Morreu Will Eisner, o mestre

Por Equipe UHQ
Data: 5 janeiro, 2005

Por Sidney Gusman e Sérgio Codespoti

O maior criador dos quadrinhos de todos os tempos faleceu no dia 3 de janeiro, mas deixa como legado uma série de obras fantásticas, capazes de conquistar várias gerações de leitores

 

As histórias em quadrinhos nunca mais serão as mesmas, pois perderam o seu maior criador. William Erwin Eisner, ou simplesmente Will Eisner, como milhões de leitores aprenderam a admirá-lo pelo mundo afora, faleceu, aos 87 anos, no dia 3 de janeiro, no Centro Médico da Flórida, em Lauderdale Lakes. em virtude de complicações após uma cirurgia, feita no dia 22 de dezembro, para colocar quatro pontes de safena.

O autor ainda trabalhava ativamente, e havia terminado recentemente seu último álbum, The Plot, que será lançado em breve pela editora W. W. Norton. No Brasil, a obra deve sair ainda em 2005, pela Companhia das Letras.

Eisner escreveu The Plot, com a ajuda de N. C. Christopher Couch e Benjamin Herzberg, para refutar o mito que cerca The Protocols of the Elders of Zion (Os Protocolos dos Sábios do Sião), um trabalho ficcional, criado por autores russos anti-semitas, que recentemente teve um surto de interesse e se espalhou pela internet. Nele, os escritores descrevem um plano judeu para dominação do mundo.

Will EisnerHawks of the Seas

Nascido em 6 de março de 1917, no bairro nova-iorquino do Brooklyn, Will Eisner era filho de imigrantes judeus. A experiência de vida, em Nova York, foi fonte de inspiração para grande parte de sua obra.

Seu interesse por arte surgiu durante o ginásio, e foi no jornal da escola De Witt Clinton, localizada no bairro do Bronx, que publicou seus primeiros trabalhos.

Sua estréia numa revista em quadrinhos ocorreu em 1936, em WOW What a Magazine!, que durou apenas quatro edições, e para a qual Eisner criou duas séries: Harry Karry e The Flame (que posteriormente se transformaria em Hawks of the Seas).

Com o término da WOW, o autor se reuniu com Jerry Iger (falecido em 1990 e cujo nome real era Samuel Maxwell Iger), o editor da revista, e juntos criaram o S. M. Iger Studios, em 1937, que depois ficou conhecido como Eisner-Iger Studio.

A obra mais famosa de Eisner neste período foi Hawks of the Seas, embora também tenha trabalhado com Sheena, a Rainha das Selvas, personagem criada por Iger, cuja primeira publicação aconteceu no tablóide inglês Wags. Só depois ela saiu nos Estados Unidos, pela Fiction House.

Wonder Comics # 1Doll Man

Em Sheena, Eisner assinava com o pseudônimo W. Morgan Thomas. Nessa época, alias, ele usou outros, como Willis Rensie (seu sobrenome lido de trás para frente) e Spencer Steel.

No mês de maio de 1939, aconteceu um fato marcante em sua carreira. A pedido de Victor Fox, dono da Fox Features Syndicate, Eisner criou Wonderman, uma cópia descarada do Super-Homem. A estréia foi em Wonder Comics # 1. No entanto, a National Periodicals (hoje DC Comics) agiu rápido e processou a concorrente por plágio. O personagem nem apareceu na segunda edição.

Chamado a testemunhar no tribunal, Will Eisner depôs contra Victor Fox, que perdeu a causa. Em virtude disso, o empresário, como vingança, se recusou a pagar pelo serviço, o que significou, em 1940, um calote de três mil dólares. Esta história é narrada, com nomes fictícios, no ótimo álbum The Dreamer, inexplicavelmente ainda inédito por aqui.

Este livro gerou, inclusive, uma belíssima exposição durante o III Festival de Humor e Quadrinhos de Pernambuco, chamada Will Eisner – The Dreamer, que pode ser conferida virtualmente no site do evento.

Will Eisner - The Dreamer

No decorrer dos anos, passaram pelo estúdio de Eisner e Iger jovens que depois se tornariam lendas dos quadrinhos, como Jack Kirby, Bob Kane, Lou Fine e muitos outros.

Esta parceria se encerrou em 1939, quando Eisner decidiu trabalhar para a Quality Comics. Jerry Iger permaneceu com o estúdio até 1955.

Surge o Spirit

Na Quality, o autor deu vida ao minúsculo super-herói Doll Man e Black Hawk, uma série sobre aviadores, que ganhou uma minissérie em 1990, por Howard Chaykin, publicada no Brasil pela Abril com o título Falcão Negro.

Contudo, foi fazendo um encarte formato comics de 16 páginas, que era distribuído para no suplemento de quadrinho dos jornais, que Eisner “se achou”. Nesse espaço, em 1940, surgiu seu personagem mais famoso, The Spirit. O protagonista era Denny Colt, um investigador de polícia que é dado como morto e se aproveita disso para combater o crime como um herói mascarado, de terno (que invariavelmente termina rasgado), chapéu, sem poderes, com muitas beldades “a fim” dele e que mora no cemitério de Central City.

Black HawkThe Spirit

Spirit fez tanto sucesso – chegou a atingir a marca de cinco milhões de leitores semanais -, que acabou emprestando seu nome ao suplemento. Curiosamente, o personagem só usava máscara devido a uma exigência dos empregadores de Eisner e, nas primeiras aventuras, chegou a ter um carro para combater o crime, que logo foi esquecido.

Mas o que diferenciava o combatente do crime de Central City eram as histórias, permeadas de “toques” geniais sobre os sentimentos humanos que Eisner dava ao leitor e, sem dúvida, os enquadramentos, a iluminação e a diagramação que o autor usava em cada página. Era cinema no papel. E dos bons!

Até seus coadjuvantes se destacavam, como os garotos Ébano e Gordura, o comissário Dolan, sua filha (apaixonada pelo herói) Ellen, as belas vilãs (como P’Gell, Silk Satin e Sandy Saref) e Gerhard Shnobble, um homem que fez apenas uma aparição, na qual queria voar, mas se tornou inesquecível.

Em 1942, Eisner foi recrutado para servir no exército americano, durante a Segunda Guerra Mundial, fazendo cartazes, ilustrações e tiras para divertir as tropas.

Assim, The Spirit foi interrompido. Depois retornou, mas como era desenhado e escrito por outros artistas, perdeu parte de seu prestígio. O personagem voltou em dezembro de 1945, pelas mãos de Eisner e seus ajudantes Jules Feiffer e Wallace “Wally” Wood, aí sim em grande estilo.

The Spirit

Spirit voltou a ser um sucesso e foi publicado até 1952, quando Eisner o abandonou em prol da American Art Company, companhia criada pelo autor, que prestava serviços comerciais criando quadrinhos, charges, ilustrações e material educativo para instituições, órgãos públicos, indústrias e as forças armadas. Ele permaneceu envolvido com este tipo de trabalho até a década de 1970.

No final da década de 1960, reimpressões e artigos de jornais começaram a instigar novamente o interesse do público por Eisner, culminando com o relançamento das histórias do Spirit, pelo editor holandês Olaf Stoop, na Royal Free Press, no início dos anos 70.

Em 1997, o herói foi homenageado na antologia The Spirit – The New Adventures, escrita e desenhada por grandes feras das HQs, como Dave Gibbons, John Wagner, Mike Allred, Neil Gaiman, Alan Moore, Ed Campbell, Paul Chadwick, Scott Hampton, Kurt Busiek e Mark Schultz, Daniel Torres, Moebius (que fez uma ilustração para a contracapa de uma edição), entre outros.

No Brasil, Spirit foi publicado muitas vezes, e sempre teve um público pequeno (em comparação com os grandes campeões de vendas), porém fiel. Suas histórias saíram em cinco álbuns pela L&PM e em revistas pela NG, Abril, Metal Pesado e Acme. Além disso, teve aventuras em títulos como Suplemento Juvenil, Globo Juvenil, Gibi Semanal, Eureka e Grilo. Em algumas dessas publicações, saiu com o nome traduzido – O Espírito.

The Spirit - The New Adventures

Mudança de rumo

Eisner estava pouco interessado em reviver as aventuras heróicas de sua juventude. Por isso, se dedicou por dois anos a um novo trabalho. O resultado, publicado em 1978, foi Um Contrato Com Deus e outras histórias de cortiço (originalmente lançado pela Baronet Books; e no Brasil pela Brasiliense) .

As quatro histórias que compõem Um Contrato Com Deus marcam o início de uma nova fase na carreira do autor, pois Eisner vendeu o trabalho ao editor ao classificá-lo como graphic novel (romance gráfico), um termo que se tornaria popular entre os fãs de quadrinhos a partir de então. Anos depois, o mestre ainda criaria outro sinônimo felicíssimo para quadrinhos: arte seqüencial.

Após Um Contrato com Deus, Eisner investiu nas histórias sobre pessoas comuns e os dramas do dia-a-dia, que ganhavam novos contornos no seu traço. Assim, publicou pela Kitchen Sink, diversas graphic novels, entre elas: The Dreamer e To the Heart of the Storm (No Coração da Tempestade, pela Abril), que são inspiradas na história de sua vida; The Building (O Edifício, na coleção Graphic Novel, da Abril), Life on Another Planet (Um Sinal do Espaço, série Graphic Album, da Abril), Invisible People (que inspirou, em 2002, no Rio de Janeiro, a peça teatral Pessoas Invisíveis) e Family Matter, ambos ainda não lançados por aqui.

Um Contrato com DeusUm Contrato com Deus

Pra se ter uma ideia da relevância de Um Contrato com Deus, em 1983, a Editora Lambiek lançou uma edição comemorativa de 15 anos da obra em idish.

Will Eisner era um exímio contador de histórias. E muito prolífero. Basta ver que a relação de suas obras tem outras preciosidades, muitas publicadas no Brasil, como New York – A Grande Cidade (a versão nacional tem uma página extra, sobre São Paulo), da Martins Fontes; O Último Dia no Vietnã, O Nome do Jogo, Avenida Dropsie: a Vizinhança, os três pela Devir, que deve lançar em 2005 The Minor Miracles (Pequenos Milagres); A Baleia Branca, O Último Cavaleiro Andante, A Princesa e o Sapo e Sundiata, pela Companhia das Letras, que promete para este ano Fagin, the Jew; e o inédito A Life Force.

The DreamerGraphic Storytelling & Visual Narrative

Com o passar do tempo, Eisner também se revelou um grande teórico, em dois excelentes livros sobre a linguagem das HQs: Quadrinhos e Arte Seqüencial (Martins Fontes) e Graphic Storytelling & Visual Narrative (Narrativas Gráficas, que sairá este ano pela Devir). Além disso, o autor ensinou quadrinhos na famosa School of Visual Arts, em Nova York.

Durante as várias visitas que fez ao Brasil, Eisner sempre enfatizou que era mais bem recebido aqui do que nos Estados Unidos. Ele tinha um carinho enorme pelo nosso país e fez grandes amigos, como o jornalista paulista Álvaro de Moya e o cartunista pernambucano Lailson de Holanda Cavalcanti.

E a afeição era recíproca. Basta lembrar que o autor foi tema do primeiro episódio da série de documentários Profissão Cartunista, produzido pela competente Marisa Furtado para a Scriptorium Filmes.

City People NotebookWill Eisner's John Law

Disparado o autor mais influente dos quadrinhos, o “pai” do Spirit ainda emprestou seu nome para o maior prêmio da indústria americana, o Eisner Awards, realizado anualmente na San Diego ComicCon. Em 1996, teve seu trabalho exposto num museu, como parte da exibição NYNY: City of Ambition. E está prevista para este ano a publicação, pela Dark Horse, de sua autobiografia Will Eisner: A Spirited Life.

Em 2002, a DC, que relançou a maior parte das graphic novels de Eisner, publicou The Will Eisner Compendium, uma edição que contém biografia, bibliografia, reviews, artigos e críticas, analisando minuciosamente a vida deste mestre.

Recentemente, outro personagem de Eisner foi revivido, pelas mãos do australiano Gary Chaloner. Trata-se de John Law, cujas aventuras são publicadas no site ModernTales.com.

Em dezembro de 2004, a IDW lançou uma edição encadernada com todas as aventuras de John Law escritas e desenhadas por Eisner.

Will Eisner no Brasil, entre Fernando Lima e J.J. Marreiro, durante entrevista para o UHQ.

O adeus

O velho mestre dos quadrinhos não será velado, pois odiava esse tipo de cerimônia. Ele será enterrado ao lado da filha Alice, falecida em 1969, vítima de câncer. Eisner deixou a esposa Ann e o filho John, além de milhões de fãs pelo mundo todo.

Com a morte de Will Eisner praticamente termina uma geração que trabalhou no início da formação da indústria dos quadrinhos, quando os super-heróis ainda eram originais e o formato comic estava nascendo.

O mundo dos quadrinhos perdeu sua maior e mais brilhante estrela. Não é exagero dizer que, aos 87 anos, Will Eisner era mais atual do que muitos jovens. Prova disso é o incontável número de autores que “bebem de sua fonte” ainda hoje. Durante décadas, ele influenciou artistas dos mais variados gêneros, nomes como Art Spiegelman (Maus) e Frank Miller (O Cavaleiro das Trevas).

Will Einser

 

Em 2001, durante sua última visita ao Brasil, Eisner concedeu uma entrevista exclusiva ao Universo HQ, cujo título é A maior “lenda viva” dos quadrinhos. E ele não será mudado, pois temos certeza de que ele permanece vivo na memória de cada um de seus leitores.

Uma pena, porém, que quando o assunto é morte, a realidade não consegue imitar a ficção. Afinal, com absoluta certeza, seus fãs desejariam que Will Eisner repetisse os passos de Denny Colt, o seu “filho” mais ilustre.

Sidney Gusman e Sérgio Codespoti não gostariam de interromper as férias do Universo HQ para dar uma notícia tão triste. Apesar disso, ambos se esforçaram muito para produzir uma matéria à altura da grandiosidade de Will Eisner. E, ainda assim, sabem que foi pouco!

Homenagem do desenhista baiano Flávio Luiz: Eisner encontra Gerhard Shnobble, um dos mais marcantes coadjuvantes do Spirit

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