Um retrato fiel do mercado

Por Equipe UHQ
Data: 3 março, 2001

Entrevista: Editora Mythos

com Hélcio de Carvalho (Editor)

Mythos EditoraUniverso HQ: Qual a sua opinião sobre o mercado de quadrinhos no Brasil hoje? O que esperar desse mercado no próximo ano?

Hélcio de Carvalho: Não só no Brasil, o mercado em quadrinhos está passando por uma grande estiagem. O BOOM que ocorreu no início dos anos 90 (em grande parte, nos EUA, graças à especulação de gente que não tinha nada a ver com quadrinhos, mas queria ganhar dinheiro com a compra e venda de revistas) e se estendeu até praticamente 1997, foi perdendo força e chegou aos patamares de venda nada animadores de hoje. Um dos grandes problemas do mercado no Brasil, e também no restante do mundo, é que os leitores não têm se renovado – apenas envelhecido. Se essa tendência continuar, é inevitável fazer a pergunta: quanto tempo mais os quadrinhos poderão resistir?

UHQ: Quais os principais problemas que você vê no mercado nacional? O que acha que deveria acontecer para mudar esse panorama?

Hélcio: Produzir quadrinhos de qualidade custa dinheiro em qualquer lugar, o que torna muito mais atraente pro editor brasileiro comprar material estrangeiro. Some-se a isso o fato concreto de que o número de leitores é limitado; e que mais limitado ainda é o dinheiro desse leitor. Assim, é óbvio que a grande maioria prefere comprar títulos conhecidos, como Batman, X-Men etc, do que arriscar seu rico dinheirinho em “coisa novas” – apesar que, em muitos casos, as “coisas novas” costumam ter um conteúdo infinitamente melhor.

Na minha opinião, o único jeito de mudar esse panorama seria investir pesado e durante algum tempo em material nacional novo e de boa qualidade. Mas quem está disposto a disponibilizar dinheiro pra isso? A Abril tentou, lançando o selo ABRIL COMICS, mas acabou desistindo, devido ao fraco resultado de vendas.

UHQ: Qual o balanço que a sua editora faz do ano 2000?

Hélcio: Um péssimo ano pro mercado de HQs no Brasil e exterior. Tanto que a Abril quase fechou sua divisão de quadrinhos, e acabou mudando radicalmente sua estratégia de lançamentos, pra tentar atingir um leitor elitizado.

UHQ: Quais são os planos da sua editora para 2001? O que vem por aí?

Hélcio: A Mythos começa o ano lançando, no primeiro semestre, Aliens x Predador x Exterminador do Futuro; um especial do Exterminador do Futuro, desenhado por Matt Wagner; uma nova mini-série de Hellboy; Ghost x Batgirl; Terra X; Inumanos; Marvel Boy; Surfista Prateado (o especial de Claudio Castellini); X-Men x Homem-Aranha x Ka-Zar. Isso na linha de super-heróis. Obviamente, nós continuaremos com os vários títulos da linha Tex, inclusive, alguns produtos especiais marcando os 30 anos do personagem no Brasil.

UHQ: Hoje, a história em quadrinhos é um produto caro. É possível reverter esse quadro ou a tendência é isso se manter?

Hélcio: Eu acredito que deve se manter, a menos que algum grande acontecimento eleve os patamares de venda pro dobro do que são hoje.

UHQ: Mesmo nessa tremenda crise, poucas vezes tivemos tamanha variedade de lançamentos. O leitor pode optar entre super-heróis, europeu, manga, quadrinho adulto, erótico, nacional etc, mas todos com tiragens reduzidas e preços altos. Como você encara essa segmentação?

Hélcio: Quem gosta de quadrinhos, de verdade, vai tentar fazer alguma coisa pra que esse meio sobreviva. Modismos como Pokemon, Digimon etc. vêm e vão. Dificilmente duram mais do um ou dois anos. Quem consegue aproveitar a onda acaba ganhando dinheiro com quadrinhos, mas isso é totalmente passageiro. Não tem nada a ver com o modo de encarar quadrinhos como o pessoal da minha geração encarava. Aqueles que têm HQ no sangue sempre vão fazer alguma coisa, mesmo que perdendo dinheiro, pra perpetuar essa forma de arte – coisa que tem acontecido bastante hoje em dia, com a grande segmentação.

O problema é que, novamente, apesar da grande variedade de títulos, os patamares de venda estão muito aquém do ideal, e muitas editoras persistem por puro idealismo.

UHQ: Por muito tempo, os quadrinhos de super-heróis dominaram o mercado nacional. Você acha que essa diversidade de títulos é sinal que eles estão em decadência?

Hélcio: Sim e não. Por serem mais populares, eles continuam vendendo muito mais do que a maioria do que se publica em quadrinhos – mas a qualidade do material cruzou a barreira do sofrível há algum tempo, levando aqueles que realmente gostam de HQ a buscarem outras opções no mercado. Infelizmente, mais uma vez, o número desses leitores não é muito grande.

UHQ: Qual sua opinião sobre a distribuição no Brasil?

Hélcio: Poderia ser melhor.

2099 - Manifesto Destino Hellboy - O Despertar do Demônio

UHQ: Os quadrinhos estão, cada vez mais, migrando para as livrarias. O que você acha desse nicho?

Hélcio: Não deve ser desprezado, mas é pequeno.

UHQ: Qual a atual situação no mercado de bancas?

Hélcio: Continua igual, com jornaleiros sem a menor idéia de como expor os produtos, de modo a ajudar o comprador. Com exceção das revistas mais conhecidas, como Playboy, Veja etc, é comum você entrar na banca, pedir determinada revista e o jornaleiro sequer saber se ela existe. “Dá uma procurada por aí” é uma das respostas mais freqüentes.

Se você tem paciência de realmente procurar em meio à bagunça, talvez consiga encontrar o que quer, escondido atrás de alguma publicação que não tem absolutamente nada a ver com o assunto. Poucas são as bancas onde o sujeito que te atende conhece do negócio e realmente procura ajudar. É como se a maioria não dependesse de vender os produtos pra faturar o ganha-pão.

UHQ: A decisão da Abril de migrar para o formato Premium, extinguindo o formatinho beneficiou vocês de alguma forma? Ou atrapalhou?

Hélcio: Eu acho que conturbou muito o mercado, afastando um número considerável de leitores (afinal, nem todo mundo pode gastar mensalmente quase R$ 50 em cinco títulos de HQ), mas eu entendo que foi uma atitude de sobrevivência, por parte da divisão de Super-Heróis da Abril.

UHQ: Você acha que a falta de revistas e críticas especializadas no setor afeta o mercado?

Hélcio: Sinceramente? Não.

UHQ: Vocês têm planos para atuar no setor de livros?

Hélcio: Sim, mas não para quadrinhos.

UHQ: Em 2000, vocês publicaram gêneros variados, como faroeste (Tex e Ken Parker), humor (Mad) e super-heróis (vários). Nesse ano, a idéia de vocês é diversificar as publicações ou investir mais neste ou naquele nicho?

Hélcio: Como outras editoras, nós também estamos constantemente testando o mercado.

UHQ: Durante o ano 2000, vocês tiveram muitos problemas com atrasos, promessas de lançamentos não cumpridas e até cancelamentos. Como pensam em resolver isso?

Hélcio: Nós tivemos grande dificuldade pra furar a barreira que nos impedia de ter acesso a títulos que, até pouco tempo, só a Abril conseguia publicar. Felizmente, nós tivemos vários sucessos, mas os atrasos e as promessas que tiveram de ser revistas foram alguns efeitos colaterais indesejados. Hoje, eu acho, estamos mais conscientes do que fazer e como proceder.

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