Um retrato fiel do mercado

Por Equipe UHQ
Data: 3 março, 2001

Entrevista: Editora Brainstore

com Eloyr Pacheco (Editor)

Editora BrainstoreUniverso HQ: Qual a sua opinião sobre o mercado de quadrinhos no Brasil hoje? O que esperar desse mercado no próximo ano?

Eloyr Pacheco: Hoje, devido a uma série de fatores, o mercado de quadrinhos está altamente segmentado e o público, muito disperso. A alardeada crise econômica refletiu nas editoras que tiveram que encolher, enxugar custos, reduzir pessoal, cancelar títulos (e não só na área de quadrinhos). Este ano, ainda não há porque estar plenamente otimista, apesar de, segundo os mais velhos no mercado, estarmos no final de mais um “desses ciclos”, que acontecem a cada cinco anos. Oxalá!

UHQ: Quais os principais problemas que você vê no mercado nacional? O que acha que deveria acontecer para mudar esse panorama?

Eloyr: Um dos maiores problemas a ser enfrentado é a dimensão continental do nosso país. Fazer as revistas chegarem em todos os rincões do Brasil é algo bastante trabalhoso, difícil. Um maior número de lojas especializadas e um maior investimento dos distribuidores regionais poderia ser bastante benéfico para a área dos quadrinhos, que hoje trabalha com pequenas tiragens. O sistema das grandes distribuidoras para estas pequenas tiragens, infelizmente, não funciona satisfatoriamente.

UHQ: Qual o balanço que a sua editora faz do ano 2000?

Eloyr: A Brainstore existe desde fevereiro de 1999. Sabíamos que os três primeiros anos de nossa empresa seriam difíceis, mas não tão tanto como está sendo. Dentro do que planejamos, acredito termos ido bem, mas poderíamos ter ido melhor. A retomada de títulos como Hellblazer, Preacher e Sandman foi importante. Conhecemos nossas deficiências e sabemos onde erramos; e isso é muito importante.

UHQ: Quais são os planos da sua editora para 2001? O que vem por aí?

Eloyr: Primeiro, melhorar nossa freqüência em banca. Investirmos mais em projetos na área de Internet e consolidar nossas parcerias, que já renderam frutos em 2000.

Na área de quadrinhos adultos, estão em fase de produção A Brigada dos Encapotados, de John Ney Rieber e John Rigdway; Batman/Etrigan, de Alan Grant e David Roach; e o elseworld (nota do UHQ: série batizada no Brasil como Túnel do Tempo) Batman/Lobo, de Alan Grant e Simon Bisley. A Canalha 2 também está em fase de produção.

UHQ: Hoje, a história em quadrinhos é um produto caro. É possível reverter esse quadro ou a tendência é isso se manter?

Eloyr: É caro devido às pequenas tiragens. Revistas que têm grandes tiragens e vendem bem, devem ter preços menores. No nosso caso, estamos trabalhando com tiragens muito pequenas, principalmente, com os títulos da linha Vertigo, que têm público restrito.

UHQ: Mesmo nessa tremenda crise, poucas vezes tivemos tamanha variedade de lançamentos. O leitor pode optar entre super-heróis, europeu, manga, quadrinho adulto, erótico, nacional etc, mas todos com tiragens reduzidas e preços altos. Como você encara essa segmentação?

Eloyr: Essa variedade de títulos se justifica pelo surgimento de novas editoras, que estão procurando seu nicho, seu público. A segmentação é algo natural em um mercado do tamanho do brasileiro; e só pode ser atendida através de editoras que tenham sua estrutura enxuta e, conseqüentemente, custos baixos.

UHQ: Por muito tempo, os quadrinhos de super-heróis dominaram o mercado nacional. Você acha que essa diversidade de títulos é sinal que eles estão em decadência?

Eloyr: Não é o super-herói que está desgastado, mas, sim, o tema em torno dele. O que é necessário é uma mudança nisso, algo que já começa a ser visto, como na linha ABC, de Alan Moore, que, no fundo, gira em torno do “super-herói”.

UHQ: Qual sua opinião sobre a distribuição no Brasil?

Eloyr: Eficiente, quando se fala em grandes distribuidores e grandes tiragens, mas com custos muito altos, devido ao frete e ao manuseio.

Canalha Sandman # 8

UHQ: Os quadrinhos estão, cada vez mais, migrando para as livrarias. O que você acha desse nicho?

Eloyr: O espaço de livraria deve mesmo ser ocupado. O que não podemos é achar que elas possam vir a ser a salvação do quadrinho no Brasil. Se começarmos a lançar muitos livros com quadrinhos, poderemos ter esse espaço saturado em pouco tempo, com muita oferta e pouca procura.

UHQ: Qual a atual situação no mercado de bancas?

Eloyr: Há anos que o espaço banca está muito poluído, devido ao grande número de publicações, mas continua sendo uma boa “vitrine”. O que falta é um investimento dos proprietários de bancas que, de um modo geral, estão sucateadas.

UHQ: A decisão da Abril de migrar para o formato Premium, entingüindo o formatinho beneficiou vocês de alguma forma? Ou atrapalhou?

Eloyr: O nosso público está habituado com o formato americano, eles praticamente desprezam o formatinho, que era exposto em outro local na banca de revista. Em termos de espaço, o formato “premium” ocupa um lugar ao lado dos títulos que publicamos o que, pelo menos em questão de exposição, nos prejudica.

UHQ: Você acha que a falta de revistas e críticas especializadas no setor afeta o mercado?

Eloyr: Sim. Somente a Internet (muito importante hoje) não atinge todos os possíveis leitores de quadrinhos. Seções fixas em jornais e revistas especializadas viriam a ajudar.

UHQ: Com o lançamento da Canalha, vocês apostam em outro tipo de produto (material europeu), diferenciado da linha Vertigo. Quais as expectativas da editora em relação a isso?

Eloyr: Vale lembrar que a Brainstore atua em áreas distintas: temos a linha infantil (Senninha, Sacarrolha, Mangá Kids), a linha juvenil (Quebra-Queixo, A Estranha Turma do Zé do Caixão, Tsunami) e a linha adulta (linha Vertigo, Sexxxus, Canalha).

A Canalha surgiu para buscar um segmento de público que há muito não tinha o que ler na banca de revista. Nossas expectativas são das mais otimistas.

UHQ: Vocês têm planos para atuar no setor de livros?

Eloyr: Estamos estudando uma série de propostas e parcerias, mas ainda não temos nada definido.

UHQ: Durante o ano 2000, vocês tiveram muitos problemas com atrasos, gerando muitas dúvidas entre os leitores sobre a permanência da Brainstore no mercado. Existe a possibilidade de vocês deixarem a publicação de HQs? Como pensam em resolver o problema dos atrasos?

Eloyr: Sim, tivemos muitos problemas, mas achamos que o número de publicações em um ano difícil como o de 2000 foi bom. Pecamos na periodicidade de Preacher, a única revista mensal que programamos. Depois de publicar três números deste título, editamos um especial, com uma história completa, com o intuito de apresentar o Pastor Jesse Custer para novos leitores e, nesse mesmo período, relançamos as três primeiras edições.

Nosso plano era de lançar uma revista mensal do Hellblazer, mas adiamos isso para este ano. Ao Cair das Sombras foi bem e fechamos o arco de histórias (6 edições). Publicamos também o especial do Monstro do Pântano, escrito por Neil Gaiman. De um modo geral, o não cumprimento do nosso cronograma de publicações é o que não nos agradou.

Nunca pensamos em deixar de publicar HQ.

Uma das soluções que encontramos para evitar atrasos é adquirir o maior número possível de fotolitos, para não dependermos da chegada desse material para mandar a revista para a gráfica. Esse objetivo está sendo perseguido.

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