A importância da linha clara e do estilo atômico

Por Sérgio Codespoti
Data: 6 agosto, 2009

A evolução das HQs franco-belgas passa pela saudável rivalidade entre Hergé (Tintim) e Jijé e Franquin (Spirou). Ou seja, entre a Escola de Bruxelas e a Escola de Marcinelle. É este núcleo de artistas que influenciou uma grande parte da Europa, indo da Espanha aos Países Baixos, por mais de 50 anos, transformando tanto a linha clara quanto o estilo atômico numa estética mundial, um reflexo da sociedade globalizada.

 

O Estilo Atômico está de novo em evidência.

Enquanto Warren Ellis escreve verborragicamente sobre Joost Swarte, a linha clara e o estilo atômico em duas de suas colunas recentes (Do Anything 08 e 09), do outro lado do Mar do Norte, a Bélgica realiza no Atomium, em Bruxelas, duas exposições sobre o assunto: 14 Visões do Atomium e Em Busca do Estilo Atômico.

O Atoomstijl, termo em holandês para “Estilo Atômico”, é basicamente uma reinterpretação conceitual e estética de valores existentes nos quadrinhos belgas da década de 1950, aliada ao espírito futurista do pós-guerra e seu poder atômico, ambos tão bem representados pelo Atomium, um dos monumentos nacionais da Bélgica.

Atomium
O termo foi usado pelo holandês Joost Swarte, na década de 1980, para definir seu trabalho e o de alguns de seus colegas do underground dos Países Baixos.

Construído por André Waterkeyn para a Feira Mundial de 1958 (Expo 1958), em Bruxelas, o Atomium é uma estrutura metálica de 102 metros de altura, com nove esferas interligadas por tubos, representando a estrutura de uma célula de cristal de ferro ampliada 165 bilhões de vezes.

É significativo que um símbolo de algo tão minúsculo e básico como a estrutura atômica, transformado numa construção grandiosa e monumental, está tão intimamente ligada aos quadrinhos belgas. Os quadrinhos são uma parte intrínseca da cultura da Bélgica.

Arte de Vittorio GiardinoPara entender melhor as questões de estilos e tendências nos quadrinhos franco-belgas é preciso voltar no tempo. Mas, antes disso, também é necessária uma explicação geográfica e linguística.

A Bélgica é hoje um país com três línguas oficiais: o francês (falado na Valônia, ao sul), o neerlandês (dos flamengos da região de Flandres, ao norte) e o alemão (usado numa pequena região do leste da Valônia); e vários dialetos (como o Valão, o Luxemburguês etc.), que faz fronteira com a França, Luxemburgo, Alemanha e os Países Baixos (costumeira e erroneamente chamados de Holanda, embora as Holandas – do norte e do sul – sejam duas províncias dos Países Baixos).

TintimAs questões regionais e linguísticas sempre foram importantes para a Bélgica e continuam, até hoje, a influenciar os quadrinhos.

No início da década de 1920, os quadrinhos publicados nos jornais e suplementos juvenis da Europa eram, em grande parte, tiras importadas dos Estados Unidos, que influenciavam autores e competiam agressivamente com o material criado originalmente no Velho Continente, como, por exemplo, o Tintim, de Hergé.

Hergé, possivelmente o mais importante autor de quadrinhos da Europa em termos históricos, descobriu as tiras americanas, no final dos anos 1920, por intermédio do correspondente mexicano do jornal Vingtième Siècle, Léon Degrelle.

Dentre as tiras famosas dessa época estavam Krazy Kat, de George Herriman; Pafúncio e Marocas, de George McManus; e o Sobrinhos do Capitão, de Rudolph Dirks.

Tintim A grande novidade da época era o uso generalizado dos balões, usados pelos artistas americanos para apresentar os diálogos dos personagens. O recurso já havia sido adotado na França por Alain St. Ogan (criador de Zig et Puce).

Inspirado nisso, Hergé publica no semanário satírico Le Sifflet (de 30 de dezembro de 1928), a HQ de sete páginas La Noël, na qual ele usa pela primeira vez os balões.

Hergé criou Tintim, seu maior personagem, em 10 de janeiro de 1929, que logo se tornou um grande sucesso popular. O autor publicou regularmente as aventuras do repórter até a Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha nazista invadiu e ocupou a Bélgica (10 de maio de 1940) e a França.

Para se ter uma ideia do impacto da primeira aventura do personagem, em 8 de maio 1930, o Petit Vingtième encena o retorno do jornalista Tintim (interpretado ao vivo por Lucien Pepermans) de suas aventuras na Rússia, na Gare du Nord, em Bruxelas (na prática, o ator-mirim foi embarcado num trem que voltava da Alemanha para Bruxelas) e foi recebido triunfalmente por milhares de crianças, jovens e adultos.

Henri DendonckerA prática foi tão bem-sucedida que o jornal reprisou essa estratégia em outras três oportunidades. Em 9 de julho de 1931, Bruxelas saúda Tintim, interpretado por Henri Dendoncker, retornando do Congo (Tintim na África); em 13 de novembro de 1932, René Boey interpreta o personagem voltando de sua aventura na América; e em outubro de 1935, Charles Stie faz o papel do jovem repórter retornando de Xangai (Tintim – O Lótus Azul).

Curiosamente, seguindo os passos de Tintim, Henri Dendoncker tornou-se um herói durante a Segunda Guerra Mundial, agindo como espião para os aliados contra os nazistas na Bélgica ocupada.

Em 1934, surge na França o semanário Le Journal de Mickey, que trazia as aventuras de Mickey Mouse e outros personagens de Walt Disney. A seguir vieram Robinson e Hurrah, em 1936; e Hop-lú, em 1937. Todos publicando tiras americanas. O sucesso desses periódicos levou à criação de uma importante publicação belga.

Spirou Em 21 de abril de 1938, Jean Dupuis criava Le Journal de Spirou, um jornalzinho de oito páginas que trazia tiras americanas (Superman, Brick Bradford, Red Ryder) e algumas histórias locais. Foi nesse veículo que surgiu Spirou, o garoto ascensorista do Hotel Moustique, que seria, durante anos, o grande rival de Tintim.

Spirou, que significa “arteiro” em valão, foi criado pelo francês Robert Velter, mais conhecido como Rob-Vel, e suas aventuras no Le Journal de Spirou foram publicadas, durante os primeiros meses, apenas em francês, e distribuídas somente na Valônia (região do sul da Bélgica cujas principais línguas são o francês e o dialeto valão).

Arte de Philippe Berthet Em 27 de setembro de 1938, surgia Robbedoes, a versão holandesa do Journal de Spirou, distribuída na região de Flandres, da Bélgica, e nos Países Baixos. A publicação circulou até 1995. De 1938 a 1955, o Journal de Spirou foi editado por Jean Doisy.

Com a o inicio da Segunda Guerra, as HQs americanas pararam de ser publicadas nos jornais belgas e franceses, criando um enorme espaço para os artistas locais. Mas esse também é um período difícil e conturbado. A ocupação cancela a publicação do jornal Vingtième Siècle e seu suplemento, Petit Vingtième, no qual saíam as aventuras de Tintim.

Hergé é forçado a abandonar a aventura Tintim no País do Ouro Negro, que só seria retomada depois da guerra, oito anos mais tarde, e passa a publicar, no jornal Le Soir (um dos poucos veículos autorizados a circular na Bélgica pelos nazistas), Tintim e o Caranguejo das Pinças de Ouro.

Arte de Jean-Claude FlochO fato de ter publicado num jornal que compactuava com os aliados de Hitler levou Hergé a ser acusado de também ter colaborado com os nazistas, e ele foi forçado a parar de publicar suas histórias em setembro de 1944.

Foi no Le Soir que Hergé conheceu o artista Jacques Van Melkebeke (1904-1983), que mais tarde lhe apresentaria a Edgar Félix Pierre Jacobs (1904-1987), que se tornaria um de seus colaboradores e criaria, em 1946, a série Blake e Mortimer. Melkebeke foi o primeiro editor-chefe do Journal de Tintin.

Na época da guerra, Jacobs desenhava as tiras de Flash Gordon, uma vez que os originais de Alex Raymond não podiam mais ser importados pela revista Bravo (distribuída na Bélgica e nos Países Baixos).

Arte de Ted Benoît Na década de 1940, Hergé passou a contar com a colaboração de alguns artistas (como Edgar Félix Pierre Jacobs e Alice Devos) para lhe ajudar com tarefas como o desenho de alguns cenários e a produção do guia de cores usado para a impressão de cada página.

Nessa época, o estilo Hergé – traço limpo, sem grande diferenciação das linhas na arte-final, com cenários detalhados, personagens cartunescos e histórias de narrativa direta – já estava definido e consagrado. No pós-guerra, o autor seria o sinônimo das HQs europeias.

O Jornal de Spirou e a Robbedoes também tiveram que abandonar suas tiras americanas. Com a invasão, Rob-Vel ficou impossibilitado de enviar suas tiras para a Bélgica, e quem deu continuidade a Spirou foi Joseph Gillain, mais conhecido como Jijé. Ele deixou sua marca no personagem e foi o criador (junto com Jean Doisy) de Fantasio, companheiro de Spirou, que surgiu em 1942. As aventuras de Spirou e Fantasio são publicadas até hoje.

Arte de Jijé Inicialmente, Jijé tinha um estilo parecido com o de Hergé – uma das razões pelas quais é considerado o “pai” das HQs belgas -, mas em pouco tempo desenvolveu seu traço com bastante personalidade.

Nos anos seguintes, Spirou e Robbedoes foram diminuindo suas publicações gradualmente, devido à escassez de papel. Por volta de 1944, lançavam apenas um ou outro almanaque para empregar seus artistas (e evitar a deportação dos mesmos para a Alemanha) e para manter um tênue vínculo com seus leitores.

Juntos, Hergé e Jijé já foram comparados pelo desenhista Tibet, respectivamente, ao pai e padrinho das HQs.

Hergé voltaria a publicar as aventuras de Tintim em 1946, a convite de Raymond Leblanc (1915-2008), fundador da editora Le Lombard (cujo prédio pode ser visto aqui) e veterano da resistência antinazista, que lhe oferece a oportunidade de criar sua própria “revista”, o Journal de Tintin (Kuifje, em holandês), cuja primeira edição foi publicada em 26 de setembro de 1946.

Arte de Joost SwarteAcompanhavam Hergé na revista: Edgar P. Jacobs (que iniciava a publicação de Blake e Mortimer), Jacques Van Melkebeke e Jacques Laudy (1907-1993).

Laudy é outro colaborador de Hergé, conhecido pela série Hassan et Kaddour e por suas adaptações literárias para as HQs, e serviu de inspiração a Jacobs para a criação do visual de Francis Blake.

Também passaram pelo Journal de Tintin: Jacques Martin, que em 1948 publica a primeira aventura de Alix; e Jean Graton, que lançaria Michel Vaillant em 1957; Bob de Moor; Roger LeLoup; Willy Vandersteen, com Bob et Bobette; Tibet, de Ric Hochet; Raymond Macherot, autor de Chlorophylle; Albert Uderzo e René Goscinny (os pais de Asterix), com Oumpah-Pah; e Dino Attanasio,
com Signor Spaghetti.

Arte de Joost SwarteMuitos artistas dessa turma são conhecidos como membros da chamada Escola de Bruxelas, desenhistas do estilo linha clara (De klare lijn, em holandês, ou ligne claire, em francês) – termo cunhado Joost Swarte em 1977 – fortemente influenciados por Hergé.

As características estéticas da linha clara são o traço simplificado, sem grande variação de espessura ou tratamento gráfico para diferenciar os elementos; o primeiro plano e o fundo (cenários) estão equilibrados em termos de importância visual.

A Escola de Bruxelas (que inclui nomes como Hergé, Jacobs, Bob de Moor e Martin) tem, além dos elementos da linha clara já mencionados acima, diálogos mais longos e detalhados,e balões de formato mais retangular.

Hergé também batia em outro ponto importante: a narrativa e o enredo diretos, sem complicações. Este aspecto, porém, nem sempre está presente nos artistas mais contemporâneos que fazem uso de elementos da linha clara. Alguns deles, como Jacques Tardi, algumas vezes até usam o recurso como contraste à narrativa complexa e labiríntica.

Arte de Joost SwarteA revista Spirou também tem um período de glória no pós-guerra, particularmente entre 1945 e 1960. Junto a Jijé estavam André Franquin, Victor Hubinon, Jean-Michel Charlier, Morris (Maurice de Bevere) e Eddy Paape.

Um almanaque de 1947 se tornou um clássico por trazer em suas páginas a primeira história completa de Franquin com Spirou (assumindo o trabalho de Jijé); e as aventuras iniciais de Lucky Luke, de Morris, Valhardi, de Eddy Paape. Ainda em 1947, Hubinon e Charlier criam Buck Danny.

Entre 1950 e 1960, passaram pela Spirou: Peyo (Pierre Culliford), que criou Johan et Peewit em 1952 e Os Smurfs, em 1958; René Follet; Marcel Remacle; Jean Roba (1930-2006), criador de Boule et Bill; e Maurice Tillieux (da série Gil Jourdan). Além disso, Franquin cria Marsupilami (em 1952), Jijé publica o faroeste realista Jerry Spring (em 1954) e Franquin introduz Gaston Lagaffe (em 1957).

Arte de Daniel Torres
Muitos desses autores eram discípulos de Jijé, e passaram a ser conhecidos, devido ao seu estilo, como a Escola de Marcinelle (cidade belga na qual fica a base da Spirou e sede da editora Dupuis).

A Escola de Marcinelle inclui nomes como Jijé, Franquin, Morris, Will (Willy Maltaite), Tillieux, Roba, Jidéhem (Jean De Mesmaker) e Gos (Roland Goossens); e se caracteriza, em termos estéticos, por balões mais arredondados, diálogos simples e espontâneos, e um traço energético e dinâmico.

Outro ponto importante é o humor, que em alguns casos chega a ser mais ácido, caótico e até anárquico.

Aliás, sobre o estilo de Jijé, em particular, vale dizer: foi ele que inicialmente mesclou a linha clara, de Hergé, com elementos de Art-Decô.

Em 1958, quando o Atomium foi construído, as duas grandes revistas de quadrinhos da Bélgica estavam em seu período de ouro e capturavam, de certa forma, o espírito do futurismo que dominava a Europa: o Journal de Tintin de maneira mais realista e direta, bem ao estilo da linha clara; e o Journal de Spirou de maneira mais agitada e dinâmica.

Journal de TintinDe um lado, Tintim e Spirou disputavam a atenção dos leitores. De outro, havia uma rivalidade saudável entre os artistas de diferentes estilos e “escolas”.

Esta fase de ouro dos quadrinhos belgas, que era em sua grande parte infanto-juvenil, influenciou algumas gerações de artistas, tanto na França (e outros países de língua francesa) quanto nos Países Baixos.

Um exemplo disso foi a criação da Pilote, em 1959, revista francesa na qual nasceu Asterix, das mãos de Renée Goscinny e Albert Uderzo, dois autores que já haviam colaborado tanto com a Spirou quanto com o Journal de Tintin (no qual sua passagem foi mais significativa).

A Pilote era mais internacional. Por suas páginas passaram não apenas franceses e belgas como Goscinny, Jean-Michel Charlier, Greg, Pierre Christin, Jacques Lob, Jijé, Morris, Uderzo, Jean (Moebius) Giraud, Jean-Claude Mézières, Jacques Tardi, Philippe Druillet, Marcel Gotlib, Alexis e Annie Goetzinger, mas também italianos, ingleses, sérvios e americanos como, respectivamente, Hugo Pratt, Frank Bellamy, Enki Bilal e Robert Crumb.

Aliás, dois artistas franceses influenciados diretamente por Jijé, mas que não pertencem à Escola de Marcinelle são Jean Giraud (Moebius) e Jean-Claude Mézières.

Giraud, que havia colaborado com Jijé no faroeste Jerry Spring, ilustrou o tenente Blueberry, em Fort Navajo (com roteiro de Jean-Michel Charlier), aventura que surgiu na Pilote. Moebius, Charlier e Mézières são exemplos de autores que fizeram parte da pequena revolução francesa de 1960 e 1970, relativa aos quadrinhos de ficção cientifica, com temas para um público mais adulto.

Cobi Nada simboliza mais essa revolução do que a revista Métal Hurlant, também conhecida como Heavy Metal, lançada em dezembro de 1974 por Jean Giraud, Philippe Druillet, Jean-Pierre Dionnet e Bernard Farkas.

E aqui voltamos à questão dos estilos. A coluna Do Anything, de Warren Ellis, é um monólogo onírico que mescla literatura, música, quadrinhos e arte; e que, em função disso, frequentemente aborda questões relativas a estilos, tendências, futurismo, o moderno e o pós-moderno.

Jack Kirby, Phillip K. Dick, Phillip Druillet (um dos futuristas da Métal Hurlant) são nomes que Ellis dispara no éter, relacionando criadores e criaturas com eventos aparentemente isolados. Ligando Star Wars a Druillet; e Darkseid (dos Novos Deuses) a Darth Vader; Lone Sloane, de Druillet, aos Novos Deuses, de Kirby; e assim por diante.

Num episódio, Ellis relembra sua passagem por Paris tendo Dionnet (outro futurista da Métal Hurlant) como guia turístico. Mais adiante, retorna a Druillet, Phillip K. Dick e Jack Kirby.

Mas se o futuro está a nossa frente, ele nunca está tão presente quanto no retrô futurista, fortemente inspirado na década de 1950, com a guerra fria e a ameaça nuclear, a corrida espacial, Phillip K. Dick e a estética da linha clara.

Arte de Ever MeulenEllis associa o ano de 1977 a Star Wars, Phillip Druillet e Swarte, que usa o Estilo Atômico para definir o trabalho de artistas de sua época calcados nas tendências e estilos dos quadrinhos franco-belgas de 1950.

É dessa mescla de passado e futuro, da estética limpa (linha clara) aliada à dinâmica e ao anarquismo da Escola de Marcinelle e à influência de Jijé (e sua mistura de linha clara e art-decô), que surge o Estilo Atômico.

O termo Estilo Atômico (Atoomstijl), foi cunhado em 1977, juntamente com a linha clara, por Joost Swarte, que, aliás, é um dos grandes expoentes desta tendência.

Anton Makassar Aliás, Swarte definiu a linha clara como o mais importante estilo estético e conceitual desenvolvido nos quadrinhos europeus. Já sobre o Estilo Atômico, comentou que é algo que ressurge momentaneamente, de tempos em tempos, quando existe uma necessidade.

Swarte publicou uma história com o personagem Anton Makassar, um pedante historiador e crítico de arte que explica ao leigo inculto Pierre van Genderen sobre o Estilo Atômico, seus exemplos, as publicações da Dupuis (uma referência a Spirou), Ever Meulen, Javier Mariscal e o Atomium.

Formado em desenho industrial, Joost Swarte começou a fazer quadrinhos no final da década de 1960, na cena underground holandesa, não apenas em sua própria revista, a Modern Papier, mas também em títulos como Tante Leny Presenteert (Tia Leny Apresenta).

Anton Makassar Seu personagem mais conhecido é Jopo de Pojo. E embora ele tenha um grande volume de quadrinhos publicados, seu trabalho com design (um dos elementos mais importantes do Estilo Atômico) é até mais extenso. O autor criou selos, cartazes, postais, capas de revistas, LPs e CDs,
vitrais e até edifícios.

O trabalho de Swarte logo se espalhou pela Europa e pela América do Norte – ele é um antigo colaborador da revista Raw, de Art Spiegelman (de Maus) e sua esposa Françoise Mouly (que é diretora de arte da New Yorker). Os três se conheceram numa visita do casal a Amsterdã, nos Países Baixos, na qual Swarte serviu de guia, não apenas da cidade, mas também da cena de quadrinhos local.

Raw A Raw, importante revista da cena independente dos quadrinhos estadunidenses, reimprimiu durante alguns anos o trabalho de artistas holandeses, como Swarte, que chegou até a ilustrar a capa.

Do outro lado do Atlântico, de volta à Inglaterra de Warren Ellis, Paul Gravett editava a revista Escape, antologia de quadrinhos da década de 1980 que contém alguns dos trabalhos de Swarte.

O envolvimento de Gravett – jornalista e editor de HQs considerado por Warren Ellis como o melhor “comentarista” de quadrinhos na língua inglesa – com o estilo atômico vai mais além de seu trabalho na Escape. Gravett é o curador das duas exposições atualmente sendo exibidas no Atomium.

Arte Joost Swarte Para Gravett, os cinco representantes clássicos do “Estilo Atômico da década de 1950” são: Jijé, André Franquin, Will, Jidéhem e Maurice Tillieux. Foram eles que entenderam que era preciso abraçar a modernidade no pós-guerra e dar esperanças e sonhos aos leitores que viviam na realidade da Europa devastada por duas guerras mundiais seguidas.

Alguns dos leitores das HQs desses artistas se tornariam nomes importantes para o estilo atômico moderno.

Gravett selecionou sete artistas, que chama de Os Sete Magníficos (numa brincadeira clara com o faroeste Sete Homens e Um Destino). São eles:

Joost Swarte, dos Países Baixos, o homem que deu nome tanto à linha clara quanto ao estilo atômico e, de quebra, criou uma versão rockabilly de Tintim, com Jopo de Pojo.

Arte de Javier MariscalJavier Mariscal, espanhol (valenciano) perseguido por seus quadrinhos hippies durante a repressão do regime franquista (teve que fugir de Barcelona para Ibiza), mas que floresceu depois da morte de Franco, em 1976. O autor fez vários trabalhos para a revista El Víbora, que surgiu em 1979.

Também é de Mariscal a mascote dos Jogos Olímpicos de 1992, o cachorro Cobi. O autor e Swarte se conheceram em 1978, em Barcelona. Ambos já fizeram capas para a revista New Yorker, da qual Mouly é diretora de arte.

Daniel Torres, outro valenciano, é o terceiro nome da lista. Colaborador assíduo das revistas El Víbora e Cairo, ele é conhecido por séries como Opium e Triton (do herói Rocco Vargas). Yves Chaland (1957-1990), francês de Lyon, é o quarto do rol. Ele colaborou com a Métal Hurlant, de Druillet e Moebius, e criou Bob Fish e Freddy Lombard. Seu trabalho mais relevante dentro do estilo atômico é Adolphus Claar (de 1983), claramente inspirado em Spirou et l’aventure, de 1947 (ilustrado por Jijé), e Spirou: Radar le robot, do mesmo ano, mas desenhado por Franquin.

Arte de Ever MeulenEver Meulen (Eddy Vermeulen), belga da região de Flandres, é o quinto da lista. Ele é o artista elegante, para quem o estilo atômico é não apenas uma questão de arte e design, mas também um estilo de vida. Suas inspirações incluem nomes das Escolas de Bruxelas (Hergé, Jacobs) e Marcinelle (Jijé), e também pintores como Giorgio de Chirico, M. C. Escher, René Magritte, Pablo Picasso e o designer francês Raymond Loewy (outro nome muito citado por Ellis em Do Anything).

Meulen começou sua carreira na publicação holandesa Tante Leny, mas foi na revista Humo que demonstrou todo seu potencial. O artista publicou tanto na Raw, quanto na New Yorker e foi criador do logo para Atomium 58, da Magic Strip.

Arte de Serge Clerc Curiosamente, Hergé, André Franquin, Ever Meulen e Swarte moraram em Bruxelas na mesma época, durante o início da década de 1980.

Segundo Gravett, o francês Serge Clerc é o sexto homem do estilo atômico, pois foi influenciado tanto pelos belgas da década de 1950, por Moebius e Dionnet e pela Métal Hurlant, quanto pelos americanos, como Jack Kirby e Will Eisner.

Sua carreira o levou para perto da música e seus quadrinhos estão repletos de bares, músicos e pin-ups. A associação de Clerc com a música se estende até o New Musical Express, ou NME (principal veículo londrino sobre o assunto), para o qual fez várias ilustrações.

Arte de François Avril
Quem fecha esse elenco, para Gravett, é o parisiense François Avril, que curiosamente foi colega de escola de Charles Berberian e, depois de descobrir a linha clara e os artistas da Métal Hurlant, se torna amigo de Yves Chaland, que lhe abre os horizontes. Seu primeiro trabalho, Sauve qui peut, foi feito junto com Berberian. Doppelgänger SA foi seu primeiro álbum solo.

A lista, é claro, não termina aqui. Podem ser incluídos nela artistas como Ted Benoît, Frank Margerin, Dodo, Floc’h (Jean-Claude Floch) e Ben Radis, que também participaram da reforma dos quadrinhos franceses do início da década de 1980.

Nos anos 1980, o estilo atômico já havia cruzado os oceanos e influenciava artistas como os canadenses Dean Motter e Paul Rivoche, da série Mister X.

Arte de Jacques Tardi Mas existem muitas diferenças entre os trabalhos dos artistas acima, mesmo que unificados pelo estilo atômico. Por exemplo: enquanto Joost Swarte e Ted Benoît revitalizaram o estilo de Hergé; e Floc’h, o de Edgar P. Jacobs; Yves Chaland seguiu outra trilha, mais ligada aos artistas da Escola de Marcinelle (particularmente Jijé, Franquin e Tillieux).

No início da década de 1980, os franceses Yves Chaland, Serge Clerc e Luc Cornillon se encontraram com os irmãos Daniel e Didier Pasamonik (hoje diretor geral da Hachette BD), da editora Magic Strip e publicaram histórias nos dois primeiros volumes da coleção Atomium 58, de 1981, que hoje conta com mais de 25 álbuns.

Arte de Serge Clerc Aliás, todos os artistas da lista de Gravett foram publicados na Atomium 58, que serve quase que como um catálogo do estilo atômico.

As exposições do Atomium, sob curadoria de Gravett, são instigantes. E o já citado holandês Joost Swarte, que criou as expressões De klare lijn/ligne claire (linha clara, em português) e Atoomstijl (estilo atômico) em 1977, é um dos grandes expoentes do estilo atômico.

14 Visões do Atomium apresenta aos visitantes imagens do Atomium interpretadas por 14 artistas diferentes, alguns deles associados à linha clara ou ao estilo atômico: Joost Swarte (veja o site do artista), François Avril, Ever Meulen, Floc’h, Ted Benoît, Philippe Berthet, Dupuy e Berberian, Vittorio Giardino, Jean-Claude Götting, André Juillard, Loustal, Frank Pé, François Schuiten e Bernard Yslaire.

Ted Benoît Exibida numa das esferas construção atômica, 14 Visões do Atomium apresenta os artistas e suas visões do Atomium em grandes painéis dispostos de maneira circular, num clima bastante reminiscente tanto da década de 1950, quanto de um cenário de ficção, uma vez que o Atomium também é um museu de si mesmo e da Expo 58.

Todas as imagens podem ser adquiridas como cartões postais na lojinha do museu. Além disso, também estão à venda álbuns e livros de artistas e assuntos relacionados ao Atomium, Bruxelas, linha clara e estilo atômico.

Arte de Yves Chaland Para visitar Em Busca Do Estilo Atômico, é necessário circular por dentro do Átomo, passando por escadas estáticas e rolantes inseridas nos tubos que conectam as esferas.

Em Busca Do Estilo Atômico usa painéis explicativos e telas arredondadas (num clima bem retrô) para apresentar os artistas das décadas de 1970 e 1980 que se apossaram da linha clara e a misturaram ao espírito dinâmico da década de 1950 (representado tanto por praticantes da chamada Escola de Bruxelas, quanto da Escola de Marcinelle), tudo com um grande senso de design.

A mostra conta, entre outros, com trabalhos de Swarte, Ever Meulen, Yves Barge, Serge Clerc, Daniel Torres e Javier Mariscal.

Arte de Daniel TorresO estilo atômico definido por Swarte é uma fusão de elementos estéticos e conceituais. É uma tendência na qual o design costuma ser um elemento tão importante quanto o próprio desenho, que pode ser fluído e elegante ou geométrico remetendo a art-decô. E apresenta ordem e anarquia dentro de uma visão de um futurismo retrô que nos projeta não só aos anos de 1950 (simbolizado pelo Atomium) como a décadas anteriores, como 1920 e 1930.

Hoje, a linha clara e o estilo atômico fazem parte da globalização. Swarte, Meulen, Jacques Tardi, Peter van Dongen, Martin Handford, Geof Darrow, Jason Lutes, Jason Little, Francesc Capdevila Gisbert (Max), Antonio Lapone, Grégoire Bouchard, Laurent Cilluffo e Chris Ware são nomes que podem ser associados facilmente a um desses estilos.

Jimmy Corrigan, the Smartest Kid on Earth Chris Ware (Franklin Christenson Ware), considerado por muita gente como o mais importante desenhista em atividade nos Estados Unidos (já venceu o prêmio Eisner nove vezes), também foi, como outros artistas mencionados, colaborador da revista Raw, de Spiegelman e Mouly, e capista da prestigiada New Yorker.

Ware, criador das séries Acme Novelty Library e Jimmy Corrigan, the Smartest Kid on Earth, parece ter chegado ao estilo atômico por caminhos completamente diferentes, mas usando algumas das mesmas influências primordiais que despertaram o interesse de Hergé nas décadas de 1920 e 1930, como Krazy Kat. Ware também cita como influências Winsor McCay (Little Nemo) e Frank King (Gasoline Alley).

Um senso de nostalgia e design meticuloso de todos os elementos, da cor ao uso dos balões, características importantes do estilo atômico, são a chave da obra de Ware.

Alguns importantes trabalhos de Ware serão publicados no Brasil, em breve, pela Companhia das Letras, no selo Quadrinhos na Cia.

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Sérgio Codespoti visitou o Atomium e as exposições organizadas por Paul Gravett sem imaginar que seria transportado no tempo para um universo em que presente, passado e futuro se confundem nas linhas precisas dos aeroplanos e nas curvas arredondadas das mulheres robóticas, enquanto o blues e o hard bop servem de trilha sonora da eternidade. Ele ainda está à espera do Cadillac rabo-de-peixe que vai levá-lo de volta à sua realidade.

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