Adeus, ano velho…

Por Samir Naliato
Data: 1 dezembro, 2001

X-Men #1, Panini ComicsO
ano de 2002 chegou ao fim e, quando o assunto é quadrinhos, podemos resumir
em apenas uma palavra: mudança. Isso mesmo! O mercado de HQs passou por
grandes modificações no ano que terminou, trazendo boas e más notícias.

Por isso, neste começo de ano, nada melhor do que uma retrospectiva, concorda?

Mal começou 2002, e a Panini
Comics
estreou no mercado, publicando os personagens da Marvel
Comics
em seis revistas mensais.



Superman#1, Editora AbrilA
Editora Abril continuou com os heróis DC
Comics
por mais seis meses, mas, após 23 anos no mercado, resolveu
colocar um ponto final nesta trajetória, cancelando
todos seus títulos
.

Com isso, Super-Homem, Batman & cia ficaram sem editora. Mas não por muito
tempo. Após alguns meses de disputa dos títulos, a Panini herdou
as publicações
, tomando assim o lugar que, até dezembro de 2001, era
da Abril. As primeiras edições chegaram
no final do ano
, e a multinacional italiana passou de seis para mais
de 12 títulos, em um ano.

Dylan Dog #1, Mythos EditoraEssas
alterações provocaram uma nova divisão entre as editoras brasileiras.
A Panini ficou responsável pelos principais personagens Marvel
e DC, enquanto a Mythos
Editora
ficou numa posição privilegiada, assumindo várias publicações
que, até então, a Abril não permitia que fossem liberadas, como
a série Túnel do Tempo, materiais clássicos e até mesmo várias
obras inéditas.

Outra boa iniciativa foi a Mythos investir
mais nos fumetti
(quadrinhos italianos), ampliando bastante
a base de publicações desse tipo de material.

Astro City #1, Pandora BooksA
Pandora Books
tornou-se responsável pelo Universo WildStorm, que inclui Authority,
Planetary e o selo ABC, de Alan Moore. A editora também
ofereceu aos leitores outras opções, com a volta de Estranhos
no Paraíso
e Groo, mais
Sin
City
e as esperadas estréias de Astro
City
e Star Wars.

A Brainstore
ficou como a principal encarregada da Vertigo, com títulos
como Os Invisíveis, Transmetropolitan, Preacher
e Sandman; além dos "anti-heróis" da DC,
nos títulos Lobo, Hitman e Dark Heroes. A
Opera Graphica
também publicou alguns títulos da linha Vertigo.

Mangás e livros

Yu Yu Hakuso #2, Editora JBCOs
mangás continuaram com força total. A Conrad
e a JBC
continuam sendo as principais editoras neste segmento, expandindo o mercado
com novas revistas, como One Piece, Dr. Slump, Fushigi
Yûgi
, Yu Yu Hakusho, A Princesa e o Cavaleiro, Love
Hina
e outros.



A Panini também entrou na briga com Gundom Wing, e promete
mais para 2003, enquanto a Opera Graphica lançou GUNM
– Battle Angel Alita
. Novos materiais também podem chegar ao Brasil
pela editora.

Front #12, Via LetteraA
Editora Abril tentou com Medabots, mas parece ter sido uma
experiência frustrada. Preferiu concentrar suas forças em títulos voltados
para o público infantil, com Disney e a linha Cartoon Network.

A Conrad também se destacou com sua divisão de livros, lançando
Fritz the Cat, Mangaka
– Lições de Akira Toriyama
e A Última
Noite de Casanova
e romances, incluindo Deuses
Americanos
, de Neil Gaiman; e A
Voz do Fogo
, de Alan Moore.

Falando em romances, destaque para As Incríveis Aventuras de Kavalier
& Clay
(Editora
Record
), de Michael Chabon, obra vencedora
do Pulitzer Award
em 2001, que conta a vida de dois jovens
quadrinhistas durante a Era de Ouro dos quadrinhos americanos.

O Hobbit, DevirA
Via Lettera
continuou atacando em um front diferente… literalmente. Com seus
lançamentos em formato álbum, materiais independentes e nacionais chegaram
às livrarias e comic shops, incluindo a conclusão de Do Inferno;
o lançamento Estrada para a Perdição; o belo álbum sobre futebol
Dez na área, um na banheira e ninguém
no gol
; quatro novos volumes de Front,
uma coletânea de histórias produzidas por artistas brasileiros de todo
o País; e o livro Fumaça e Espelhos,
de Neil Gaiman.

Com o sucesso do filme O Senhor dos Anéis, a Devir
trouxe a adaptação em quadrinhos do romance O Hobbit,
de J. R. R. Tolkien, além de outras encadernações,
como O Peregrino e Aria.

HQs Nacionais

As Aventuras de Nhô-Quim & Zé Caipora - Os Primeiros Quadrinhos Brasileiros2002
também pode ser o início do ressurgimento do quadrinho nacional, ainda
que de maneira segmentada. Várias editoras lançaram materiais de artistas
brasileiros, e outras pretendem dar uma chance para este nicho em 2003.
A Panini já anunciou Combo Rangers,
(que havia sido cancelado pela JBC).

A Opera Graphica, Editora Escala, Devir e Via
Lettera
foram as principais editoras neste assunto. Entretanto, a
maioria dos materiais continua saindo de forma independente, seja em grandes
projetos ou em fanzines.

No ano que passou foi publicado a espetacular coletânea As
Aventuras de Nhô-Quim & Zé Caipora – Os Primeiros Quadrinhos Brasileiros
,
uma obra de resgate da memória da nona arte brasileira, feita por Athos
Eichler Cardoso, com o apoio do Senado Federal.

Contos em QuadrosNo
caminho de usar as HQs para falar da história de nosso País, a Editora
Marques Saraiva
entrou no mercado com Zumbi,
a Saga de Palmares
e O Segredo de
Jurema
.

Outra boa iniciativa foi Contos em Quadros.
Enquanto o projeto de transpor para os quadrinhos os contos de Machado
de Assis ainda não conseguiu entrar na sua fase final, Célia Lima (adaptação),
J. Rodrigues (desenhos) e Djalma Cavalcante (organizador) lançaram a primeira
do que se espera ser muitas edições adaptando contos de grandes autores
da literatura. No número de estréia, Pai Contra Mãe, de Machado
de Assis; O Bebê de Tarlatana Rosa, João do Rio; e Apólogo Brasileiro
sem Véu de Alegoria
, António de Alcântara Machado.

Flavio ColinMas
há também o lado ruim. Um dos mestres dos quadrinhos nacionais, Flavio
Colin, morreu em 2002. Ele se
foi quase esquecido, com poucos trabalhos para fazer. Colin vivia de aluguel
com sua esposa em Teresópolis, e estava fazendo quadros e esculturas para
tentar ganhar o que não conseguia com sua maior paixão: as HQs.

A ida de Flavio Colin nos deixa várias
coisas para pensar. Lamentar após a partida de uma pessoa como ele não
basta. Muitos outros ainda têm muito a oferecer, e, antes que tenhamos
que lamentar outra perda, devemos enaltecer seus trabalhos. Jamais
esquecer deles
, seja em vida ou em morte.

Enquanto isso, lá fora…

Neil GaimanNos
Estados Unidos, tivemos uma grande movimentação nos tribunais. A primeira
foi a vitória de Neil Gaiman sobre Todd McFarlane
sobre os direitos das personagens Angela, Cagliostro e Spawn Medieval.
Agora, o próximo passado do autor britânico é tentar reaver Miracleman.

Já Stan Lee, co-criador do Universo Marvel, resolveu entrar com
um processo contra a “Casa das Idéias”,
mas, nesse caso, não é para reaver o controle dos personagens, mas sim
cobrando dívidas da editora.

PeanutsAinda
na área dos tribunais, Joe Simon, o criador do Capitão América, ganhou
o direito de continuar lutando pelo copyright
do personagem.

Já os responsáveis por Peanuts querem
reaver artes originais de Charles Schultz
que estão no International
Museum of Cartoon Art
, mantido por Mort Walker, criador do Recruta
Zero.

E ainda teve mais!

Pontos positivos:

Homem-Aranha, o filme
A Mythos publicou JLA:
The Nail
e já anunciou JLA: World
War III
, duas histórias muito aguardadas pelos leitores, mas ignoradas
pela Editora Abril.

– A Panini assumiu as revistas DC apresentando algumas histórias
puladas pela Abril. Entre elas as da Liga da Justiça e a prometida
Action Comics #775.

– Os quadrinhos brilharam no cinema. Homem-Aranha
foi o maior sucesso da temporada, e teve as boas companhias de Do
Inferno
, Asterix & Obelix:
Missão Cleópatra
e um dos favoritos ao Oscar, Estrada
para a Perdição
. No Brasil, o personagem Gralha
também se aventurou
num curta-metragem.

100 Balas #9
E nem só no cinema os quadrinhos foram destaque. Na telinha o sucesso
chegou com Smallville, Birds of Prey e desenhos animados,
como Liga da Justiça Animated e X-Men Evolution;

– Lourenço Mutarelli completou a trilogia (de quatro partes) do Detetive
Diomedes com outra grande história, em A
Soma de Tudo – Parte 2
.

– O CLUQ – Clube dos Quadrinhos, sob o selo Tapejara, felizmente,
continuou lançando os belos álbuns de Ken
Parker
.

– No ano em que se comemora 25 anos desde que o primeiro filme foi lançado,
as revistas em quadrinhos de Star Wars finalmente chegaram por
aqui, tanto nas histórias da Dark Horse (pela Pandora),
quanto nos mangás (JBC);

Vagabond #12
A excelente série 100 Balas (Opera Graphica), e Vagabond
(Conrad), que é um dos melhores mangás sendo publicado atualmente
no Brasil.

– A Linha Econômica, da Panini. Com revistas cada vez mais
caras, a editora foi uma das poucas que procurou alternativa para revistas
mais baratas. Pena que quatro meses depois já houve aumento nos preços,
mas a iniciativa continua sendo muito boa.

Era uma Vez FH, de Chico Caruso,
uma coletânea de charges que conta, com muito bom humor, os oito anos
de governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

– A inauguração do primeiro Museu de Artes
Gráficas
do Brasil.

Pontos negativos:

DC Millennium #5
Está cada vez mais difícil para os leitores brasileiros acompanharem os
preços cobrados pelas editoras nacionais. Algo precisa ser feito para
tornar os quadrinhos mais acessíveis economicamente, e para alguns dos
abusos praticados no último ano serem banidos definitivamente.

– Como se não bastasse a tendência dos últimos anos em cobrar altos valores
pelas revistas, o dólar sofreu uma disparada em 2002, obrigando as editoras
a reajustarem seus preços.

– Uma pena a Brainstore ter cancelado a revista DC Millennium
por causa da nova divisão de títulos da DC Comics entre as editoras
brasileiras.

– Os constantes atrasos no lançamento de várias revistas.

Cavaleiro das Trevas 2
Cavaleiro das Trevas 2 acabou sendo um dos lançamentos mais decepcionantes.
Frank Miller não conseguiu agradar boa parte dos leitores, ao se afastar
do conceito da série original.

– Revistas com impressões ruins e erros de português. Um cuidado maior
nunca é demais.

– A ausência de Bone nas livrarias e comic shops. Os fãs já estão
com saudades da obra de Jeff Smith.

– A Panini ter interrompido uma saga do Capitão América sem conclusão
e cortando páginas, mesmo garantido que isso não aconteceria.
A fase era ruim, mas deixar uma trama pela metade é tão ruim quanto, e
os leitores que estavam acompanhando deram falta.

– A Editora Abril sair do mercado. É sempre ruim ver uma editora
de grande porte diminuindo o investimento nos quadrinhos. Uma pena também
que este final apresentou um certo desleixo da editora, pulando várias
histórias e deixando histórias incompletas.

E assim foi 2002!

Existe algum fato que você acha que mereceria destaque, mas que não está
aqui? Basta mandar um e-mail
com sua opinião. A próxima coluna terá um espaço para você, leitor, dizer
o que mais lhe marcou em 2002.

E na próxima coluna: … Feliz (?) Ano Novo, com o que se pode
esperar para 2003 por parte das editoras e do mercado. Ou, pelo menos,
o que seria bom que viesse a acontecer! Então, até lá!

Samir Naliato
bem que gostaria de ter grana para comprar tudo que saiu em 2002. Mas,
peraí! Você conhece alguém que conseguiu essa façanha?

 

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