Prof. Pardal: 65 anos de invenções e invencionices

Por Marcus Ramone
Data: 1 maio, 2017

Um dos personagens mais importantes dos quadrinhos Disney, o avoado cientista já entrou para a posteridade na cultura pop mundial.

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O inventor mais famoso do mundo não vive no mundo real. Morador da fictícia cidade de Patópolis, ele foi criado pelo quadrinhista Carl Barks e se tornou um dos mais conhecidos e queridos personagens da galeria Disney.

A partir de sua estreia, em maio de 1952, na HQ Gladstone’s terrible secret (no Brasil, A sorte do Gastão ou A sorte é para quem tem), não foram necessários muitos anos para o tresloucado Prof. Pardal virar ícone da cultura pop mundial, tornando-se sinônimo de gênio inventivo não apenas na seara científica, mas em outras áreas das atividades humanas – como o esporte e a música -, citado até mesmo por quem jamais o reconheceria se o visse numa revista em quadrinhos.

Sua influência na vida real vai ainda mais além do que emprestar o nome como apelido para pessoas inteligentes. O maior exemplo disso é o inventor norte-americano Dean Kamen, que não só carrega o título de verdadeiro Prof. Pardal, como se inspirou no personagem para criar algumas de suas invenções, como o Segway.

Neste mês de maio, ao completar 65 anos de vida editorial, o genial cientista dos gibis Disney comemora mais uma década de intenso e ininterrupto trabalho nos quadrinhos, sempre presente nas HQs como parceiro de aventuras da Família Pato ou protagonizando suas próprias histórias.

Uma trajetória de sucesso que até hoje permite a ele estrelar almanaques, edições especiais e linhas de estatuetas e figuras de ação, além de ter reservado ao inventor o auge de sua carreira: um espaço importante na série de desenhos animados DuckTales, a animação Disney de maior sucesso na TV.

Sujeito boa praça

Ele é workaholic, desorganizado, atrapalhado e muito biruta (a prova disso são as invenções inúteis, como a “máquina de não fazer nada” e coisas como o chapéu pensador – um pequeno telhado com um ninho de corvos, que supostamente o ajuda a ter novas e malucas ideias – e o oralicóptero, uma máquina voadora movida a “quacs” do Pato Donald).

Como se não bastasse tudo isso, ele ainda dorme pouco, se alimenta mal e não tira férias – quando muito, um reles descanso de algumas horas para um piquenique, durante o qual não para de pensar em trabalho ou inventar alguma parafernália contra as formigas.

No entanto, para todos os pontos negativos existe sempre a presença do minirrobô Lampadinha – a maior criação do Prof. Pardal e seu melhor (talvez único) amigo – para colocá-lo nos eixos e situá-lo no mundo dos normais.

Mas, não há como negar: o Prof. Pardal é um poço de virtudes que, à parte a comicidade inerente ao seu conceito, angaria de imediato a simpatia dos leitores.

O cientista maluco é a gentileza, o diletantismo e a abnegação num único galináceo. Isso explica o fato de ele não cobrar nada aos pobretões Donald, Peninha e Zé Carioca para produzir os artefatos que os três usam contra o crime em suas respectivas identidades de Superpato, Morcego Vermelho e Morcego Verde.

Da mesma forma, às vezes, não recebe nada do Tio Patinhas – e nem adiantaria cobrar – para criar todas as armadilhas da Caixa-Forte ou as espaçonaves e outros maquinários de transporte que levam o pato muquirana e seus sobrinhos em aventuras por lugares longínquos da Terra e da própria Via Láctea.

Na esfera íntima, é tão cavalheiro com as mulheres que não tem coragem de ceder às investidas delas, nem mesmo às da implacável Emengarda.

É ainda um tio dedicado que cuida da educação do sobrinho-prodígio Pascoal, um gênio mirim que quase rivaliza com ele em inteligência.

Como amigo, é leal como poucos, chegando ao ponto de assumir os problemas de certo pato enfezado para livrá-lo da fúria de um conhecido velho “quaquilionário”.

Quanto aos inimigos, demonstra compaixão até pelo maior deles, o Prof. Gavião, que está sempre roubando suas invenções ou tentando desacreditá-lo diante do povo de Patópolis.

Também não se pode esquecer que muitas invenções do cientista são fruto da observação que faz das necessidades dos patopolenses. Tudo para o bem da população e pela melhoria de vida dos menos abastados.

E se, em várias ocasiões, o resultado disso é catastrófico – e não menos divertido para os leitores -, invariavelmente a culpa é dos que usam as parafernálias do inventor de forma errada ou antes que ele realize os testes finais.

Um exemplo de que Patópolis reconhece tudo que o Prof. Pardal fez pelo povo pode ser visto na história De volta para o presente (Tio Patinhas # 446, Editora Abril, setembro de 2002). Na aventura, Lampadinha vai parar 500 anos no futuro e descobre como o inventor é cultuado nessa época, com direito a museu e estátua gigante na cidade – até seu velho laboratório caindo aos pedaços foi preservado.

Apesar do bom coração, há poucos anos o Prof. Pardal revelou um lado malévolo que surpreendeu a todos. Na HQ italiana Paperinik e l’amichevole minaccia – publicada no Brasil pela Editora Abril, em Tio Patinhas # 560 (março de 2012), com o título A ameaça amigável-, a personalidade má do cientista dominou seu corpo e o transformou no Dr. Maluco, um supervilão que aterrorizou o Tio Patinhas e ajudou os Irmãos Metralha contra o pato ricaço.

Felizmente, os dois foram separados e o vilão se tornou uma entidade à parte. Os fãs do simpático inventor podem suspirar aliviados, sabendo que o adorável personagem não carrega mais nenhum mal dentro de si.

No país tropical

Quatro anos depois de publicada nos Estados Unidos, Gladstone’s terrible secret chegou ao Brasil, na revista Mickey # 51 (Editora Abril, dezembro de 1956), apresentando Gyro Gearloose a novos leitores, que, em pouco tempo, o acolheram como um de seus nomes preferidos da Disney.

E coube ao então roteirista e tradutor Alberto Maduar a honra de criar o nome brasileiro do personagem – e o de Little Helper, que passou a ser conhecido no País como Lampadinha.

É provável que a opção por batizá-lo como Prof. Pardal tenha sido uma escolha inspirada na aparência do personagem, que na verdade é uma ave antropomorfizada pertencente à ordem dos galiformes, não à dos passeri (da qual os pardais fazem parte).

A primeira HQ do Prof. Pardal criada no Brasil foi O rei do Ié-Ié-Ié, publicada pela Abril no gibi Zé Carioca # 869, em julho de 1968. Na aventura, ele contracena com o papagaio caloteiro, iniciando uma parceria que rendeu muitas outras histórias, sempre que o cientista visitava o Rio de Janeiro ou o malandro carioca dava as caras em Patópolis.

As aventuras do personagem produzidas pelo Estúdio Disney da Abril sempre primaram pelo humor nonsense característico das histórias em quadrinhos Disney criadas no Brasil. Uma união perfeita com as qualidades do Prof. Pardal como agente de trapalhadas e esquisitices.

No País, ele foi – e continua sendo – título de gibis e manuais temáticos e não deixa de visitar mensalmente as revistas de outros personagens da turma de Patópolis.

Marcus Ramone é conhecido em sua família como Prof. Pardal, por inventar as mais geniais e mirabolantes desculpas para não sair de casa quando está passando jogo do Flamengo na TV.

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  • Alessandro Souza

    Feliz aniversário ao maior inventor dos quadrinhos. E para todos os fãs de boas histórias.

  • Chefe O’Hara

    Bem lembrado Sr. Ramone! Sinto saudades daquelas histórias brasileiras do Pardal… como sinto das dos outros personagens. Só os roteiristas brasileiros conseguiam me fazer rir, justamente por adaptar o universo Disney ao nosso tipo de humor.

    Espero que essa crise da desgraça passe logo e que a Abril recomece o incipiente projeto de trazer de volta o estúdio local, que estava começando a dar frutos com as HQs inéditas de Zé Carioca.

  • Gustavo Augusto O. Martins

    Coitado do Professor Pardal! rs Nunca teve uma paleta padrão de cores: nas HQs brasileiras, ele tem os cabelos rosados; nas italianas, ele é loiro e, em outras, tem os cabelos castanhos (como na ilustração acima). E na animação de DuckTales, ele é ruivo! rs