de revistas e críticas especializadas no setor afeta o mercado?

Carlos: Não acreditamos que o mercado seja influenciado positiva ou negativamente pela falta de revistas e críticas especializadas. Nesse aspecto, acreditamos que a popularização da internet pode ser uma alternativa mais viável para o segmento de informação e crítica especializada.

Volúpia Restolhada

UHQ: Qual sua opinião sobre a distribuição no Brasil?

Carlos: Para quem está iniciando um trabalho de pequeno porte é, com certeza, um dos principais obstáculos a serem enfrentados. Uma questão de difícil solução, pois a maioria das livrarias não investe no setor de quadrinhos. E o segmento de gibiterias (lojas especializadas) ainda é insuficiente para manter o mercado. Mas este não é um problema específico da área de quadrinhos, já que o Brasil inteiro possui menos livrarias do que a cidade de Buenos Aires. Falta público consumidor para o mercado editorial num âmbito mais geral, não só no de HQs.

UHQ: Os quadrinhos estão, cada vez mais, migrando para as livrarias. O que você acha desse nicho?

Carlos: É um nicho que começou a ser explorado há pouco tempo. E, por esta razão, acreditamos que tenha um potencial de crescimento promissor. É o segmento que ainda deve crescer nos próximos anos.

UHQ: A Opera Graphica atua no segmento de livrarias e bancas especializadas, qual a situação da editora neste mercado? A venda direta da editora, hoje, é significativa?

Carlos: A Opera Graphica tem pouco tempo de existência no mercado. Está apenas iniciando suas atividades. A distribuição tem sido feita em três frentes. Primeiro, venda setorizada, através de uma distribuidora em bancas de jornais. Segundo, venda através de uma distribuidora alternativa, para pontos especializados. E terceiro, venda direta a pontos específicos, como grandes livrarias. Nosso objetivo não é fortalecer o setor de venda direta, mas sim viabilizar o trabalho de um de nossos parceiros no sistema de distribuição. Mas temos consciência que é um trabalho de médio e longo prazo, que requer perseverança e investimento.

UHQ: A competição no mercado de livros parece estar mais acirrada do que nas bancas. Como você vê a posição de editoras como a Meribérica, a Conrad, a Via Lettera, a Tendência, a Devir e outras que estão entrando no setor?

Carlos: não encaramos que a posição das editoras citadas seja de concorrência. Já que as mesmas produzem material de um mesmo perfil, mas de autores e temas diferentes, o que faz com que esta concorrência seja positiva para o mercado como um todo. Acreditamos que, quanto maior for o volume de lançamentos neste segmento, maior será a onda evolutiva do setor. Ou seja, maior oferta de produtos, maior diversificação de temas, mais possibilidades de se alcançar o público-alvo e maior a possibilidade de se atrair novos leitores para o segmento. Ao se conseguir maior volume de vendas, acabamos por fortalecer os pontos de venda e, quem sabe, aumentar também o seu número e também um maior espaço na cobertura da imprensa. Ou seja, inicia-se um círculo de consumo e de fortalecimento do mercado que acaba por beneficiar a todos os envolvidos.

UHQ: Vocês têm planos para atuar em bancas?

Carlos: Sim. Já atuamos com este mercado, com álbuns de tiragens pequenas e distribuição setorizada por regiões, em fases, para podermos obter um maior giro possível de material. Mas devemos lançar produtos com perfil específico de bancas durante o ano de 2001.

UHQ: A situação econômica hoje é desfavorável para os quadrinhos. O preço de suas edições é um problema?

Carlos: Ao contrário, os mais diversos indicadores econômicos apontam para uma melhora sensível da economia para 2001. O preço dos quadrinhos, se analisados do ponto de vista de custos e tiragem, é bom. Mas, do ponto de vista do consumidor final, ainda é alto. A solução para tal problema teria de passar por um aumento do consumo; e este poderia reverter numa diminuição do preço de capa. Algo que não podemos vislumbrar num horizonte próximo.

UHQ: Seus dois principais lançamentos de 2000 foram com artistas nacionais. A idéia é continuar nessa linha ou vocês publicarão também autores estrangeiros?

Carlos: Temos por meta privilegiar na nossa linha editorial a produção de autores nacionais. E a aquisição dos títulos feitas em 2000 se baseiam numa proporção de ¾ para a produção nacional. A intenção é manter essa diretriz, por convicção pessoal dos diretores da empresa. Mas tudo depende também de como o mercado se comportar. Já estão em andamento lançamentos também de autores estrangeiros, que serão anunciados oportunamente.

Por fim, gostaríamos de deixar claro que nas respostas à entrevista acima não foram citados títulos ou datas de lançamento, para não criar uma falsa expectativa. Por respeito ao público, só serão divulgados os produtos que estejam em produção gráfica e com previsão de lançamento definida.

Retornar ao índice

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

• Outros artigos escritos por

.

.

.