As HQs de Natal no Brasil

Por Marcus Ramone
Data: 7 dezembro, 2015

Durante décadas, eles eram aguardados com ansiedade pelos fãs de quadrinhos. Mas hoje, poucos e resumidos a um limitado universo de personagens, os gibis especiais de Natal são apenas sobreviventes de uma era de ouro.

 

Desde os primórdios das revistas em quadrinhos no Brasil, sempre foram comuns as edições especiais natalinas dos títulos que circulavam nas bancas.

A partir dos anos de 1930, pipocavam os especiais de fim de ano de publicações como Gibi, Mirim e Globo Juvenil, da Rio Gráfica; Superman, Tarzan, O Herói e Reis do Faroeste, da Ebal; O Guri, da editora O Cruzeiro. Não importava o gênero, lá estavam eles, em dezembro, às vezes maiores e com mais páginas do que o normal, à espera de seus ávidos leitores.

O Globo Juvenil

A Edição de Natal do Gibi foi um bom exemplo disso. Em 1946, apresentou, nas suas 260 páginas, uma miscelânea de fazer a alegria de qualquer fã: Trinca do Terror, Capitão Marvel Jr., Tereré, Namor, Super-Homem, Tocha-Humana, Sherlock Mirim, Heróis Unidos (aventura reunindo Capitão América, Bucky, Miss América, Ciclone, Namor, Tocha-Humana e Centelha) e vários outros.

“Muitas vezes, quem não podia ter mensalmente seu gibi favorito, economizava uma parte da mesada para comprar um ou dois desses especiais, que eram guardados como tesouros”, afirma Toni Rodrigues, roteirista da extinta HQ Mestres do Terror e um colecionador contumaz de revistas em quadrinhos.

Dezembro era mês de muita expectativa. Esperava-se as edições natalinas como o Vida Infantil, com Lourolino & Remendado, ou o Almanaque O Globo Juvenil, que combinava aventuras em preto e branco e coloridas.

Luluzinha 54 Editora Abril

Embora essas edições tivessem capas alusivas ao Natal, não era sempre que continham aventuras natalinas. Foi no início dos anos 1960 que começaram a surgir, com mais intensidade, os especiais compilando exclusivamente histórias desse gênero.

A grande variedade de gibis infantis disponíveis no mercado brasileiro contribuía para isso. Brasinha, Pimentinha, Recruta Zero, Riquinho e diversos outros ganhavam seus especiais com muita frequência. “Eu adorava os gibis de natal de Tom & Jerry que a Ebal lançava todo fim de ano. Inclusive, a revista mensal estrelada pela dupla chamava-se Papai Noel“, disse o veterano quadrinhista e escritor Primaggio Mantovi, que nos anos 1970 foi coordenador do Centro de Criação do Grupo de Publicações Infantojuvenis da Editora Abril.

Dessa época, o Almanaque Infantil Feliz Natal merece destaque. Publicada pela RGE, a revista tinha mais de 80 páginas coloridas e um apuro gráfico que incluía capa cartonada e envernizada. Em suas páginas era possível encontrar personagens dos mais diferentes universos, como Recruta Zero, Brucutu, Bolota e vários outros.

Natal HB

Luluzinha e Bolinha, Riquinho, Pimentinha e os mais variados personagens infantis protagonizaram, durante anos, seus próprios especiais natalinos. Todos esperados pelos fãs com a mesma certeza de que o fim do ano chegaria.

Um dos mais assíduos em edições natalinas eram os personagens da Hanna-Barbera, nas editoras O Cruzeiro, RGE e Abril.

Os almanaques

Os anos 1970 deram início a duas publicações que permaneceram por muito tempo comparecendo às bancas em dezembro.

A primeira foi o Almanaque de Natal da Mônica, da Abril, que apresentava republicações e, eventualmente, alguma história inédita. O título seguiu até 1986, sendo interrompido quando Mauricio de Sousa e seus personagens se transferiram para a Editora Globo. Somente em 1995 a Turminha voltou a estrelar um gibi com o tema, o Mônica Especial de Natal.

Outra campeã de permanência nas bancas foi a revista Natal Disney de Ouro, com aventuras inéditas ou reeditadas. Estreou em 1979 e seu último suspiro aconteceu em 1998. Muitas vezes, as edições apresentavam as tradicionais histórias natalinas que Carl Barks produziu, durantes anos, com Tio Patinhas, Donald e os sobrinhos.

Almanaque de Natal da Mônica

Também da Disney, o Grande Almanaque de Natal marcou época. Em formato maior, com capa cartonada e centenas de páginas com histórias e passatempos, o título na verdade se alternava com o tema Férias e teve apenas cinco edições, entre 1985 e 1989.

Disney Especial, um dos títulos mais tradicionais dos quadrinhos brasileiros, também emprestou suas páginas ao Natal em algumas edições. A última vez foi em 2001, no segundo número da segunda série (que foi cancelada no começo de 2004).

Primaggio Mantovi, que já criou histórias natalinas do Recruta Zero (para a RGE, na década de 1960) e de vários personagens Disney nos anos seguintes, revela uma curiosidade: “Nos quadrinhos havia sempre árvores de Natal da altura do teto. Para enfeitá-las, o personagem precisava de uma escada. Uma das maiores satisfações que tive, depois de adulto, foi justamente armar uma como aquelas.”

Grande Almanaque Disney de Natal

Natal macabro

Não só os quadrinhos infantis entraram no clima de Natal. Outros gêneros de HQ já produziram histórias nada aconselháveis a estômagos mais sensíveis.

Assim foi no gibi Calafrio # 49 (D-Art Editora, 1992), que apresentou a tétrica O homem que queria matar o Natal. A história ia de encontro a tudo que se estava acostumado a ver em matéria de quadrinhos natalinos.

Na edição especial Lobo versus Papai Noel (Metal Pesado, 1996), o último czarniano simplesmente matou o bom velhinho. E o mais pitoresco disso tudo é que o assassinato foi encomendado pelo… Coelhinho da Páscoa.

Em Spawn # 38 (Abril, 1998), a Cria do Inferno estrelou o assustador Um conto de Natal, no qual ela até pratica algumas veladas boas ações para dois garotos, mas não sem antes fazer jorrar o sangue de alguns infelizes ladrões.

Vertigo Inverno, publicado pela Opera Graphica, também apresentou histórias de terror e fantasia cujo cenário era o gelado Natal dos Estados Unidos. Com muito susto, sangue e morte.

Sangue também não faltou em Kris klaus – Papai Noel Casca-Grossa, lançado em dezembro de 2015. A HQ de Maurício Muniz e Joel Lobo mostrou o bom velhinho, violento em nível máximo, às turras com hordas de vampiros, numa aventura cheia de violência e humor negro.

Quadrinhópole

E não se pode esquecer da versão em quadrinhos de Papai Noel filho da puta, petardo musical da clássica banda de punk rock Garotos Podres. A música é uma das mais viscerais compostas pelos roqueiros paulistas e o adjetivo de baixo calão do título foi sutilmente mudado para “velho batuta” no disco de estreia do grupo, graças à malfadada censura que reinava naqueles tempos de ditadura militar no Brasil.

A HQ fez parte do especial natalino da revista curitibana Quadrinhópole, em 2006. Roteirizada por Leonardo Melo e desenhada por Joelson Souza, apresentava um Papai Noel “porco capitalista” que “rejeita os miseráveis”.

Mas os super-heróis deram sua contribuição para mudar esse clima nada amistoso, embora o resultado às vezes tenha sido de gosto discutível.

Em 1983, a Abril lançou Grandes Heróis Marvel # 2, apresentando o Natal do Homem-Aranha e outras histórias natalinas estreladas também por Luke Cage, Coisa e Vingadores.

A edição é hoje um clássico disputado por colecionadores, mesmo com seus roteiros não muito felizes e mostrando cenas toscas, como a dos fantasiados e coloridos heróis jogando bolas de neve uns nos outros – imagine um “mastodonte” como o Hulk numa singela brincadeira com Namor.

GHM2

E em Liga da Justiça # 2 (Panini Comics, 2003), o Homem-Borracha fez torcer o nariz dos leitores com uma aventura natalina bastante inusitada, cujo final leva a crer que o Papai Noel realmente existe no Universo DC. Ou, ao menos, ficou a dúvida se não foi o Caçador de Marte que aprontou uma brincadeira com o “borrachudo”.

Vale ainda registrar Batman Saga # 7 (Opera Graphica, 2004), com A noite em que Batman descansou, na qual, em plena véspera de Natal, o Cavaleiro das Trevas canta músicas natalinas com o coral da polícia de Gotham.

Antes disso, os fãs do Morcegão viram o herói caçar um Papai Noel no especial As Várias faces de Batman (Abril, 1989), numa HQ escrita por Denny O´Neil e desenhada pelo então novato Frank Miller.

E a luta contra o crime também não parou em Juiz Dredd – Especial de Natal, que a Mythos lançou em 2013. Foram sete HQs produzidas por grandes nomes dos quadrinhos, como Mark Millar e Steve Dillon, desfilando pelas 68 páginas da edição o estranho e não menos instigante espírito natalino na violenta cidade de Mega-City Um.

Juiiz Dredd Natal

Especiais em baixa

É certo que ainda se vê histórias avulsas sobre o Natal. Além disso, os escassos gibis infantis não deixam de retratar o tema em suas capas, no final do ano. Mas as coletâneas temáticas estão cada vez mais raras.

“Natal sempre foi época de as editoras lançarem edições especiais. Eram presentes muito cobiçados pelas crianças. Hoje, elas achariam ridículo ganhar algo assim”, opina Primaggio Mantovi.

Mas Mônica Especial de Natal, atualmente publicado pela Panini, tem ajudado a manter acesa a tênue chama das HQs natalinas. O título, composto só por republicações, era editado pela Globo e chegou a amargar três anos no limbo, até retornar em 2003. O que leva a uma constatação: durante esse período, simplesmente nenhum gibi especial de Natal foi publicado no Brasil!

Mônica Especial de Natal

Isso porque Natal de Ouro Disney, publicação da Abril, só começou a ser publicado em 2010 e, felizmente, não parou mais de chegar às bancas.

A baixinha dentuça de Mauricio de Sousa reservou outra grata surpresa em 2004. Mônica – Natal com a turma foi uma edição em formato magazine, com mais de 100 páginas em papel couché e somente com histórias inéditas.

Até então, havia sido a mais “luxuosa” revista em quadrinhos de Natal já lançada por aqui.

Mas, em novembro de 2015, a Abril publicou Contos de Natal, um álbum em capa dura e papel especial com 400 páginas recheadas somente de HQs produzidas por Carl Barks.

Foi o equivalente à estrela dourada no topo da árvore de Natal, para fechar o ano com um dos melhores lançamentos Disney dos últimos tempos.

Marcus Ramone deseja a todos uma feliz leitura de Natal!

Contos de Natal

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  • Adriano ferreira araujo

    Adorei a matéria. Tenho aliás, vários destes especiais. Bate aquele saudosismo.

  • Eudes Baima

    Perdi meu GHM n° 2 e hoje não há jeito de encontrar. A não ser a preço extorsivo.