Um retrato fiel do mercado

Por Equipe UHQ
Data: 3 março, 2001

Entrevista: Editora Via Lettera

com Jotapê Martins (Editor)

Via LetteraUniverso HQ: Qual a sua opinião sobre o mercado de quadrinhos no Brasil hoje? O que esperar desse mercado no próximo ano?

Jotapê Martins: Nos últimos três anos, tornou-se evidente uma preocupante estagnação do mercado de HQs no Brasil. Ela nos pegou de surpresa, apesar de ter sido precedida por inúmeros indícios; em especial, a constante queda nas vendas, mais acentuada na última década.

Enquanto outras publicações ganhavam espaço nas bancas, os gibis só fizeram perder posições. Outro indício – agora muito evidente – foi a não renovação da massa de nossos leitores. Os quadrinhos infantis – fonte primordial de novos consumidores – já demonstravam desgaste havia bastante tempo. As inúmeras tentativas de preencher o espaço deixado pela retração dos quadrinhos Disney não vingaram. Por outro lado, a hegemonia da Turma da Mônica não foi o suficiente para manter o afluxo de leitores.

Experiências recentes e malfadadas serviram – mais do que qualquer coisa – para mostrar que o rei das HQs estava nu. A ressaca dos cancelamentos tornou os leitores arredios, e os editores que permaneceram no mercado, mais reticentes e cautelosos. A opção, em bancas, por leitores mais diferenciados ou colecionadores pareceu, para muitos, a saída mais segura. No entanto, se no curto prazo, ela aparenta ser menos arriscada, no que diz respeito ao futuro da indústria, é uma alternativa que afasta o leitor ocasional e ajuda a isolar os quadrinhos, agravando a situação do setor.

Que fique bem claro: não me oponho a favorecer nichos mais exigentes; mesmo porque esse é o caminho que a Via Lettera vem seguindo. No entanto, esses são um pequeno grupo de leitores que deve ser satisfeito em livrarias ou em lojas especializadas. As bancas deveriam privilegiar os leitores menos compromissados, ou seja, aqueles que buscam um escapismo barato e de fácil consumo. É essa massa de compradores que garante a renovação do mercado e de onde saem os novos leitores mais exigentes que vão consumir gibis fora das bancas.

Por outro lado, há a antiga questão da produção nacional de quadrinhos. O quadro atual veio acrescentar um novo fator de inibição. Temos hoje que lamentar o fato da produção nacional – antes vítima de preconceitos editoriais e da pressa no retorno de capital, males que sempre reduziram o investimento a médio e longo prazo em autores brasileiros – agora tenha de padecer com a retração geral das vendas. Se antes, na época das vacas gordas, quando as tiragens de gibis estavam na ordem das centenas de milhares, raras eram as editoras que investiam em produção própria, não vai ser agora que vamos ver, com a freqüência devida, iniciativas de peso nesse sentido.

Não me considero o mais indicado para prever os rumos do mercado neste ano que se inicia. Nos último semestre, houve mudanças radicais na estratégia das editoras que suprem quadrinhos para bancas. Se o mercado já estava conturbado, a balbúrdia agora está armada. A poeira certamente ainda não se assentou. Não posso imaginar qual será o desfecho do que está sendo posto em prática. Suponho, no entanto, que vamos continuar um bom tempo vendo as empresas exercitarem muita cautela.

UHQ: Quais os principais problemas que você vê no mercado nacional? O que acha que deveria acontecer para mudar esse panorama?

Jotapê: O grande problema do mercado nacional sempre foi um só: a ausência de estratégias a longo prazo. As editoras de gibis, desde os anos trinta, buscaram preferencialmente os veios mais robustos e de fácil exploração, numa inércia negligente. Via de regra, tentava-se apenas o óbvio ou a trilha já traçada. Um corolário dessa “lei do mínimo esforço” foi, por exemplo, a contumaz recusa em se investir na produção nacional.

Enquanto o mercado estava forte e responsivo a qualquer iniciativa, por mais estapafúrdia que fosse, essa “estratégia” indolente “funcionou” a contento. Quando a situação tornou-se mais arisca, ficou evidente que jamais houve estratégia alguma. No entanto, em vez de se partir para a inventiva, o que se viu foi a exacerbação da exigência de lucros rápidos. Para agravar o quadro, as vendas de HQs passaram a ser comparadas com as de outras publicações mais rentáveis. Isso exerceu, então, uma pressão indevida sobre os gibis, o que levou a mudanças editoriais freqüentes e de última hora.

Não tenho uma idéia clara do que precisa acontecer para que este cenário mude. Penso, no entanto, que, nas bancas, a tônica deveria ser a opção por publicações mais baratas e diversificadas, enquanto se nutrem expectativas reais quanto ao retorno financeiro desses títulos. Infelizmente, aí reside outro problema. São poucos os empresários que se dispõem a investir tempo e dinheiro num produto que necessita de tantos cuidados, enquanto há outros muito mais rentáveis e menos trabalhosos.

UHQ: Qual o balanço que a sua editora faz do ano 2000?

Jotapê: O ano 2000 foi bastante favorável para a Via Lettera. Conseguimos aumentar nosso catálogo de títulos e, conseqüentemente, nossa rede de distribuição em livrarias e lojas especializadas. Em particular, na área de quadrinhos, nossas escolhas editoriais consolidaram uma imagem de qualidade que agora tem gerado frutos, tornando-se um fator de peso em nossas vendas.

UHQ: Quais são os planos da sua editora para 2001? O que vem por aí?

Jotapê: Para 2001, vamos dar seguimento aos títulos contínuos como Bone, Usagi Yojimbo, Balas Perdidas e Do Inferno. Temos também novas séries a caminho, como Ódio, O Balconista, Love & Rockets, Toma-Muito-Café-Man, Lei Sobrenatural e outras cujos contratos estão sendo firmados agora. Além do mais, contamos com um leque bastante variado de títulos nacionais como Zé-Gatão: crônica do tempo perdido de Eduardo Schloesser; Intestines, do Big Jack Studios; O Gralha, do Núcleo de Quadrinhos de Curitiba; O Paulistano da Glória, de Bira, Sian e Xalberto; e Nojob, do Faoza, bem como mais uma edição de Dez Pãezinhos.

UHQ: Hoje, a história em quadrinhos é um produto caro. É possível reverter esse quadro ou a tendência é isso se manter?

Jotapê: Quadrinhos é um produto caro e… não é. Comparado a outras artes gráficas, a produção de gibis sempre foi e ainda é muito barata. No entanto, para a maioria das editoras, produzir seus próprios gibis tem sido inviável, não porque o custo intrínseco de uma página seja elevado, mas, porque o retorno não justifica o investimento. Este quadro só pode ser revertido se a estagnação atual se alterar. Hoje em dia, felizmente, há um grande número de editores que não perderiam a oportunidade de investir no autor nacional, caso a chance batesse à sua porta. Isto é um bom sinal. Uma melhora no mercado traria agradáveis surpresas.

UHQ: Mesmo nessa tremenda crise, poucas vezes tivemos tamanha variedade de lançamentos. O leitor pode optar entre super-heróis, europeu, manga, quadrinho adulto, erótico, nacional etc, mas todos com tiragens reduzidas e preços altos. Como você encara essa segmentação?

Jotapê: Os últimos quarenta anos viram os quadrinhos perderem a pecha de subliteratura e se tornarem uma arte reconhecida, embora os preconceitos ainda sejam grandes. Tais décadas também foram marcadas por uma enorme diversificação no mundo todo. A atual geração de editores brasileiros cresceu nesse período e, além do afeto pelos quadrinhos, eles nutrem muito respeito por essa forma de arte. Raros são os profissionais da área hoje em dia que desconhecem o que se produz ou o que já se produziu de HQs nos quatro cantos do mundo.

Quando chegaram ao mercado, esses profissionais já estavam influenciados por essas tendências. É uma geração que escolheu fazer quadrinhos em primeiro lugar. Em decorrência, esses editores preocupam-se com o rumo das HQs. Eles sabem quais as conseqüências de se trabalhar com poucos gêneros. Em parte, essa consciência explica a atual segmentação. Outro fator para a atual diversificação é o esgotamento dos filões tradicionais, o que obriga a uma busca de novas alternativas.

UHQ: Por muito tempo, os quadrinhos de super-heróis dominaram o mercado nacional. Você acha que essa diversidade de títulos é sinal que eles estão em decadência?

Jotapê: Se você entende a diversidade como o resultado da busca dos autores por novas maneiras de expressar suas idéias e vivências, eu tenho que concordar que este é um indício de que os quadrinhos de super-heróis já não estão em declínio. Por outro lado, super-heróis sempre foi um gênero limitado, que se manteve em evidência artificialmente, por uma miopia editorial própria do mercado americano, ou seja, o favorecimento de uma única categoria de leitores, os púberes do sexo masculino. Qualquer editor ou autor sabe que insistir no gênero super-heróis é restringir demais as capacidades de se narrar uma história.

Do Inferno Bone

UHQ: Você acha que a falta de revistas e críticas especializadas no setor afeta o mercado? Como foi a experiência com a HQ Express?

Jotapê: Não creio que a ausência ou a presença de revistas especializadas tenham um peso tão grande assim no mercado. Entendo esse tipo de publicação mais como um termômetro de como as coisas estão. Elas realmente ajudam a manter o interesse vivo e oferecem grande sinergia quando o mercado está aquecido. No entanto, não as vejo como fundamentais. São mais decorrência do que causa.

Quando o seriado Cavaleiros do Zodíaco estava em alta, a presença de revistas que exploravam o tema mais do que outra coisa demonstravam a força daquele fenômeno. A Wizard, a Comics Journal ou a Comics International hoje pouco fazem para ampliar a indústria das HQs. Elas floresceram quando o mercado estava em efervescência. Agora, amargam vendas bem modestas.

A HQ Express surgiu, por um lado, do convite para co-edição de um título sobre quadrinhos feito por outra editora e, por outro, do nosso interesse em dar seguimento à experiência da Wizard Brasil. Eu havia sido um dos colaboradores do título da Globo e aquela publicação realmente me cativara.

Infelizmente, o lançamento do primeiro número da HQ Express foi cercado de problemas, entre os quais, o fim da parceria com a outra editora antes mesmo da revista ir para a gráfica. Isso influenciou negativamente no resultado final. Os problemas foram dirimidos nas três edições seguintes. No entanto, a melhor apresentação não evitou que a revista padecesse das mesmas dificuldades que sofrem as demais publicações do gênero: baixas vendas e ausência de anunciantes.

Para reverter esse quadro, teríamos de manter a revista no vermelho por mais alguns meses. No entanto, nada nos garantia que a distribuição por fases que estávamos empregando daria resultados. Muito pelo contrário. O que vimos foram quedas nas vendas, mês a mês. Além disso, o esforço para produzir o título desviava recursos e tempo que poderíamos ter dedicado aos nossos livros, nosso objetivo principal.

Com o fim da HQ Express, voltamos a centrar fogo nos livros e iniciamos, com outras empresas e profissionais, a produção do Omelete, um site cujo conteúdo sobre quadrinhos é de nossa responsabilidade. É verdade que ainda atingimos menos leitores do que numa publicação como a Wizard, mas as chances de crescimento tem sido mais sólidas, a um custo menor, sem que tenhamos de nos desviar de nosso foco principal.

UHQ: Qual sua opinião sobre a distribuição no Brasil?

Jotapê: Nossa experiência maior vem da distribuição em livrarias e em lojas especializadas. As vicissitudes dessa modalidade já são bastante conhecidas pelas editoras do setor livreiro, o que nos permite uma abordagem mais controlada e eficiente da situação. Nosso alcance de vendas cresce a cada título que lançamos, uma vez que mais e mais distribuidoras regionais passam a manusear nossos livros, enquanto as antigas aumentam suas encomendas. Não há muitas surpresas e nossas expectativas estão sendo cumpridas.

Quanto à distribuição em bancas, a única experiência da Via Lettera foi com a revista HQ Express. Isso não foi o bastante para nos conferir um “olhar de dentro”, mas eu já acompanhei a distribuição de outras publicações como terceiro ou com o interesse de quem se preocupa com a questão. A impressão que tenho é de que falta identidade de propósitos entre quem edita e quem distribui. Há poucas distribuidoras em escala nacional. Esse oligopólio favorece alguns títulos de melhor desempenho, em detrimento de outros que necessitariam de mais atenção. As editoras, então, vêem-se forçadas a investimentos iniciais muito pesados, sem a possibilidade de um avanço mais lento e garantido como o que a Via Lettera tem em livrarias. Como conseqüência, é grande o número de cancelamentos. As tiragens mais elevadas e a necessidade de retorno rápido obrigam as editoras a centrarem fogo em títulos de aceitação mais segura, comprometendo a variedade de gêneros. Some a isso, o fato de o ônus do lançamento ser todo da editora e você terá uma idéia da encrenca.

Além da distribuição por fases, cujos resultados só são inspiradores se pensarmos em termos de “menor dos males”, poucas inovações criativas surgiram para reverter o quadro atual. Os quadrinhos sofrem com essa falta de novas propostas, porque são tratados pelos mesmo métodos com que são distribuídas outras revistas mais consagradas. Em conseqüência, as expectativas de vendas são as mesmas e a decepção sempre maior.

UHQ: Os quadrinhos estão, cada vez mais, migrando para as livrarias. O que você acha desse nicho?

Jotapê: Essa não é uma tendência nova. Desde os anos 60, na Europa e no Japão, estabeleceu-se um consumo de gibis em livraria, em geral, com melhor acabamento e mais relevância. No Brasil, houve momentos em que essa via foi privilegiada por uma ou outra editora. Entretanto, comprar HQs fora de bancas ainda é exceção por aqui. O público não está acostumado a procurar gibis em livrarias e nem os livreiros aprenderam a trabalhar com esses títulos. Para que esse quadro se reverta, necessitamos de tempo e paciência.

Em todo caso, um bom desempenho de HQs em livrarias requer também um bom desempenho em bancas. Bancas bem servidas são a porta de entrada para aquela parcela de leitores que comprarão álbuns em livrarias. Além do mais, embora, quando produzidos em larga escala, quadrinhos sejam uma forma de arte barata, seu custo inviabiliza tiragens pequenas. Uma editora que atende livrarias terá mais dificuldades em manter uma linha de títulos inéditos. É aí que entram as encadernações. Como a maior parte dos seus custos já foi ressarcida em bancas, essas publicações são razoavelmente baratas, portanto mais viáveis. No Japão e na Europa, inúmeros títulos no formato álbum são compilações de material previamente lançado em bancas. Eles são fundamentais para o bom funcionamento do sistema. O mesmo está se repetindo, de alguns anos para cá, nos Estados Unidos.

UHQ: A Via Lettera atua no segmento de livrarias e bancas especializadas, qual a situação da editora neste mercado? A venda direta da editora, hoje, é significativa?

Jotapê: Como eu disse anteriormente, o crescimento das vendas da Via Lettera nas livrarias e em lojas especializas está de acordo com nossas expectativas. Cada título novo que chega às prateleiras puxa a venda dos demais e, em conseqüência, nossa malha de distribuição se expande. Isso é natural para uma editora tão recente como a nossa e que acertou seu passo. Vale lembrar que a Via Lettera não publica só quadrinhos. Há, portanto, uma sinergia entre livros de diversos gêneros. Com certeza, se trabalhássemos apenas com quadrinhos, teríamos mais dificuldade para cumprir nossas metas.

A venda direta em lojas especializadas não é, no Brasil, um fenômeno do porte que é nos EUA. Entretanto, para a Via Lettera, ela representa uma parte significativa da nossa distribuição, garantindo uma saída regular para nossos álbuns de HQ.

UHQ: A competição no mercado de livros parece estar mais acirrada do que nas bancas. Como você vê a posição de editoras como a Conrad, a Tendência, a Meribérica, a Devir e outras que estão entrando no setor?

Jotapê: Não me parece tão acirrada assim. Na verdade, não difere muito da que existe em todo o setor livreiro. Eu diria até que a demanda desse nicho comporta com folga tudo que as editoras mencionadas têm a oferecer. Por outro lado, é praticamente inesgotável o manancial de HQs que as editoras listadas acima podem explorar. Por isso, a chance de uma concorrência predatória é ínfima.

UHQ: Vocês têm planos para atuar em bancas?

Jotapê: Não a curto prazo.

UHQ: A situação econômica hoje é desfavorável para os quadrinhos. O preço de suas edições é um problema?

Jotapê: Nossa experiência tem demonstrado que o preço de nossas edições é compatível com o nicho de mercado que estamos abordando. Ele não difere dos preços praticados no setor livreiro e as nossas vendas cumprem com nossas expectativas.

UHQ: Até agora, a Via Lettera publicou grandes materiais, mas todos “alternativos”. Há chance de vocês publicarem HQs de maior apelo junto aos leitores, como, por exemplo, super-heróis?

Jotapê: Claro que há chance de publicarmos super-heróis, mas, num primeiro momento, seriam edições para livrarias, mais preocupadas com qualidade do material do que com seu sensacionalismo. Nos últimos 60 anos, houve muitos gibis de super-heróis de primeira linha que não chegaram ao Brasil e outros que merecem ser republicados.

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